domingo, 15 de abril de 2018

TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME (2017)


Quase ganhou o Oscar de melhor filme este Três Anúncios para um Crime. Digo quase porque o filme era praticamente um vencedor já (aliás, ganhou o BAFTA e o Globo de Ouro), quando A Forma da Água veio e levou. Martin McDonagh decidiu apostar num filme sobre intolerância e violência, se a aposta poderia ser certa, não demorou para que se instalasse uma controvérsia ao redor do filme, principalmente nas acusações de apologia racista que este recebeu. Verdade é que poucos filmes traduzem tão bem a essência do cidadão americano dos nossos tempos: guiado por uma violência generalizada e que se instaura em todos os núcleos de sua vida, a família, o trabalho, as relações interpessoais, amorosas, etc. A violência que permeia esse way of life é o objeto de estudo de um conto corrosivo sobre uma mãe buscando vingança pela morte da filha, que a polícia de sua cidadezinha não conseguiu resolver. As consequências de um ato de protesto — a mulher inaugura três anúncios à beira de uma estrada denunciando a imprudência do chefe de polícia — afetaram a vida de cada um dos personagens deflagrados.

É intenso, muito intenso. Evidentemente, há problemas. O roteiro por vezes é demais repetitivo (literalmente, quero dizer). As reviravoltas se sucedem com primor, mas há uma substância ausente nelas (e isso é bem perceptível). Se pesam as irregularidades que tanto difamaram um filme que tinha tudo (e tem muito) para ser explosivamente expressivo, Frances McDormand e Sam Rockwell (ambos vencedores do Oscar) dão um show. Aliás, elenco aqui é indiscutivelmente exemplar. Temos Harrelson, Caleb Landry Jones, Lucas Hedges, Abbie Cornish, entre outros, que completam a lista de personagens. 

Recheado com momentos agressivos e regados a uma tensão fora de si, Três Anúncios para um Crime traça os caminhos da América de Trump, a terra onde a intolerância reina e o ódio é pregado não só pelos culpados, mas também pelas vítimas. O desejo de represália pulsa na veia desses seres tão corrompidos pela violência que os cerca, sem saber para onde correr, a não ser executar ardilosamente aquilo que os prende, e, de certa forma, "liberta". Redentor na sua condição de "filme de tempos", enquanto consegue traçar seus planos com uma excelência bárbara, Três Anúncios para um Crime se salva graças ao brilhantismo de suas propostas. A trilha sonora é tão bela (Carter Burwell!) que não há como não se emocionar diante de certas cenas, como aquela em que a McDormand conversa com um cervo. Pode soar bizarro assim, mas é uma das sequências mais vibrantes do longa. Assim como aquela do incêndio na polícia, a mais impactante de todas. 

Três Anúncios para um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)
dir. Martin McDonagh
★★★½

Nenhum comentário:

Postar um comentário