quarta-feira, 18 de abril de 2018

MUDBOUND (2017)


Desde sua estreia em Sundance no ano passado, Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi era tido como um dos maiores filmes do ano e, em suma, possível concorrente ao Oscar, fato que se consumou em janeiro passado, com as quatro importantes indicações que ele recebeu: fotografia (a primeira vez que uma mulher, Rachel Morrison, foi nomeada nessa categoria, em 90 anos de prêmio), roteiro adaptado (categoria na qual a própria diretora do longa, Dee Rees, foi reconhecida, tornando-se a primeira mulher negra a aparecer nessa categoria), atriz coadjuvante e canção original (ambas detidas por Mary J. Blige, por sua atuação fenomenal e pela linda canção "Mighty River", que encerra o drama, e casa muito bem não apenas com os temas desenhados ao longo da projeção, mas também com o próprio clima do épico, que se instala diante de um conflito entre duas famílias dividindo um mesmo terreno na Mississipi pós-escravocrata, nos anos 30. 

O filme, estruturalmente falando, é como um romance, acompanhando suas personagens e desenvolvendo em torno delas um círculo narrativo bastante expressivo. Dee Rees detém uma dimensão significativa do poder novelístico de Mudbound (leve-se em consideração que é adaptado de um romance escrito por Hillary Jordan), o que ajuda diretamente no manejo dramático, articulando grandes momentos cinematográficos e personagens extremamente bem trabalhados. 

Talvez possa ser até mais simples (ou simples demais) para se esperar de um filme de época, embora Rees saiba exatamente como conduzir essa sutileza, tateando cada elemento e explorando tudo o que sua história tem a oferecer de forma precisa e consistente. É um brinde a cada cena, há dor, há sofrimento, a diretora passa por tudo isso, da mesma forma que, por trás dessa tragédia, resida um amor maior, uma esperança inabalável.

Não deixa de ser, entre outras coisas, uma grata surpresa, esse Mudbound. Há uma maturidade que há muito não se via, para enfrentar e delinear cada um dos planos narrativos. O elenco está em estado de grandeza. Carey Mulligan (a mulher que vive um romance com o irmão do marido), Jason Mitchell (o filho que retorna da guerra para se deparar com outra), Jason Clarke (o pai de família que se muda para a fazenda onde a narrativa se instaura), Rob Morgan (o pai negro lidando com a chegada de uma família branca), todos excelentes. 

E, acima de tudo, há delicadeza para introduzir cada passo que a narrativa toma. Dee Rees revela uma competência admirável, e a nobreza de seu filme sobre o conflituoso convívio entre negros e brancos em uma região rural o transformou em um dos maiores e mais bem feitos destaques do cinema americano em 2017. Uma pena não ter ganhado nenhum dos Oscars aos quais foi indicado, embora merecesse cada um deles. 

Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi (Mudbound)
dir. Dee Rees
★★★★

2 comentários:

  1. Está na minha lista. Pretendo conferir em breve.

    Abraço

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  2. Confira, Hugo. Eu gostei bastante. Abraço!!!

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