domingo, 4 de março de 2018

PROJETO FLÓRIDA (2017)


Eu sei que palavras não vão ser suficientes pra definir o quanto eu amei incondicionalmente cada segundo desse filme, mas vou tentar de qualquer forma. Projeto Flórida — do que tem de delicioso, tem de amargo na mesma medida. Sean Baker (do ótimo Tangerine, filme que talvez seja mais lembrado por ter sido filmado inteiramente num iPhone) não tem pudores na hora de mostrar a realidade, mas é justamente na inocência dessa história sobre, principalmente, minorias buscando um espaço e um lado do sistema que ninguém quer mostrar (especialmente no cinema americano), que o diretor foca para encontrar a beleza no meio do caos e da miséria no "lugar dos sonhos". E também acaba encontrando, entre outras coisas, dentro das suas camadas de personagens e subtramas essencialmente vivas, uma humanidade dilacerante, visceral, riquíssima em todos os seus aspectos. Entra então o belíssimo Projeto Flórida, essa graciosa obra-prima que, surpreendentemente, trata-se do melhor que o cinema americano nos proporcionou em 2017. 

Crianças que brincam e vivem seus dias de felicidade durante a temporada de férias, e adultos que sofrem para poder contornar a difícil realidade na qual estão inseridos. É a pobreza no país mais rico do mundo, a nação americana vista do lado de baixo, das minorias, dos ignorados, deixados para trás, e tão próximos do "mundo perfeito". Baker cria um universo em que esses personagens são acolhidos tão humanamente, com um calor tão verdadeiro, que é impossível não desenvolver simpatia por cada uma dessas figuras retratadas tão autenticamente num filme que se inspira na desordem pra encontrar a essência mágica da vida que está presente ali, dos moradores que digladiam uns com os outros para depois se consolarem, do síndico que executa suas responsabilidades à risca mas também desenvolve um afeto extremamente genuíno com todos os personagens, aos trancos e barrancos que a convivência humana proporciona.

Muitas coisas me maravilharam aqui, desde como o Baker dirige seu filme extraindo cada pedacinho de ternura e virtude que é possível, até as atuações vibrantes e excelentes de vários atores, e nem todos conhecidos. É claro, temos o Willem Dafoe, cuja atuação foi altamente elogiada e premiada (e muito justamente, ele tá incrível aqui), mas também há as iniciantes Brooklynn Prince (como a garotinha sapeca que vive aprontando com os amigos nos arredores do motel) e Bria Vinaite (esta dá um show de atuação, em seu primeiríssimo papel no cinema, como a mãe dessa garotinha).

Existe uma série de cenas fascinantes, engraçadas, muitas delas envolvendo as crianças fazendo estripulias e mexendo com os outros moradores, e depois fazendo coisas que crianças fazem — e no que diz respeito a isso o filme tem uma visão bastante singular — dando lugar, aos poucos, a um final que conecta a doçura infantil do filme à brusca realidade que corre por baixo dela. O desfecho é essencialmente triste, e guarda, principalmente, uma cena que me tocou profundamente, que é a da Moonee se despedindo da melhor amiga (não dá pra segurar as lágrimas). 

Projeto Flórida é sobre viver nas margens da vida, procurar um lugar pra se fixar, enxergar a vida através dos nossos sonhos por mais amarga que a realidade possa ser (ou por mais que ela tente te derrubar). É extremamente doce em tudo, na fofura do seu elenco infantil, no afeto que transborda de cada frame, no seu inspirado retrato que capta as emoções mais avassaladoras e as mais gostosas também, fazendo com que o espectador se emocione (e se encha de alegria). É um conto adorável onde inocência e perdição andam lado a lado, mesmo sem saber disso, cada uma dando lugar aos sentimentos que permitem, e às vezes preenchendo umas às outras.

Eu não posso resistir um filme tão gostoso assim, é maravilhoso demais, e tudo o que eu sinto por ele é simplesmente amor, amor, amor. Todos esses personagens, todos esses lugares, todas essas emoções, todas essas histórias parecem estar conectadas de alguma maneira com o que me rodeia agora, com esse universo que faz parte da minha existência, é uma parte da qual eu não posso me desprender, mas que a cada dia me surpreende com a humanidade que exala e o intenso calor que evoca, provando que não existe nada mais forte no mundo que os sentimentos. Já é o melhor filme do ano pra mim, so far. Lindo pra caramba. 

Projeto Flórida (The Florida Project)
dir. Sean Baker
★★★★★

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