domingo, 25 de março de 2018

LADY BIRD (2017)


E não é que Greta Gerwig realmente se revelou como diretora em 2017? E foi a revelação mais bem falada do ano, elogiada aos montes. Acho que foi um pouco surpreendente constatar que o longa chegou ao nível de ser indicado ao Oscar e receber vários prêmios e indicações, tornando-se um queridinho da temporada de premiações. Talvez nem a própria Gerwig, musa do cinema independente americano, esperava que seu filme fosse ecoar tão alto. O que não significa que ele não tenha merecido todos esses reconhecimentos. Afinal, estamos falando de um filme que exala uma sensibilidade nata ao retratar, de forma delicada e precisa, a relação conturbada entre uma mãe e sua filha, vivendo na cidade de Sacramento (Califórnia), e, mais proximamente, a adolescência da última e todos os altos e baixos de uma fase complicada, marcada por descobertas, mudanças e aspirações.

Lady Bird é um filme que, em primeiro lugar, respeita seus personagens, seus espaços, suas formas de viver, suas emoções e os desenlaces das relações que eles mantém uns com os outros, seja no núcleo da mãe e da filha, da filha com o pai, da filha com o namorado, a melhor amiga, etc. A adolescente desvairada e ansiosa por se transformar naquilo que aspira, Christine (em performance mais que espetacular de Saoirse Ronan) colide com a mãe (por Laurie Metcalf, genial em todos os sentidos possíveis, esnobada no Oscar) que, de certa forma, parece não compactuar com a geração que sua filha incorpora, a geração dos anseios e das necessidades impulsivas de auto-afirmação. Embora possamos testemunhar diversas cenas de desentendimentos e brigas entre as duas, é entre essas personagens que se estabelece a relação amorosa mais intensa da narrativa. Por isso, é uma relação conduzida com uma delicadeza ímpar, embora as duas se desencontrem tanto, mas acabem se amando mais do que podem saber (talvez a mãe esteja mais ciente disso do que a filha). 

Lady Bird, deslocada, não consegue se encaixar naquela cidade, quer se mudar, se tornar uma artista, fugir do universo mundano, fazer parte de um mundo que está distante dali. Embora a proximidade seja mais explorada, a distância é algo que parece fazer parte também dos complexos da personagem, que se vê mais realizada distante de tudo aquilo ali, quando na verdade é em Sacramento onde ela se encontra, mesmo sem saber que ali é, na verdade, o seu próprio mundo, o seu lugar, a sua casa. De tanto querer se afirmar, ela acaba negando a sua essência. De certa forma, é a universalidade do jovem de uma geração que cresceu acostumada a absorver em sua cultura interior uma espécie de auto-afirmação e preservar mais aquilo que não está ao seu alcance, o intocável, o abstrato, o que cultivamos à priori. 

A forma como o filme se desenrola nos oferece momentos de singularidade e excelência, quanto a delicadeza de um retrato que sabe o que quer, se escorando na simplicidade para expressar todos os seus focos. Gerwig é tão boa diretora/roteirista como atriz e isso pode ser evidenciado em diversos momentos deste trabalho (que é semi-autobiográfico, inclusive) em que nota-se a maturidade de uma condução excepcionalmente bem construída. Há também, como destaque, uma trilha fenomenal da autoria de Jon Brion, e uma fotografia de momentos ímpares. 

Lady Bird é sobre se sentir em casa. Os encontros e desencontros da vida. Sonhos e realidade. Enxergar seu mundo fora dele. Retornar e não querer sair. A necessidade de se enxergar por outros filtros. Fazer suas decisões. Lidar com consequências. Estar à deriva em si mesmo. Não poder fugir das suas incertezas. Estar preso em uma fase. Se arrepender. Não poder se desculpar, mas querer. Querer viver. Longe de tudo. Estando o mais próximo possível. Lady Bird tem mil e uma razões para ser essa obra-prima sensível que capta tantos sentimentos, e com personagens tão humanos e aprazíveis. Não há vilões, não há heróis. Lady Bird é o que é: mundano, cativo e extremamente prazeroso com tão pouco. É simples, mas complexo por se afirmar, gigante em sua compreensão de cada ponto de vista, fiel na composição dessas vidas que colidem umas com as outras, as pessoas que fazem parte de nós, e nós delas. 

Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird)
dir. Greta Gerwig
★★★★½

2 comentários:

  1. É um bom filme, mas considero a indicação ao Oscar um exagero.

    Como comparação pessoal, considero "Quase 18" que foi produzido no ano anterior um longa superior.

    Abraço

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    1. Eu achei essas ao Oscar bem surpreendentes, talvez até um "fenômeno" bem raro e estranho pro que a premiação tá acostumada a fazer, inclusive a indicação da Gerwig em direção. Mas eu tava na torcida pra que a Metcalf ganhasse (a atuação dela é ótima). Aliás, gosto pra caramba do "Quase 18" também, e que infelizmente não chegou a ser lembrado em muitos prêmios, nem no Oscar.

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