sábado, 17 de março de 2018

Alguns filmes da semana


Como escrever no blog está se tornando uma tarefa mais rara, decidi atualizá-lo semanalmente com curtos comentários sobre os filmes vistos durante a semana (e geralmente meus comentários também podem ser acompanhados no meu letterboxd). 

Veneno (Poison, Todd Haynes, 1991) ★★★★


Primeiro filme do cineasta Todd Haynes. Uma delícia. Praticamente é como se fosse Sem Fôlego só que com três linhas de narrativa distintas intercaladas que não compartilham conexões diretas umas com as outras, embora pareçam dividir da mesma intensidade e energia ao longo do filme. Interessante é que este trabalho foi influenciado por trabalhos do escritor francês Jean Genet. Provocativo, forte e necessariamente pesado: foi um ótimo prólogo para o mestre que Haynes se tornaria alguns filmes após este. Escolhi (sem saber) uma cópia VHS e me surpreendi com o quanto isso ajudou na atmosfera perversa e bizarra do longa. Há também alguns aspectos de filme de horror, evocados em diversos momentos tensos da trama, o que influencia no fato do filme ser, no geral, um tanto incômodo quando trata da liberdade sexual, do aprisionamento, dos limites aos quais somos impostos e o quanto sofremos por eles. O impacto foi demasiado. Há grandes atuações, uma trilha inspirada e, é claro, uma condução de deixar qualquer um fora de si. 

The Fits (Anna Rose Helmer, 2016) ★★★½


É muito interessante e mais interessante ainda é que se trata de um filme de uma diretora estreante. Os níveis que a mise-en-scene atinge são desnorteantes. E ainda mais quando se tem em cena uma atriz mirim tão talentosa como a Royalty Hightower, cuja brilhante atuação, na pele de uma menina que fica dividida entre as lutas de boxe e as aulas de dança no centro em que frequenta, foi tão pouco reconhecida (como o próprio filme que, embora tenha caído nas graças da crítica, teve pouca divulgação e quase ninguém fala sobre). Transita entre uma diversidade de elementos dramáticos mas nunca perdendo o próprio ritmo que a história carrega. E mesmo numa variação tão limitada de espaços, o balanço dramático e espacial que a diretora encontra é riquíssimo. Dos maiores destaques do cinema indie americano recente. 

A Garota do Café (The Girl in the Café, David Yates, 2005) ★★★


Filmezinho simpático esse. Talvez eu tenha gostado mais do que eu poderia prever. Especialmente por conta da química entre os atores principais, os ótimos Bill Nighy e Kelly Macdonald, aqui fazendo um par romântico bem atípico e gostoso de se observar. Eu posso entender as intenções do roteiro de Richard Curtis até por envolver certos pontos diplomáticos em seu contexto (um filme sobre um economista que trabalha para o governo britânico indo em uma cúpula do G8 e levando em sua companhia uma mulher que ele conheceu recentemente), mas parece que as respostas dadas parecem ser tão simples para questões tão complexas, embora seja nobre o quanto são humanas as mesmas intenções que esse roteiro desenha. Enfim, eu gostei. Serve mais como uma distração romântica do que como uma crônica política. 

bônus:
Roads of Kiarostami (Abbas Kiarostami, 2006) ★★★★½


Achei este curta inédito de meia hora do nosso querido Abbas Kiarostami e me deliciei com tamanha simplicidade. Temos uma série de imagens (fotografias tiradas pelo cineasta em estradas, caminhos e paisagens que ele visitou) seguidas por uma narração do mesmo e uma trilha belíssima. É a perfeita definição do que cinema poético é. Mesmo com pouco, Kiarostami extrai desses simples gestos de combinar imagens, palavras e música algo tão forte e cinematograficamente poético que nossa única reação é ficar ali, parado, abismado e encantado com a disposição. É calcado na sutileza de um olhar, mergulhado na paixão de quem encontra numa fotografia o monumento para uma vida. 

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