domingo, 18 de fevereiro de 2018

A MELHOR ESCOLHA (2017)


Se A Melhor Escolha não foi tão bem recebido como outros trabalhos do Linklater, já se trata de uma baita injustiça já que se trata de um dos melhores filmes americanos do ano passado, e quase ninguém falou ou mencionou ele em nenhum lugar. Bem, se temos aqui um trabalho subestimado de um dos mais queridos cineastas dos nossos tempos, não podemos dizer que se trata de um filme menor por conta disso – aliás, o contrário é o mais cabível aqui. Linklater nunca esteve em má forma, pelo menos não nessa década, que ele nos presenteou com grandes filmes como Boyhood, Antes da Meia-Noite, BernieJovens, Loucos e Mais Rebeldes e – o mais novo nessa conta – A Melhor Escolha.

A nostalgia é recorrente nos filmes do Linklater. O tempo é analisado, dissecado, abordado, exumado, a cada filme que o cineasta realiza. O exercício constante de estar examinando o tempo (e o efeito do tempo) nos seus personagens confere em seus trabalhos um senso muito consistente e apurado de precisão narrativa e dramática, principalmente. Acho que é aí que entra A Melhor Escolha, um filme que se comunica muito bem com essa questão do tempo ser um agente muito determinante nas nossas vidas, seja no peso do passado, na incerteza do futuro, na ansiedade do agora. 

Os três amigos que se reúnem nesse filme por intermédio de um evento muito trágico na vida de um deles serviram juntos na Guerra do Vietnã e desde então não se encontravam mais. Estamos falando de um hiato de quase 40 anos. O presente – selado por um reencontro marcado por nostalgia – pode ter esculpido em cada uma daquelas vidas personagens diferentes: o irreverente dono de um bar e um pastor – mas que, há 40 anos, foram enclausurados na mesma personagem, nas testemunhas de uma guerra violenta e marcante que mudaram suas vidas para sempre. Então, de certa forma, compartilhar a mesma experiência e o mesmo personagem é algo que serve de laço para aqueles três homens, e que torna ainda mais forte o evento trágico na vida de um deles, que acabou de perder o filho justamente na Guerra do Iraque. 

Linklater, como um mestre que é, se aproxima de cada evento dramático com muita delicadeza, o que torna cada uma das performances do trio, composto pelos incríveis Bryan Cranston, Laurence Fishburne e (um ainda mais talentoso e provavelmente nunca visto tão bem assim em um drama) Steve Carell, dotada de comoção e singularidade. É claro, certas atuações menores também mostram-se destaques: a lendária Cicely Tyson como a mãe de um dos soldados que serviram junto com o trio, Yul Vazquez como um tenente carrasco e J. Quinton Johnson como um jovem soldado que acompanha os três veteranos numa viagem de trem e que era muito próximo do filho morto. 

Tratando com o peso de um evento dramático tão forte, Linklater ainda encontra brechas para se escorar no humor e na leveza para também dar uma dimensão de que este também é, além de um drama das consequências da guerra, um filme "buddy". A força com que a nostalgia se encaixa em ambos esses lados é no mínimo desnorteante.

Há momentos genuínos e de uma intensidade ostensiva, mas tudo decalcado com um olhar muito delicado e sensível, o que mais e mais se mostra raro em dramas hoje em dia, por isso é muito satisfatório quando a gente se depara com um filme que faz isso tão magistralmente. As guerras que cada geração tem que enfrentar, o tempo que imprime em seus transeuntes marcas, acontecimentos, pesos e mais pesos, a tragédia coletiva de uma nação, e a tragédia pessoal de um homem tendo que enfrentar o próprio filho vitimado pelo ódio. O reencontro entre três testemunhas da guerra, inseridas no turbulento ocaso de uma nova. A América das mentiras. Linklater entrega um dos mais necessários e injustiçados filmes do ano, um tesouro do cinema. 

A Melhor Escolha (Last Flag Flying)
dir. Richard Linklater
★★★★

2 comentários:

  1. Está na minha lista, gostei bastante da premissa e do elenco.

    Abraço

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    1. Novamente destaco o trio incrível. Linklater, que já é mestre, só comprova mais uma vez a força do seu cinema.

      Abraço!!!

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