domingo, 14 de janeiro de 2018

TOP OF THE LAKE


Agora é a minha vez de comentar um pouco sobre o mais novo trabalho da cultuada cineasta Jane Campion, que na verdade não é diretamente ligado ao cinema, mas que se trata de uma minissérie (na verdade duas minisséries distintas): Top of the Lake (2013) e sua continuação, Top of the Lake: China Girl (2017), criação dela em parceria com o roteirista Gerard Lee. 

Top of the Lake (2013)
diretores: Jane Campion & Garth Davis
★★★★


Começa com o retorno de uma detetive de Sydney, Robin Griffin (interpretada majestosamente por Elisabeth Moss, uma das maiores atrizes do momento) à sua cidade natal, um lugarzinho escondido no interior da Nova Zelândia, e prossegue com o desaparecimento de uma adolescente grávida de 12 anos e o desembaralhamento de uma trama que envolve diversos temas e histórias capturadas numa complexa rede de revelações que conectam os personagens uns aos outros, criando um laço fortíssimo entre cada um deles. 

É uma história de redenção, principalmente, mas que para chegar nesse ponto atravessa muitos perrengues. Até porque a destemida Robin Griffin, que assume o caso da jovem desaparecida, Tui, é uma mulher forte, resistente, indomável, que dá cara à tapa para poder afirmar seu lugar num mundo dominado pela figura masculina que sempre (ou quase sempre) é retratada com muito ódio, pintados como emissores do mal e da vilania (e as mulheres, que aqui são retratadas como seres machucados e à procura da liberdade, são as vítimas dessa vilania, e que, nesta trama, tem seus caminhos definidos pelas feridas provocadas pelos homens nas suas histórias particulares e os rumos delas). Inclusive um dos personagens, interpretado por Peter Mullan, pai da garota desaparecida, é um sujeito tão desagradável que a maior parte do tempo é visto com muita antipatia e um certo rancor e o seu comportamento brutal, quase animal, que se manifesta não só na forma como ele trata as mulheres mas também os homens, como é o caso dos seus filhos, que também são vitimados (e foram moldados) pelo comportamento irascível e odiável do pai. 

Se há um vilão na história, é ele. E se há uma heroína, bem, temos então Robin Griffin, a detetive cuja missão (inicial) é re-estabelecer a paz e a segurança na cidadezinha e resolver o misterioso caso de Tui (isso antes dela desaparecer, quando sua gravidez é descoberta e existe um grande risco dela ter sido vítima de estupro, embora a menina não se pronuncie a respeito disso, quase não diz uma só palavra, muito contida, reservada).

Outra personagem bastante interessante da trama (e enigmática, digamos) é a G.J., interpretada misticamente por Holly Hunter, uma mulher com espécie de poderes espirituais que se trata de uma espécie de guia para um grupo de mulheres que está acampando numa região chamada Paradise. As falas dela são incríveis e a atuação da Hunter valoriza bastante o poder que essa personagem tem. 

Campion, que já dirigiu filmes como O Piano, lida com o brutal e o amargo com um puro brilhantismo na sua condução repleta de energia e domínio. Sabemos que se trata de uma minissérie, mas é ótimo quando temos uma cineasta por trás do projeto, que recebe um tratamento mais cinematográfico, o que é bastante especial. E Campion, dos cineastas que estão "migrando" para a TV, é um dos principais destaques com este belo, sensível, cruel e duro conto sobre encontros entre passado, presente e futuro e as cicatrizes que carregamos nas nossas vidas, e a(s) história(s) por trás dessas cicatrizes. Comparações foram feitas entre Top of the Lake e Twin Peaks, o que de fato não deixa de ter sua parcela de verdade.

Top of the Lake estreou no Festival de Sundance e também foi exibido no prestigiado Festival de Berlim, em 2013.

Top of the Lake: China Girl (2017)
diretores: Jane Campion & Ariel Kleiman
★★★★★


Se em Top of the Lake as revelações da personagem Robin Griffin ganharam uma atenção diferenciada ali pros últimos episódios, em China Girl temos um foco ainda mais extenso dentro dessa personagem, que desde a primeira minissérie, quando passamos a saber mais os detalhes do seu trágico passado, já tinha uma abordagem mais diferenciada dos outros núcleos da trama, afinal é o núcleo dela que guia (e conecta) os outros, e aqui vemos uma continuação disso só que com um certo amadurecimento da construção dramática de Griffin.

Agora o cenário é outro. Saímos da cidadezinha do interior e entramos na metrópole oceânica Sydney, na Austrália, onde Griffin agora trabalha como detetive no mesmo departamento de abusos e crimes sexuais. Já se passaram quatro anos desde os eventos na Nova Zelândia, e muitas coisas se passaram desde então: Griffin, que ia se casar com Johnno, o deixou depois que descobriu, no dia de seu casamento, que ele a traia; com isso ela ruma a Sydney, ainda partida, talvez procurando uma forma de se redimir. É aí que entra a filha de 17 anos dela, Mary, que tem problemas com a sua mãe e que está prestes a se casar com um homem bastante problemático, um ex-professor chamado Alexander, que vive dentro de um bordel onde ensina prostitutas asiáticas "a falar inglês". O pensamento "revolucionário" dele acaba contaminando Mary, quem ele acaba incentivando a entrar na prostituição.

Robin começa a investigar um estranho assassinato em quem uma jovem asiática foi encontrada morta numa mala. E ao mesmo tempo, inicia uma nova relação com sua filha biológica, quem ela nunca tinha encontrado antes, e aos poucos vai se tornando uma presença forte na sua rotina. Outra pessoa que também vai marcar esse novo capítulo é Miranda, a policial que acompanha Robin em suas investigações, com quem ela inicialmente não compactua, apesar de desenvolverem uma amizade inusual e até um pouco cômica, às vezes.

Se aqui Campion vai mais fundo no que diz respeito à abordagem (dissecação) das temáticas que surgem nas tramas interligadas (prostituição, adoção ilegal, barriga de aluguel, etc.) pode-se dizer que o mesmo acontece na narrativa, que de certa forma se aprofunda, em especial com os personagens, e por um outro lado dramaticamente também. Pode-se dizer que este trabalho é superior ao anterior, mesmo que os dois tenham méritos que os qualifiquem quase que igualmente. Campion prova que a delicadeza também pode nascer da brutalidade e da crueldade da vida, tão desnorteantes são as suas histórias que, no final, se provam mais humanas do que poderíamos prever. Top of the Lake é, então, um trabalho sobre humanidade, sobre descobrirmos através das nossas próprias feridas e de como lidamos com elas, a capacidade de amar. E de como transformamos as pessoas com quem convivemos. Elenco gigante, China Girl é uma pequena grande obra-prima da TV.

Foi exibido fora de competição no Festival de Cannes 2017, como parte da seleção especial do aniversário de 70 anos. 

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