terça-feira, 16 de janeiro de 2018

RODA GIGANTE (2017)


Se nos últimos anos Woody Allen tem ficado mais reservado à sua "zona de conforto", sempre revisitando velhas temáticas e fórmulas, mas gerando resultados até positivos e com suas parcelas de acertos, que se sucedem nessa linha de tramas e personagens que parecem pertencer a um mesmo universo. Se alguns enxergam esse retorno como uma mera preguiça, os exercícios de Allen em revisitar esse universo e tentar aprofundar ainda mais personagens que são tão conhecidas da sua obra, vez ou outra geram um resultado que acaba surpreendendo pelos pequenos toques de originalidade que surgem nas arestas, como pequenos milagres do cinema.

É aí que entra Roda Gigante, o mais novo filme do nova-iorquino (seu 47º longa), que é um exemplar muito bem-feito dessa nova fase "digital" da carreira de Woody que começou recentemente em 2016 com o belíssimo Café Society, que me deixou nas nuvens. A partir desse filme, Allen aderiu à fotografia digital com o auxílio do sempre magistral Vittorio Storaro, parceria frutífera que está rendendo à filmografia do Allen um toque até mais sofisticado e acentuado no quesito da fotografia, que, se já tinha se mostrado perfeitamente brilhante em Café Society (filme repleto de momentos memoráveis de construção fotográfica) pode-se dizer exatamente o mesmo de Roda Gigante, cuja fotografia é daquelas que fazem marejar os olhos e nos elevar dentro da sala de cinema, transformando a experiência num belo deleite para o espectador.

Apesar da doçura do seu antecessor, Roda Gigante é um trabalho pra lá de amargo, quando Woody adentra o melodrama com traços trágicos para contar a trajetória de Ginny, uma garçonete que sonha alto que busca nos velhos sonhos e memórias e numa relação extraconjugal com um salva-vidas que também é dramaturgo (Justin Timberlake) uma fuga dos problemas do presente e de sua realidade dura (casada com um homem violento e de temperamento atribulado, um operador de carrossel, que vive a maltratando). Tudo muda quando ela recebe a visita da jovem Carolina, filha de seu marido com uma ex-mulher, que por sua vez está fugindo de um gângster perigoso com quem se casou, e encontra abrigo na casa do pai, um lugar tempestuoso que fica dentro de um parque de diversões, com vista para uma roda gigante. 

Com a pompa, a amargura e a explosiva teatralidade dos textos melodramáticos de mestres da dramaturgia como Tennessee Williams e Eugene O'Neill, e um traço cinematográfico repleto de charme e elegância reforçado pelo lindo trabalho de Storaro e pelos cenários minimalistas e que casam tão bem com essa veia teatral da narrativa, Woody Allen traz à tona esses personagens envoltos em seus dramas pessoais que acabam se alinhando graças ao destino e veem suas vidas colidirem com esses transtornos que surgem no caminho: a traição de Ginny e a paixão entre Mickey, o salva-vidas, e Carolina, e uma série de eventos que partem disso, temperam o drama e estabelecem a tragédia que enegrece os rumos da história. Os mistérios do coração... 

A casa é um ambiente frequentemente dominado pela desencanto, pelos momentos de tensão e amargura, o palco dos ataques de Ginny e Humpty, enquanto também acaba sendo o cenário que gera alguns dos planos mais belos do filme, como aquele em que Ginny está experimentando figurinos com o filho. Já a praia é um lugar associado a uma ideia de graça, de um certo encanto que acaba unindo essas personagens e dando um novo tom às suas vidas melancólicas, é lá que Ginny (e Carolina também) encontra pela primeira vez Mickey, além das meigas cenas de amor que se passam nessa locação. Há um jogo bastante autêntico com as cores e como elas acabam dialogando com a narrativa e os cenários, chegando a um nível de quase fantasia, nesse aspecto. 

É mais uma crônica sobre as eventualidades e os acasos da convivência humana e os seus vertiginosos conflitos, com aquele olhar que só o Woody sabe conferir quando se trata do tratamento de seus personagens, os sonhadores, desiludidos, perdidos e desencontrados. Tudo vai conduzindo a um final necessariamente obscuro, que se não surpreende muito, pelo menos fica marcado pela condução deliciosamente prazerosa. 

O elenco está em um estado de pura graça. Kate Winslet, que há tanto não aparecia tão bem, dá vida a uma personagem com todas as suas crises nervosas, histerias, perdições e falas neuróticas. Nesse ponto (e em outros elementos dentro da narrativa) a comparação a Blue Jasmine é inevitável, ficando até mais evidente naquela cena da epifania de Ginny durante a visita de Mickey, perto do final. Jim Belushi e Juno Temple também estão formidáveis em cena. E até o Justin Timberlake encaixou excelente no papel dele. 

Dado isso, esse melodrama que parece homenagear a Hollywood dos anos 50 pós-guerra com um visual até meio aperfeiçoado e com seus magistrais toques de artificialidade que reforçam a impressão dramatúrgica da narrativa, prova que Woody Allen consegue fazer um belo trabalho partindo de histórias amarguradas e desencantadas, que parecem encontrar justamente no que a vida tem de mais triste e melancólico um lar para depositar seus impulsos embebidos de autenticidade e pura emoção. É, sobretudo, honesto, de certa forma um caos calmo no meio de toda aquela instabilidade e frenesi, e essa ideia dramática casa muito bem com o que o filme cria para as suas personagens. 

Esperar arroubos de originalidade de Woody Allen a essa altura do campeonato é um pouco ilusório, digamos, mas ainda é muito bom ver que ele pode emergir de premissas que parecem ser tão descompromissadas e se revelam mais profundas do que o esperado. Isso é muito bom. E infelizmente Roda Gigante não será reconhecido tão cedo dessa forma por conta das acusações que estão rolando no momento e que acabaram desfavorecendo o Woody. Se isso vai afetar o trabalho dele como diretor, não sabemos ainda, mas ele está com um projeto novo que deve sair ainda esse ano (como tradicionalmente ocorre). O cinema estava vazio (seria um sinal de que ele está perdendo a credibilidade?) mas levemos em consideração que o filme estreou no circuito há mais ou menos umas três semanas (no finalzinho de 2017). É uma grande oportunidade conferir um trabalho do mestre Woody no cinema, até gratificante, digamos, em especial este aqui, que é muito bonito. 

Roda Gigante (Wonder Wheel)
dir. Woody Allen
★★★★

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