domingo, 12 de novembro de 2017

PERSONAL SHOPPER (2016)


Demorei a falar sobre o mais novo filme do cineasta francês Olivier Assayas, um dos maiores nomes do cinema contemporâneo mundial, esta preciosa obra que é Personal Shopper. Em Cannes, no ano passado, Assayas conquistou o merecidíssimo prêmio de melhor direção (mise-en-scène), conquista essa que foi bastante questionada até porque em 2016 a entrega dos prêmios do júri foi tida como controversa, vistas as inesperadas escolhas para filmes nem tão aclamados, e grandes filmes como Elle, Toni Erdmann, Aquarius, Julieta e Paterson saíram de mãos abanando. O caso de Personal Shopper é um filme justamente grande, que está entre os maiores destaques da edição (que foi, inclusive, uma das melhores em muitos anos no que diz respeito à seleção) mas que acabou sendo desprezado pelos críticos. É uma pena, pois trata-se sim de um filmaço, e com vários motivos para sê-lo.

Kristen Stewart interpreta a americana Maureen, a personal shopper de uma badalada celebridade, vivendo em Paris, que começa a ter estranhos contatos mediúnicos com seu falecido irmão gêmeo, que acaba surgindo para ela em diversos momentos, como se estivesse tentando dizer algo à irmã. A moça, que tem o poder de se comunicar com pessoas mortas, inicialmente parece estar assustada com esse seu dom, mas aos poucos ela vai passando a entender melhor os eventos que estão acontecendo ao seu redor. Stewart, que raras vezes esteve tão bem em cena, prova que é uma atriz de grandíssimo porte, e está incrível, hipnotizante, nesta que é a sua mais extraordinária atuação (e que é só uma previsão do que ela tem a nos mostrar daqui pra frente). E vale lembrar que essa não é a primeira vez que ela trabalha com o diretor do filme (em Acima das Nuvens, ela estava brilhante, ganhou vários prêmios e quase chegou ao Oscar, pra quem não se recorda). 

Assayas capricha na construção atmosférica do seu filme, temperada por uma tensão que torna os silêncios, ensurdecedores. Aliás, tensão é uma coisa muito bem administrada em diversas cenas do longa, mesmo sem se revelar prontamente, mas que está sempre ali, como se fosse o fio condutor desse ar sobrenatural do filme, como acontece na cena do trem, que deve ser uma das melhores do filme, onde a tensão concentra-se completamente na conversa entre Maureen e um "anônimo" no celular.

A personagem de Maureen em si é arquitetada com uma certa complexidade, mas ao mesmo tempo envolta no próprio espectro sombrio que tonaliza a trama. É como se fosse ela a entregue ao desfecho de uma trama cada vez mais vertiginosa. É muito curioso também quando o Assayas faz uma conexão entre o mundo dos fantasmas e a internet, talvez o filme seja mesmo sobre "coisas que não vemos mas que estão presentes", ou como a ausência pode ser uma maneira de estar presente, indiretamente, em algo, "a vida após a morte". 

Por mais que muitos apontem este como um exemplar do gênero horror (o que parece muito lógico até por conta da temática do filme e do apelo comercial que um filme estrelado por Kristen Stewart pode fomentar as distribuidoras) mas pra mim é mais um filme noir do que horror propriamente dito. Muito digno comparar Assayas a um certo cinema hitchcockiano principalmente na forma como o gênero é trabalhado nos moldes da trama que investiga. É um jogo de suspense, e cada cena tem um certo valor nisso, nessa propriedade do thriller. Por mais que muitos considerem o noir um gênero morto, existem filmes dispostos a trazê-lo de volta ao primeiro plano do cinema, onde esse gênero já esteve, nos seus idos tempos de ouro, e Assayas se empenha justamente em catalisar o noir numa história sobrenatural sobre passado, descobertas, ausências, medos e recomeços, com um clima mais moderno e atual, mas sem deixar a pegada sinistra que sempre foi o grande "quê" do gênero morrer (e todo o seu universo). É essa relação de trazer o passado ao presente, os mortos ao mundo dos vivos, que rege Personal Shopper

Personal Shopper
dir. Olivier Assayas
★★★★★

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