quarta-feira, 1 de novembro de 2017

CRAZY HORSE (2011)


Meu primeiro filme de Frederick Wiseman. Que experiência! E pensar que eu só fui descobrir a filmografia do diretor agora, em pleno (quase) final de 2017, com essa maravilhosa, fascinante obra que é Crazy Horse. Um dos documentaristas mais aclamados, Wiseman, com mais de cinquenta anos de carreira, produziu muitos trabalhos independentes e infelizmente sua filmografia ainda é pouquíssimo conhecida e difundida, o que é uma lástima, porque ele está provando ser um dos mais ativos e íntegros cineastas do chamado gênero documental. Ativíssimo aos 87 anos, lançando em média um documentário por ano, Wiseman está aí para provar o que o cinema pode nos oferecer de melhor, com todas as suas possibilidades e experimentações.

O documental aqui pode ser chamado de cinema natural, tamanha é a naturalidade que transcorre pelo filme em suas duas horas, não necessariamente espontâneo, mas preciso e que se desenrola de maneira bastante expansiva. A ousadia aqui também é uma palavra que recorre – não por acaso, 90% do filme é composto de cenas de mulheres nuas dançando no Crazy Horse, uma badalada casa noturna de Paris, famosíssima e luxuosa, onde ocorrem apresentações de dançarinas que ousam com as mais criativas e inventivas performances. Essa exposição tão frontal da nudez pode até surpreender a quem não estiver esperando uma explosão de ousadia, mas é, por incrível que pareça, um elemento que acaba transcorrendo no filme da forma mais natural do mundo, a observação (e o ritmo) acabam gerando uma espécie de admiração, de contemplamento, não necessariamente erótico, mas sim visual, da nudez. 

É sobretudo a performance que dá o gostinho ao filme, que tempera ela. Essa obsessão, digamos, pela performance, por sua completude. Wiseman sabe filmar muito bem isso, com o olhar de poucos. Aliás, trata-se de um filme interessantíssimo principalmente pelo mecanismo com que trabalha esse olhar para a performance. É delicioso, instigante, curioso e ao mesmo tempo um espetáculo fascinante. As danças, as músicas, o ato de filmar a nudez como uma incógnita do desejo, uma performática alucinada que leva aos extremos da diversão, da expressão artística e da observação. 

Acho que não tem uma cena no filme que eu não goste, todas são imensamente interessantes e ricas, cada uma melhor que a outra. É como se cada pedacinho do filme fosse de extrema importância para a construção completa de uma obra-prima. Isso acontece da maneira mais deliciosa, sob as lentes de Wiseman, que filma toda aquela alegoria, aquele espetáculo vivo de cores e emoções, cintilantes e vigorosos, com uma expressividade magnífica. 

Crazy Horse
dir. Frederick Wiseman
★★★★★

Nenhum comentário:

Postar um comentário