domingo, 22 de outubro de 2017

MANIFESTO (2015)


É num filme como Manifesto que a gente começa a refletir sobre como a presença de um determinado intérprete em cena pode fazer toda a diferença, em diferentes aspectos, no que diz respeito à construção de um trabalho cinematográfico. É aí que entra a gigante Cate Blanchett, que já provou (várias vezes, inclusive) que é uma das maiores atrizes dos nossos tempos, em um de seus papéis mais emblemáticos e curiosos no cinema. Neste filme, que sem sombra de dúvida é um achado na filmografia da australiana, ela alterna entre diferentes personagens numa alegoria que questiona os valores, os fundamentos e princípios da arte na vida humana, na história e na filosofia. Projetado inicialmente como uma instalação (que não chegou a vir para o Brasil) e depois "traduzido" para a linguagem de cinema, Manifesto é um desses filmes bizarros que acabam pegando a gente pela sua iminente estranheza e cativante interação com o espectador, e por isso mesmo não deixa de ser uma experiência no mínimo inovadora e quase chocante até pra quem está do lado de cá da tela. 

Blanchett figura nas treze esquetes deste projeto vivendo personificações distintas em monólogos riquíssimos e repletos de questionamentos à arte em si, envolvendo famosos manifestos de artistas, filósofos e pensadores aclamados. A alternância pode surpreender pelas pitadas inesperadas de humor, pela bizarrice frontal ou pela exuberância da atuação, fato é que, por mais irregular que seja, Manifesto consegue conspirar sua atmosfera em torno de Blanchett de uma maneira que raramente se viu, e é por isso mesmo que vale dizer que vale a pena conferi-lo justamente pela presença dela, num de seus momentos mais inspirados e tentadores e que é prato cheio pra quem acompanha ela há algum tempo e nutre uma certa admiração por seu talento. 

Sim, o filme é interessante, tem um quê bem mais experimental do que propriamente narrativo, mas não há como deixar passar que existe aqui uma pretensão em dar conta de um conteúdo extensíssimo e muito variado, repleto de referências, códigos e contextos próprios, que vão se atropelando para dar lugar a outros. Há um discurso bastante rico sobre a arte, mas é imaginável (e o filme deixa isso claro) que é um trabalho bem mais compatível à uma instalação artística do que um longa-metragem em si. Ainda sim, é notável que Blanchett esteja numa de suas performances mais celebráveis e talentosas, com suas mil faces, transformações fascinantes que já dão motivo de sobra pra valer uma conferida. 

Manifesto
dir. Julian Rosefeldt
★★★

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