sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS (2017)


Aqui parece que existe uma relação muito curiosa de respeito entre o remake e o primeiro de Don Siegel (que é uma obra-prima, eu diria irretocável), já que Sofia poderia muito bem optar por emular a mesma catividade que Siegel imprimira em seu filme ou até mesmo provocar novos intuitos a partir de uma história já estabelecida, mas ela simplesmente prefere recontá-la usando de seus próprios adereços cinematográficos, mantém-se o mito, altera-se a disposição dos elementos fílmicos, e por mais que estejamos falando do mesmo filme, praticamente, existem muitas diferenças – estéticas, técnicas e narrativas – entre ambos os trabalhos. É claro, também pode-se dizer nos resultados, mas acho que, dado que a Sofia introduziu um parâmetro parcialmente anti-discernitivo em relação ao filme de 71, não sei se vale fazer comparações, o que importa mesmo é notar o que ela transpôs aqui e de que maneira. 

O deslize do filme é justamente na carga dramática, a Coppola erra a mão na direção do elenco, o que acaba gerando tanto atuações nem tão satisfatórias de Colin Farrell e Elle Fanning, e do outro lado ambas Nicole Kidman e Kirsten Dunst em papéis memoráveis e momentos gigantes. O destaque do filme, em resumo, parece ser mesmo o tratamento com a fotografia, que é deveras fascinante. Os enquadramentos, tão simples, são ricos, meditantes. A iluminação é tão discreta (e às vezes um tanto escura) que em dados momentos há cenas que provocam espanto com a mudança súbita de tonalidade, mas nada de grave que comprometa o trabalho encantador na fotografia do Philippe Le Sourd.

Se o despojo na construção dramática talvez provoque uma distância, há a fotografia concentrada em uma palidez que transita com naturalidade entre uma luz modesta e um sentimento cada vez mais crescente de cores escuras dominando a tela, no mesmo caminhar da tensão, a direção de arte que é por si só uma obra-prima. Se Sofia Coppola esboça seus domínios plenos de uma mise-en-scène com uma das arquiteturas mais completas (e talvez isso possa justificar o porquê do prêmio em Cannes) e recheadas de cuidados, há uma confirmação do que já era premeditado por trabalhos anteriores da filha do mestre Francis Ford, por exemplo em Maria Antonieta, que é a precisão estética, acompanhada de uma minuciosidade técnica, que abre espaço para a riqueza da construção narrativa em uma classe atordoante. É claro, não há muito o que dizer sobre este estar aquém à versão de Don Siegel, mas sim o processo criativo de reformatação estética e visual, e um aprofundamento formal que, embora não se distancie muito do esperado, gera resultados pra lá de interessantes. E, há de se relevar, em comparação ao anterior da diretora, Bling Ring, este aqui acumula méritos.

O Estranho que nós Amamos (The Beguiled)
dir. Sofia Coppola
★★

Nenhum comentário:

Postar um comentário