quarta-feira, 22 de julho de 2015

Crítica: "SENHORES DO CRIME" (2007) - ★★★★


Acho que tô virando fã de David Cronenberg. Só é possível. Mal tinha acabado de ver Senhores do Crime essa tarde, e já tinha em mente procurar Cosmópolis para ver. Não estranhem não. O cara é sim um gênio. E eu é que, desde Mapas para as Estrelas, venho me fascinando com as obras do canadense. E é uma glória ver como David não erra. Até de seu filme mais aloprado, Um Método Perigoso, eu gostei. Quem diria de Senhores do Crime, uma obra espetacular e sem igual. Se não é melhor que Marcas da Violência, filme antecessor de Cronenberg à este, Senhores do Crime bem é uma obra belíssima e autêntica, bravíssima e excepcional.

Aquilo que poderia ter sido o mais imperdoável erro de Senhores do Crime torna-se a sua mais exímia qualidade. A ultra violência explorada por David, talvez de uma maneira bem mais fatal do que a apresentada em Marcas da Violência, aqui neste longa, não só traz prazer ao espectador como também maravilha e choca. Há quem diga que é uma violência extravasada, por sua vez exagerada. Bem, como eu disse: "há quem diga", pois pra mim, não há o mínimo problema em tal quesito. E repito: nunca haverá. Senhores do Crime explora afundo o mundo da máfia e a emergente violência que abrange o sistema, em todos seus ângulos. Se você acredita que o estudo de David Cronenberg da violência mafiosa é, a certo ponto, exagerado, então considere essa crítica do filme meramente exagerada, por que a coisa que eu mais defenderei do filme neste texto é justamente este ponto. 

A complexa e inteligente trama de Senhores do Crime parte de uma cena por demais violenta, onde o sobrinho problemático de um barbeiro entra no local e já é missionado pelo tio a acabar com a vida de um cliente russo com uma navalha, sem mais nem menos. O ato é consumado, e na própria cena sangue já é jorrado. Pouca quantidade de sangue para o que vem em frente por todo o filme. Na seguinte cena, uma jovem moça, na chuva, chega à uma farmácia, pedindo por ajuda. No mesmo instante, uma grave hemorragia começa, e a moça cai no chão, desacordada. Chegando no hospital, a moça, que estava grávida, falece, mas o filho dela sobrevive. Essas duas cenas funcionam ambas como chaves para as portas fechadas que a história do longa, a partir daí, vai introduzindo. 

Se é um filme emblemático? De jeito algum. Talvez seja um dos filmes mais bem-explicados de David Cronenberg. Sua trama já deixa tudo muito claro. A partir da pessoal investigação do enredo, já é possível desvendar que trata-se de um filme efetivamente lógico e aparentemente sem nenhum possível emblema. Senhores do Crime fala da violência, desta vez da violência dentro da máfia, e as consequências da atividade mafiosa. Eu não disse das portas fechadas? Bem, vamos começar por elas. A parteira Anna, descendente de russos, mas que não é tão afeminada à língua, foi quem observou e detalhou a morte da jovem moça e o nascimento de seu filho (a cena de nascimento não pode ser considerada violenta, mas que a perspectiva por cima dela é tão meticulosa quanto, disto não podemos ter sequer uma única dúvida). Procurando por alguma informação possível que ajude a identificar dados sobre a vida da desconhecida falecida mãe, Anna encontra um pequeno caderninho, e descobre que o mesmo é um diário, que era mantido pela moça. E nesse diário, repentinamente, Anna encontra o endereço de um restaurante. Indo lá, é recebida por um idoso senhor, que a acolhe, e a quem ela narra os eventos que logo possibilitaram o início da tal pesquisa. E é esse diário que fará com a vida de todos os ligados às duas cenas iniciais do filme vire um caos. 

Senhores do Crime é um filme cheio de interconexões, entre seus personagens e entre os próprios eventos, algo que faça com que uma consideração seja elevada em nome do roteiro absolutamente fascinante de Steven Knight (o autor do roteiro indicado ao Oscar de Coisas Belas e Sujas, com Audrey Tautou e Chiwetel Ejiofor). O mais brilhante da montagem dessas interconexões é a forma com a qual o roteirista e Cronenberg vão costurando os fragmentos da história à mais bonita complexidade, e é disso que faz de Senhores do Crime uma obra totalmente impagável. Aplausos são poucos. Ainda mais quando temos na tela um elenco tão gracioso, talentoso e formidável como este. Para a nossa surpresa, o elenco só possui um membro naturalmente russo: Armin Mueller-Stahl (Semyon). O resto todo do elenco é formado por atores que não da nacionalidade russa, o que por aí mesmo já identifica o esforço e o trabalho magnífico de David Cronenberg a fim de tornar os atores o máximo possível idênticos à seus personagens, algo que não só rende como sucesso para Cronenberg como também para os atores do longa, cujas performances estonteantes rendem aplausos e gritantes "bravos!". No entanto, dentre todo o elenco que é talentosíssimo e formidável, um membro, cujo incansável esforço e notória atuação impecável emocionam, se sobressai. Viggo Mortensen não só entrega nas nossas mãos uma performance digna de reconhecimento como também constrói, ele mesmo, os traços de seu personagem, que no final revela sua verdadeira identidade, para ainda mais nos causar comoção, e não duvidar à toa de seu quê heroico. Seja encarnando Nikolai Luzhin em cenas de luta excelentes e vibrantes, como a da sauna, que é capaz de deixar qualquer um de boca aberta, ou em cenas de cortar o coração, como aquela em que vê a pobre prostituta cantando, Viggo é um admirável show de competência e maestria. 

Senhores do Crime (Eastern Promises)
dir. David Cronenberg - 

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