sexta-feira, 24 de julho de 2015

Crítica: "O SONHO DE CASSANDRA" (2007) - ★★★★


Se tem uma coisa que me deixa irado é ver as acusações de que Woody Allen está passando por sua pior fase. Que coisa mais enfadonha. Que pior fase? Homem Irracional foi recebido assim. Ansioso pela estreia do filme, que está marcada para o fim do próximo mês, fiquei muito decepcionado pela quantidade absurda de críticas que desceram o cacete no filme. Bem, se ele é ruim, eu não sei ainda. Veremos em agosto. Mas nem um pouco parece. Bem, enquanto espero para ver os resultados, assisto à O Sonho de Cassandra, o último grande filme de Woody que lida com o crime, assunto que também é apresentado em Homem Irracional, pelo que eu vi, e que de uns tempos pra cá trouxe ao público o melhor do cineasta. Só citando Crimes e Pecados, Match Point - Ponto Final e este excelente O Sonho de Cassandra para a comprovar a existência de tal sucesso no gênero que Woody tão genuinamente conquistara ultimamente.

Depois de uma obra brilhante como Match Point - Ponto Final, que foi muito bem-recebida, Woody Allen arriscou-se outra vez no gênero fabricando outro suspense, mais leve, embora ambicioso: Scoop - O Grande Furo, que não se saiu tão bem assim, mas por outro lado trouxe Scarlett Johansson (resgatada do clima tenebroso da obra anterior) e Woody Allen em performances deliciosas, ambas, a maior parte do tempo, cômicas. Bem, se Scoop - O Grande Furo não conseguiu reproduzir a glória de seu antecessor, O Sonho de Cassandra pagou sua dívida e mais. O longa de Woody, que estreou no Festival de Veneza 2007, não chega a ser melhor que Match Point, mas é uma obra e tanto (e bota obra nisso). Woody deixa o humor usual de seu estilo de lado - o que já tinha feito fantasticamente em Match Point - e prova a majestosidade de sua maestria dando vida à uma história obscura, séria, e de um caráter dramático intenso, tão profundo quanto o de Match Point. Em O Sonho de Cassandra, é a virada de Woody. A virada que teve uma breve pausa em Scoop - O Grande Furo, mas se reergueu aqui. 

Match Point trazia consigo não só o pânico da dúvida moral do protagonista como também colocava em tela uma sensual Scarlett Johansson, em cenas quentíssimas, cujas nenhum filme de Woody Allen jamais tinham exibido. A traição de Chris, por sua vez alimentada pela sensualidade cativante de Nola, não só oferecia à trama elasticidade como também fermentava o pavoroso destino final da história, e era isso que, sobretudo, era ousado e novo na obra. Woody mostrou ali uma outra identidade. Woody nos deu, em Match Point, seu completo misto de Hitchcock e Bergman (identidade do diretor que já era visível no mesmo estilo lá em Interiores, que praticamente era uma ode total ao estilo do sueco). Aqui, tal identidade se aprofunda. Arrisco: evolui, a certo ponto. No entanto, o Bergman de Woody é quem grita mais alto, desta vez. A culpa de Terry (Colin Farrell) chega a angustiar e causar terrível melancolia ao espectador. (spoiler) Ver a dimensão do sofrimento e do aprisionamento dele, efeitos do crime cometido por ele e seu irmão, é de assustar. Nessas partes, lembrar de Bergman não é uma tarefa tão difícil. Lá em Match Point, tinha uma cena perto do final que parecia ter sido feita por Bergman (sério!), onde Chris acordava no meio da noite e encontrava o espírito de Nola, se não estou enganado.

Dois irmãos, apenas em busca da vida, de melhores oportunidades. Um, Terry, é um simpático mecânico, com uma bela namorada, levando uma vida sem problema nenhum, se não fosse pelas suas incansáveis apostas. O outro, Ian, é bem livre, trabalha com o pai no restaurante, mas não é fixo, já que planeja trabalhar com hotéis na Califórnia. Conhece uma bela moça, e logo já é namorado dela. O destino, porém, apenas planeja o pior para ambos os irmãos. Terry, devendo quase cem mil libras, pede desesperado a ajuda de Ian. Os irmãos, sabendo da visita de um tio milionário, que trabalha com negócios e viaja o mundo, com conexões desde a China até Hollywood, se preparam para pedirem à ele algum auxílio. Mas, para a surpresa de Terry e Ian, é o próprio tio que vem lhes pedir uma (fatal) ajuda: com a promessa de recompensa, o tio propõe aos dois irmãos que eles matem um concorrente dele, que está prestes a denunciá-lo para a polícia. Inicialmente recusando, os dois irmãos decidem que é a melhor coisa a se fazer. Só que o horror do crime vai apenas deteriorando a situação.

Enquanto em Match Point Woody teorizava sobre a sorte e nossa imensa dependência dela, aqui é totalmente ao contrário. O Sonho de Cassandra retrata o infortúnio e o azar que envolve o caso dos dois irmãos, e o deplorável destino que suas vidas tomam no fim. É um conto sobre os nossos sonhos colocados em risco na luta contra a regra moral e a gravidade da ambição, sem limites. No roteiro, Woody mais uma vez mostra total controle e exibe, com competência e vivacidade, sua ilustre perícia. No elenco, Colin Farrell e Ewan McGregor são absolutamente fabulosos e esplêndidos, dão um show no que diz respeito à interpretação e nos fazem vibrar, com desempenhos versáteis e especiais. Vale lembrar também do compositor, Philip Glass (Notas sobre um EscândaloAs Horas), cujo trabalho de perfeição e primor dão ao filme um gosto obscuro e autêntico, e só deixam o espectador mais emocionado e eletrizado.

 O Sonho de Cassandra (Cassandra's Dream)
dir. Woody Allen - 

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