quinta-feira, 30 de julho de 2015

Crítica: "O SEGREDO DAS ÁGUAS" (2014) - ★★


Nunca entendi muito a filmografia de Naomi Kawase. Pra falar mesmo a verdade, vi poucos filmes dirigidos pela japonesa. Seus pretextos poéticos e filosóficos quase sempre, pra não falar toda vez, resultam em fracassos. Alguma coisa sai errado. Neste O Segredo das Águas, a mesma coisa se repete. Não há flexibilidade, a certo modo. Tal predileção, já característica do cinema de Naomi, falha em sua tentativa de maravilhar, comover, estabilizar o espectador, e só tende a causar cansaço e retalhar uma grande história, transformando-a em um conteúdo inútil, sem precisão. O Segredo das Águas, do que mais tem de belo, acaba errando feio em sua proposta ambiciosa e inicialmente mágica, mas que vai perdendo a força quando alguns elementos vão se dissolvendo incessantemente na narrativa. 

Uma grande pena ver que este lindo filme, que eu tanto esperava gostar, acabou se transformando tão rapidamente numa tediosa perda de tempo. Talvez, o melhor a se ver em O Segredo das Águas é a delicadeza e constante beleza da fotografia, de Yutaka Yamazaki, frequente colaborador de Hirokazu Koreeda, tendo participado de Ninguém Pode Saber, o ótimo Andando e Depois da Vida. Por que de resto, nada de bom vejo. 

Em Cannes, Kawase revelou: "Esta é a primeira vez que digo algo do tipo à um filme. Depois da Camera D'Or e do Grand Prix, não há nada mais que eu queira do que a Palma de Ouro. Eu não tenho olhos pra mais nada", ao dizer que O Segredo das Águas é a sua "grande obra-prima, merecedora da Palma de Ouro". Bem, não posso em nenhum ponto discordar que tal afirmação tem cabimento para Naomi, por que para mim, não é a mesma coisa não. Se não fosse o clima distorcido, a mudança repentina de gêneros, os clichês pouco inventivos e os atalhos mal-feitos do roteiro, em alguma parte até poderia concordar com Naomi, mas O Segredo das Águas é demais para o meu gosto.

De todo, não é um filme sem sentido. O erro de O Segredo das Águas, o principal deles - pelo menos - é a sua falta de comprometimento com a dramatização, em minha opinião. A reflexão de Kawase, calma e pura, inspira os efeitos lisonjeiros da natureza e leva na história como cenário ela própria. O título mesmo sugere que um dos temas explorados na trama deste longa seja a natureza. Só que O Segredo das Águas deixa de ser produtivo por se apegar demais à suas próprias invenções. É nesse ponto que o filme passa a ficar chato, sem controle da situação e acaba concluindo-se num fracasso absoluto e impulsivo. 

Nem vou falar da confusão que é essa parte metafórica da história. Ô coisa cansativa. Sem querer dizer que não estive em algum momento interessado por tal segmento, mas, até nessa parte, que naturalmente deveria oferecer certo interesse ao espectador, Naomi não só se rebaixa como também acaba de vez com o realismo do filme, misturando a própria conexão de tramas com a falta de credibilidade dos clichês. Ufa, ainda bem que temos em tela uma fotografia estonteante, em cores rígidas, ora quentes, ora frias, que, embora possuam certa tenacidade e contraste, não perdem em algum segundo a visibilidade. Senão, odiaria por completo O Segredo das Águas!

O Segredo das Águas (Futatsume no mado)
dir. Naomi Kawase - 

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