sexta-feira, 24 de julho de 2015

Crítica: "O EQUILIBRISTA" (2008) - ★★★★


Um dos melhores documentários dos últimos tempos, O Equilibrista é uma impecável obra de arte singular e arrebatadora, cuja embalagem é bastante chamativa, mas o conteúdo, inusitadamente, atrai mais. Estou bastante ansioso por A Travessia, de Robert Zemeckis, cujo enredo traça a mesma história do documentário: a fantástica e ambiciosa jornada do equilibrista francês Philippe Petit, e sua famosa apresentação no vão das torres gêmeas em 1974, quando as construções ainda estavam sendo finalizadas. Vencedor do Oscar 2009 de Melhor Documentário, O Equilibrista é um prato muito saboroso e requintado, com leves e doces pitadas de sensibilidade e um confortável aroma de versatilidade. 

Feio demais comparar esse filme belíssimo com o mediano A Teoria de Tudo, que até é um bom filme, mas exagera em certos aspectos e se deixa levar demais pelo melodrama moral, e não vale nem a metade deste aqui, que possui uma estrondosa e eficiente qualidade. A impressão que A Teoria de Tudo, lá no fundo, deixa, é de que ele quer ser desesperadamente tão fiel quanto um documentário, e acaba sendo, só que para um filme dramático, isso não caiu bem. Mas, enfim, O Equilibrista, em certos momentos, leva o espectador ao delírio, e, no fim, ao mais excelente encanto. O trabalho de Petit emociona demais. Em certos pontos, fica até difícil comentar sobre o impacto que sua jornada deixa. 

Afinal, o que faz O Equilibrista tão diferente dos outros documentários? Boa pergunta. Quem sabe O Equilibrista, em um método mais convencional, seja tão forte por sua simples concepção, sem muitos devaneios ou excessos? Quem sabe seja um documentário mais objetivo, que não fica enrolando para não chegar em lugar algum? Ou até mesmo a naturalidade da narrativa, que tem uma certa influência na montagem da jornada dentro do filme? O Equilibrista, por várias razões, pode até ser considerado uma exceção. Um dos documentários mais brilhantes feitos, talvez não só na atualidade mas também na história do cinema, possui uma linha de apresentação muito simplesinha, e surpreendentemente firme, que consegue prender o público à história até o final de seus noventa minutos. Simples assim. Melhor: bem-resolvido. O Equilibrista é um documentário criativo, e demasiadamente inventivo. E aqui não é um problema, por que isso apenas contribui à seu favor.

Embora a maior parte dos arquivos históricos do filme sejam refilmagens feitas por Marsh e um grupo de atores, por conta da pobre existência de vídeos, todos os segmentos que relatam ou interpretam capítulos da grande aventura de Petit são maravilhosos e geniais (a própria concepção da ideia de refilmagem por si só é genial). E, o que poderia ter sido bem chato - a maioria do acervo é formado por fotografias - no que diz respeito à arquivos da época, acabou se tornando um bem inseparável deste longa. O espetáculo e a magia do equilibrista não só são revividos pelos relatos das entrevistas ou das encenações. As imagens possuem um papel importante nisso. Entra entrevista, sai entrevista, especialmente no final, as fotos do grande momento tomam conta de uma emoção inexplicável. Só de ver, e até agora pensar, nas fotografias que exibem o ato de Philippe não só criam e fundamentam uma dimensão do momento como também causam uma incrível vertigem (e olha que eu não sofro do mal). Sinceramente. Ver, não só nas torres gêmeas, mas também em Notre-Dame, e em outras apresentações mostradas aqui no filme, a performance surreal do homem em cima daqueles cabos de aço são capazes de eliminar o fôlego de qualquer um, em qualquer instante.

É simplesmente impossível. Como um ser humano consegue chegar ao extremo limite de poder se conectar tão profundamente ao estado livre e praticamente inalcançável da concentração? Uma coisa de gênio! Tento me colocar no lugar de Petit. Como jamais eu faria uma travessia de sessenta metros, de uma torre à outra, na maldição de um cabo de aço? Como? É simplesmente emocionante. A dedicação e o trabalho louco de Philippe Petit comove insanamente. No final, após a realização da performance por mais de quarenta minutos, Petit foi preso (tal atividade é ilegal), e mais tarde levado à um psiquiatra num hospício. Bem, que a situação exagerada foi exagerada, mas não é possível de nenhum modo negar que fez bem, afinal, há vezes em que não sabemos se o ser é humano ou não... Mas o cara é mesmo brilhante. E muito simpático. Outra declaração, essa do próprio Petit, que veio no final, foi a que ele era constantemente perguntado: "por que você fez isso?", até brincando em um dos fragmentos quando um jornalista o pergunta a mesma coisa e ele responde, cansado: "já me perguntaram mil vezes isso hoje". Agora, você pensa comigo: por que um homem desses faria tal coisa? Atravessar o vão entre os dois maiores prédios do mundo, cuja altura sobrenatural seria capaz de acabar com a vida dele num pequeno segundo? Que ato traz mais prazer, maravilha, e transmite coragem e dignidade? E é tudo pela arte. Tudo pelo significado, ou não, já que muitos, até mesmo colegas, descrevem a ocupação de Petit um tanto quanto incompreensível, mesmo assim, tremendamente fantástica. E a filosofia artística desse brilhante ícone é totalmente sem preço, assim como ver a O Equilibrista

O momento mais irônico do doc.

O Equilibrista (Man on Wire)
dir. James Marsh - 

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