quarta-feira, 29 de julho de 2015

Crítica: "GUERRA AO TERROR" (2008) - ★★★★★


Um dos melhores e mais impactantes filmes sobre a guerra feitos ultimamente, além do candidato nº1 a melhor filme sobre a Guerra do Iraque, Guerra ao Terror é um emocionante retrato desse desgraçado episódio, que destruiu e afetou a vida de vários envolvidos. Fugindo dos repetitivos clichês e da monotonia narrativa, Guerra ao Terror destaca-se dentre os outros filmes de seu gênero e ganha uma notoriedade especial e absolutamente merecida, em minha opinião. Bom elenco, um sublime roteiro, uma inigualável equipe técnica, e uma diretora dedicadíssima e talentosa - uma das mais gratificantes revelações cinematográficas de nossa época, Katheryn Bigelow -. Guerra ao Terror, diante de tanto auxílio do bom e do melhor, impossivelmente, sob qualquer ângulo, poderia resultar num fracasso. 

Será que Katheryn herdou esse fenomenal dom, na separação de bens, de seu ex-marido James Cameron, que, tendo lançado o bilionário Avatar no mesmo ano, teve que ceder ao sucesso de sua antiga mulher, até sendo obrigado a aceitar Oscars de Filme e Diretor (risos)? Estou, obviamente, brincando. Talvez Katheryn, enquanto casada (ela já era diretora à altura), poderia ter aprendido alguns truques do marido, e até pode ter os trazido para cá em Guerra ao Terror. Nisso, me refiro à audácia, ao perfeccionismo, à expansiva austeridade da obra e do relato. Disso, até posso falar. O filme que transformou a carreira desta diretora, que pouco tempo antes de Guerra ao Terror era uma cineasta pequena, não poderia ter sido melhor, em minha opinião. Tudo o que tenho à dizer para Katheryn é: "parabéns". Fico abismado ao assistir Guerra ao Terror, assombrado e encantado por cenas carregadas de uma profunda tensão e uma fúria atenuante, ao som do espírito amedrontador da coragem. Filme exagerado? Muito pelo contrário. A realidade é um alvo iminente, senão, muito superestimado em Guerra ao Terror. Vá lá: Guerra ao Terror, se não fosse pelo elenco, pela câmera lenta e pelos efeitos catastróficos, de trilha, de fotografia, de som, de montagem, e tudo o mais, praticamente seria um documentário. Mesmo que a ficção seja um ingrediente-chave, nada impede Guerra ao Terror de ser uma exposição viva. 

Lembrando que este não é um filme sobre heróis e vilões. É um filme sobre a guerra. Afinal, tal visão explorada, no ponto de vista que a narrativa abrange, seria muito negativa e injusta. Toda guerra funciona como uma moeda. É cara e coroa. Nosso herói pode ser o vilão do outro. Filme sobre moralidade? Bem, depende de você. Isso igualmente funciona como uma moeda. Há algum tempo vi no cinema Sniper Americano. No entanto, lá era uma coisa totalmente diferente, já que em certos pontos o filme protestava o Iraque e seus atos terroristas imperdoáveis, responsáveis por danos fatais, e, naquele mesmo caso, o filme apoiava e andava lado a lado com o patriotismo fanático que o clima da história não só inspirava, como também seu próprio criador, Clint Eastwood, carregava em seu estilo como uma forte marca. E, de qualquer forma, vocês não acham que um filme iraquiano falando sobre essa guerra também não usaria a América como vilã para formular um argumento? É aí que a moeda se instala. Só que Guerra ao Terror não está falando sobre o patriotismo. Em nenhum momento eu vi alguma referência muito clara que me pudesse identificar a presença de tal artifício. Por favor, não pensem que estou julgando o patriotismo. Estou apenas tentando divulgar as extremidades do retrato de Guerra ao Terror. Como eu dizia, Guerra ao Terror é um filme diferente, sobre homens comuns em suas missões. Poderia ser qualquer guerra ali. Qualquer nacionalidade. O que realmente importa e vale em Guerra ao Terror é como ele quer visionar seus integrantes e suas vidas não apenas afetadas pelos contrastes da guerra, mas seus rumos difundidos pelas suas atividades, sozinhas.

Guerra ao Terror até apela para o sentimentalismo, mas funciona. Nem sai feio nem sai bonito. Um bom segmento do filme é quando James (spoiler) encontra o corpo do menino que havia feito amizade antes. Nessa parte vemos o forte lado das estratégias e fundamentos da guerra. Mas é aí que vemos que tudo é espelhado. Assim como americanos possuem seus truques, iraquianos possuem os deles. A Guerra do Iraque, ainda atual, é cheia de prós e contras. Mas deixemos isso de lado, ou terei o risco de causar alguma confusão. Estou aqui em nome de Guerra ao Terror, tentando argumentar e cumprir a minha própria missão, que é fazer o público acreditar em minha comoção, nesta situação. Se nisso fui bem, agradeço demais. Caso discordam de minha adoração ou da minha opinião em alguma parte, agradeço também. Significa que não somos únicos, e eu também, né? E isso é só o início. Quando peguei esta tarde Guerra ao Terror para ver, não apenas esperava, em certo aspecto, me emocionar por sua qualidade interior, mas também pela sua qualidade exterior.

Fotografia belíssima de Barry Ackroyd encorpora os quentes tons do Oriente Médio nada sutilmente, em constante bege. A trilha sonora temporária de Marco Beltrami e Buck Sanders desnorteia em determinados momentos. Os efeitos sonoros (puxa vida!) são inteiramente incríveis. Avatar ter sido duplamente derrotado no Oscar 2010 por este filme nas categorias de Edição e Mixagem de Som é até pouco aceitável, mas que os efeitos sonoros de Guerra ao Terror são deslumbrantes, é inegável. O elenco é equilibrado e dá um enorme show. Jeremy Renner mostra seu autêntico talento na pele do desarmador de bombas William James. Outro que também estava fantástico aqui nesse filme foi o Anthony Mackie, de quem eu nunca tinha ouvido falar antes, mas cujo nome, depois deste longa, não tão facilmente esquecerei. Pensei que veria mais de Ralph Fiennes aqui neste filme (lá vem spoiler), de acordo com que vi certa vez (nem comentarei para difamar o coitado), mas o homem só aparece numa única cena, como um militar amigo que é confundido com iraquianos, e, dois minutos em seguida, com pouquíssimas falas, logo leva um tiro e cai no chão, sem mais nem menos. Eu, primeiramente, não acreditei. Mas é só isso. Enfim. Acho que o único erro de Guerra ao Terror foi esse. Ter desperdiçado Ralph Fiennes (risos). Se bem que o já tão cedo lendário Ralph tá topando tudo (só não sei se é por dinheiro!). 

E Katheryn... Que diretora! Nada estranho ela ter recebido o Oscar de Melhor Diretor em 2010, tendo derrotado os marmanjões da categoria (entre eles o Sr. James), e tornado-se a primeira mulher a vencer o prêmio na história, e a quarta indicada. Tal honra para Bigelow não pode ser melhor definida do que como merecida, por que, de fato, Guerra ao Terror é um filme maravilhoso, uma obra-prima visionária e atordoante, bela e singular em todos os sentidos. Além de Katheryn, outra revelação extraordinária de Guerra ao Terror, pela segunda vez consecutiva arrecadando aplausos, depois de No Vale Das Sombras, foi o jornalista Mark Boal, correspondente da Guerra do Iraque, cuja experiência e competência serviram de base para o versado e bem-feito roteiro desta película. Guerra ao Terror é memorável. Mais que isso, presumo. É impressionante.

Guerra ao Terror (The Hurt Locker)
dir. Katheryn Bigelow - 

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