terça-feira, 28 de julho de 2015

Crítica: "DÁLIA NEGRA" (2006) - ★★★★★


O melhor filme em tempos do mestre Brian De Palma não só trata-se de thriller envolvente e absurdamente inteligente, como também é um trabalho de arte sensacional e incrível, que merece ser revisto, pois sua qualidade é de uma profusão tão atordoante, que não é totalmente captada se o filme for visto uma única vez. Talvez esse seja um dos motivos nos quais Dália Negra foi recebido com impetuosas críticas negativas em seu lançamento. Ou, a única explicação para tal fracasso seja mesmo o azar. Nem todos apreciarão Dália Negra mesmo. Mas, mesmo vendo as imperfeições, poucas, existentes nesse filme, há algo que me deixou totalmente obcecado em relação à ele, algo que me impede de não apreciá-lo. E isso é algo muito pessoal meu. Dália Negra, em minha mais sensata opinião, é um triunfo cinematográfico exímio. Um presente estonteante e inesquecível de Brian, que nos devia tal regalo há muito tempo.

Inicialmente, pelo título e pelos eventos que vão acontecendo por toda a trama, Dália Negra mais soa como a história do chocante crime, que é real, onde a jovem atriz Elizabeth Short foi brutalmente assassinada e esquartejada, encontrada num terreno baldio em Los Angeles - o crime, até os dias de hoje, não foi desvendado -. Mas na verdade não é tanto não. Decerto o insano assassinato ganha a tela e constrói a trama, mas a história gira em torno de dois detetives, ocasionais boxeadores e grandes amigos, Dwight Bleichert e Lee Blanchard. Após serem promovidos, Dwight e Lee passam a participar de grandes investigações, e em todas elas obtendo um enorme êxito. No entanto, quando o assustador e enigmático assassinato de uma aspirante à atriz de 22 anos ocorre na cidade, a vida desses dois detetives vira de cabeça para baixo. 

O misto de delicadeza e intensidade com o qual Brian De Palma vai conduzindo Dália Negra é de uma formosidade fabulosa. Não é tão à toa que Dália Negra possui um clima tão Hitchcock. O filme, que bebe da fonte do estilo do grande Alfred, não está tão longe da comparação com um filme do lendário cineasta. Dália Negra é um longa instruído de uma perfeição tão excêntrica e invejável. Talvez o roteiro deixe escapar certos artifícios e até crie confusões na mente do espectador, mas nada é tão grave a ponto de justificar o ódio intolerante com o qual o filme foi acolhido. É tremendamente assustador, e ao mesmo tempo peculiar, por que Dália Negra não é um filme ruim.

E, como em todo bom noir, ainda mais neste aqui, realizado à moda antiga, em Dália Negra não faltou mistério, máscaras, ilusão e mentira. Esses ingredientes, juntos, numa receita arriscada e ambiciosa, terminam em um resultado excelente. Bem, até confesso que De Palma poderia ter se saído melhor, dado passos maiores - chances ele teve -. Quem sabe reciclar os elementos e as pistas de uma forma mais meticulosa do que a feita? Não estou falando que estou decepcionado com o resultado, de jeito algum! Só digo que, embora o resultado seja atrativo e ótimo, nada o impedia de ser melhor. 

Que elenco... A junção em grupo de atores tão privilegiados num filme só com tantos personagens engenhosos é um prato cheio. A sensual Scarlett Johansson, aqui no frágil, porém estabelecido papel de Kay Lane, é um recheio desnorteante. Pensara eu que ela seria a femme fatale de Dália Negra, e não a Hilary Swank, que encarna o personagem-chave da trama, de forma bem plausível, mas que não é tudo aquilo. Swank possui força, mas sua interpretação um tanto quanto óbvia da femme fatale é devidamente demais esquisita pro meu gosto. Quem dera fosse Scarlett. Se bem que seu personagem amável e carinhoso mais serve de consolo emotivo à obscura narrativa, onde quase todo mundo tem uma ligação com o crime. 

A experiência única e radiante de ver Dália Negra me proporcionou uma grande satisfação. Já fazia uns tempos que queria ver o filme. Desde que vi Passion, o mais recente filme de Brian, e que também foi uma experiência pra lá de magnificente. Além disso, meu desejo só aumentou depois que comecei, mês passado, a pesquisar sobre o tremendamente bizarro assassinato de Elizabeth Short, que é horrendo (as imagens originais do acontecimento são indescritíveis - no pior sentido da descrição -). Levando em conta que trata-se de um filme de ficção, e que o assassinato de Short terminou como caso perdido, Dália Negra, adaptação do romance homônimo de James Ellroy (sim, o mesmo autor do livro que originou Los Angeles - Cidade Proibida, filme que aborda uma temática muito semelhante da de Dália Negra), remonta o crime em traços meticulosos e vibrantes, que só reprisam seu sucesso. O roteiro fenomenal de Josh Friedman, também roteirista de Guerra dos Mundos, e do já anunciado Avatar 2, é um dos maiores destaques deste filme.

A única, das várias que merecia, indicação ao Oscar que Dália Negra recebeu foi em Melhor Fotografia, nomeação dada à Vilmos Zsigmond. E que bem merecida indicação... Vilmos Zsigmond lidera a direção de fotografia de Dália Negra com uma bravura excepcional e uma majestosidade ainda mais poderosa. Muito difícil de escrever o efeito que seu trabalho causa, que faz de Dália Negra um filme bonito e ainda mais cativante e valioso. Não só a fotografia de Vilmos, me engano. Dante Ferretti, o melhor diretor de arte da indústria cinematográfica atual, realiza em Dália Negra mais uma invencível aventura, com cenários muito bem-feitos, que praticamente dão vida à Dália Negra e intensificam o quê épico da trama. A trilha sonora do pouco conhecido Mark Isham é tocante. Os figurinos da britânica Jenny Beavan são tocantes. Dália Negra, rodeado por tanta eficiência, muito dificilmente não me conquistaria. É mais uma grande obra, belíssima e visionária, dirigida por Brian De Palma, esse mestre cuja perícia é inteiramente genial e esplendorosa. Em Dália Negra, De Palma prova, como sempre, a celebridade de seu cinema.

Dália Negra (The Black Dahlia)
dir. Brian De Palma - 

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