quinta-feira, 23 de julho de 2015

Crítica: "CÓPIA FIEL" (2010) - ★★★★★


Difícil conter a emoção ao ver um filme tão plausível e excepcional como Cópia Fiel. A ambição e a força de Abbas Kiarostami, além dos protagonistas talentosíssimos, fazem deste longa uma preciosa obra de arte. Bem, já fazia um bom tempo em que eu andava querendo ver Cópia Fiel, não só por conta de sua aclamação sucessiva mas também pela presença da querida Juliette Binoche, cuja performance havia sido bastante elogiada e condecorada com conceituados prêmios. Mas o interessante de Cópia Fiel é que ele vai bem além em tais quesitos. Não só acerta em tudo no que diz respeito à expectativas como também cria algo a mais, que satisfaz e cria um clima muito favorável à ele.

O filme começa com a palestra de um escritor inglês, James, na Toscana, cujo livro, "Cópia Fiel" - um ensaio sobre arte, mas que teoriza principalmente sobre a cópia e o original -, foi recentemente traduzido e publicado em italiano. Nessa palestra, uma mulher, acompanhada do filho, assiste à ele, e, interrompida frequentemente pela criança, desiste de ver a apresentação, deixando seu telefone com o tradutor de James, pedindo que ele vá à sua galeria de arte, com o objetivo de aprofundar os detalhes da obra do escritor. Após a visita ao local, James convence a mulher a levá-lo para um passeio de carro, onde ele pretende apreciar a vista por perto. Logo mais, após um pequeno debate com a galerista, ele desta vez é convencido por ela a visitar um vilarejo não tão distante dali. É lá que então, após serem confundidos pela dona de um café como casados, eles darão vida à um jogo baseado em tal confusão, com James e a mulher, por toda a viagem, tratando um ao outro como marido e mulher. É nesse jogo que a mulher fala sobre a sua vida e seus medos, e o homem, com criatividade, alimenta a ideia.

Muita gente pode dizer que Cópia Fiel trata-se de uma vibrante meditação sobre a cópia, sobre o original, e sobre o valor de ambas as coisas. Por outro lado, Cópia Fiel também pode simbolizar uma história de amor emergida do destino. Ou ainda sim Cópia Fiel pode ser uma difusão entre os dois pontos. Bem, eu prefiro a última versão, já que, tanto falando de amor, quanto falando da cópia, o filme só mesmo tem a ganhar. Já na cena inicial Abbas Kiarostami apropria-se de signos para então nos explicar a sua opinião sobre a cópia e original. Antes e durante os créditos, a tela é preenchida pela imagem fixa de uma mesa. Em cima dessa mesa vemos dois microfones pendurados e dois copos, com uma garrafa atrás deles. Segundo minha percepção de tal cena, que dura no mínimo, acredito, três minutos e meio, é possível ver que Abbas bem mesmo não tá nem aí para cópia nem original. Ele prefere ser prático em tal quesito. Afinal, os dois copos, que são idênticos, só mesmo possuem uma única função. Os dois microfones, que possuem alguma diferença, sendo um deles curvado e o outro ajeitado, também são vítimas do mesmo caso, pois ambos, tanto quanto qualquer um de sua marca, só mesmo possuem uma - única - função. Outro exemplo de que essa versão possa ser melhor teorizada é quando James e a mulher, caminhando, estão discutindo sobre o livro, e James fala, que até mesmo a obra original é uma cópia: "Da Vinci, ao pintar a Monalisa, teve que se inspirar - copiar - a Gioconda. E o sorriso dela? Você acha que ele não a pediu para sorrir?". Bem, esse assunto, volta e meia no filme, é motivo de discussão entre o escritor e a mulher, e vi mesmo muita gente, ao falar do filme, evidenciar a teoria, que mais serve de pretexto para a conexão das relações humanas. Claro, tal parte pode ser vista como um dos artifícios mais inteligentes do filme, mas é bem claro que, a partir dessa teoria, Abbas busca um caminho para alimentar a trama, e o jogo do casal.

Primeira grande obra estrangeira/não-iraniana de Abbas Kiarostami, autor de filmes singelos e brilhantes como Dez, Gosto de Cereja, Close-up e O Vento nos Levará, Cópia Fiel não só atrai por Juliette Binoche e por toda a conspiração que envolve sua excelente teoria, como também é um belo cartão-postal das regiões de Arezzo e Toscana da Itália. Os belos e prosaicos cenários do longa, que geralmente servem de fundo às conversações e ao jogo do escritor e da mulher, alegram e cativam a vista, nos levando a uma jornada amorosa de teor explicitamente fotogênico e encantador. E Juliette... Que atriz! Mesmo aos cinquenta, à beira da velhice, a lindíssima Juliette não perde a pose, não se deixando levar pelos ares enfadonhos que a idade tão veemente proporciona, sempre muito jovial, conservada, e talentosa. Mesmo que seu papel em Cópia Fiel não a tenha rendido um segundo Oscar - cujo, em minha solene opinião, seria pra lá de bem-vindo à Binoche, ainda mais nas virtuosas circunstâncias apresentadas pela sublime atuação -, ou até mesmo um maior reconhecimento, impossível não deixar de contemplar essa incrível musa, em uma das melhores interpretações de sua carreira, vencedora do prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes em 2010 - mais que merecido -. Confesso que em certas partes de Cópia Fiel, como o jantar do casal em um restaurante do pequeno vilarejo, onde Binoche se arruma para James, mas é ignorada por ele, que a encara com uma atitude fria e insensata, dá um aperto no coração... Cópia Fiel não podia ser melhor, ainda mais quando, vira e mexe, somos transportados à Antes do Pôr-do-Sol, justo quando James, no início do passeio, revela a limitada duração que tal tour deverá ter, uma vez que ele tem um trem para pegar às 21hs, e também não é à toa que os passeios nos pequenos becos sejam tão parecidos com as sequências da grande obra de Richard Linklater (também duvido que seja um acaso James ter a mesma inicial que Jesse). E a lembrança só reforça nossa apreciação. Cópia Fiel é uma obra-prima extraordinária, um dos trabalhos mais tocantes do iraniano Kiarostami, de um inestimável valor, dotado de uma aguçada sensibilidade poética e um livre consenso romântico, intenso e prazeroso.

Cópia Fiel (Copie Conforme)
dir. Abbas Kiarostami - 

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