segunda-feira, 27 de julho de 2015

Crítica: "BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS" (2008) - ★★★★


Nunca pensei que gostaria de Batman - O Cavaleiro das Trevas como eu gostei. Nunca fui muito fã do personagem, e mesmo assim, sem ser um ávido fanático, o considero o melhor de todos esses heróis fantásticos da ficção, embora sequer tenha o acompanhado muito de perto. E este Batman - O Cavaleiro das Trevas é uma surpresa deliciosa. Não é aquele filmaço que tanto prometeu ser, mas é um filme muito bom. O segundo e mais popular filme da trilogia Batman, de Christopher Nolan, possui pontos fortes e pontos fracos. Surpreende por muitos motivos. Um deles é a sua sobrevivência intacta do mal dos filmes de seu gênero, que muito tendem a ser demais repetitivos, exagerados e antipáticos. Também se livra da insegurança e dos possíveis atalhos pseudo-climáticos, que poderiam destruir a perspectiva dramática da trama do filme por inteiro. E, por que não dizer que O Cavaleiro das Trevas é um filme, finalmente, maturo, a certo modo? 

Ação pra cá, e ação pra lá, Christopher Nolan presenteia o espectador com um original e espetacular trabalho de arte. Não é "apenas" um filme de super-herói. Engloba todo um significado por trás de tal rótulo e acaba tornando-se algo maior. O som repetitivo que o filme logo de cara aparenta, na verdade é um falso cognato por trás do sucesso astronômico que esconde em si. E isso nada mais é o que O Cavaleiro das Trevas representa: uma bomba, que logo mostra-se efetivamente desarmada. Decerto há algumas imperfeições e indecifráveis incógnitas em O Cavaleiro das Trevas. Mas, por favor, primeiro vejamos o que o filme traz de bom, a real inovação - que é rara -, e depois analisamos os erros, que são mais comunais aos outros filmes, mas aqui não são grande coisa - que também é raro -. Afinal, why so serious

O moralismo perfeccionista de O Cavaleiro das Trevas é o menor dos problemas. O que realmente conta é a novidade. O que é melhor, de fato, em um filme senão sua inovação? O bom deste é que, principalmente, os clichês são reduzidos microscopicamente, e as muitas inovações são gigantes. Contemos primeiro com tal avanço para chegar à conclusão final. A primeira grande inovação de O Cavaleiro das Trevas é seu elenco, extraordinário. Se isso era preocupação, aliviados saímos do cinema em tal ponto. Heath Ledger explica tudo. A competência e versatilidade do ator são colocadas à prova aqui neste filme, e, como resultado, recebemos uma atuação maravilhosa. Não foi em O Segredo de Brokeback Mountain, nem em Casanova, muito menos em Não Estou Lá, mas aqui, em O Cavaleiro das Trevas, que Ledger concebeu a sua melhor performance, e talvez a maior de todas, mesmo que poucas, delas. O Oscar póstumo foi mais que merecido para Ledger. O prêmio nem consegue simbolizar ao todo o grande talento de Heath no papel do Coringa. Elogiar sua performance não é suficiente. Ela é totalmente indescritível.

Ironicamente, o membro do elenco que mais me desapontou foi Christian Bale. E não é a primeira vez. Bale, naturalmente, tem um ar frágil, fraco, meio sem graça, vazio, frio. Mesmo que seu currículo seja preenchido por grandes filmes, e indicações ao Oscar por longas como O Vencedor Trapaça, Bale só consegue surpreender pela facilidade surreal de fazer tão diversos papéis, e encarná-los de forma tão inusual, quebrando, não raramente, seu lado natural. Se por um lado Bale soa muito parado, no outro quem ganha espaço é essa sua capacidade de camaleão, que sempre positivamente nos agrada, e rebeldemente ataca sua personalidade comunal. Não entendam mal. Gosto dele. Possui um dom único, e incrível para atuar. Só que pra mim, Bale funciona como o Harvey Dent: é um duas-caras. Num lado é um tanto vazio, por que assim foi assim que ele nasceu, afinal, não é possível escolher nossa cara, e no outro é fascinante, por que é dedicado e tem um enorme talento. Em O Cavaleiro das Trevas, o lado vazio é quem constantemente toma conta da tela. Afinal, o sujeito anda o tempo todo com uma máscara enquanto encarna o Batman, e enquanto Bruce, que já é bem friozinho, a confusão bate. Fica difícil de saber se é ele ou se é um dublê. E fica difícil saber se é o Batman ou se é o Bruce Wayne. Essa parte aí é meio complicada, viu.

Mas, digo com certeza, se O Cavaleiro das Trevas fosse um céu, não seria nada difícil enxergar brilhantes e incontáveis estrelas nele. Além de Heath e Christian, ainda temos a ótima performance de Aaron Eckhart, Morgan Freeman, Michael Caine, Maggie Gyllenhaal, Gary Oldman, Cillian Murphy (coadjuvante em Batman Begins, aqui mais coadjuvante do que nunca, aparecendo em pouquíssimas cenas). É muita gente. E Nolan? O que dizer de Nolan? Qual é o papel de Nolan em O Cavaleiro das Trevas? É um papel desleixado? Ou bom? É um papel bem silly? Ou um papel bem strong? Christopher Nolan, um dos diretores mais desafiadores e divididos dessa geração talvez também seja como Harvey Dent. Seja, não: é. Foi excelente em A Origem, excepcional em Amnésia, talvez seu melhor filme, e ambicioso em O Grande Truque (e em todos os outros filmes de sua carreira, incluindo este, mas O Grande Truque foi o auge). Não vi ainda Interestelar (não, eu não tô brincando), mas pelo que eu vi é bem mediano. E como Nolan é em Batman - O Cavaleiro das Trevas, e nos outros dois filmes da trilogia? Ele é grande. Muito grande. Gigante, o que funciona de uma forma um pouco diferente de ambicioso. Gigante no sentido de verossímil, esforçado. A audácia também é grande, mas não no sentido dessa giganteza que vos apresento. Detalhista? Duvido muito. Algumas cenas de O Cavaleiro das Trevas, muito nitidamente, fornecem imperfeições catastróficas. Não acredito que detalhista seja a melhor coisa a se dizer de Nolan em O Cavaleiro das Trevas. Ele é grande, e ponto.

E, sendo grande ambiguamente na direção e no roteiro, poderosíssimos, Christopher acaba fazendo desta película uma grandiosidade peculiar. E isso é bom. Como em Chicago: "and that's good, isn't it grand? Isn't it great? Isn't it swell? Isn't fun, isn't it?". O Cavaleiro das Trevas é definido por tal adjetivo: grande. E isso, minha gente, é o que faz dele uma pérola preciosa. Um tremendo sucesso (não só de bilheteria, digo). Levem em consideração que este filme me agradou apesar de seu gênero, que não excede nem um pouco horríveis fracassos. E acabou abrindo a minha mente e mudando minha ideia sobre ele. Me fez ver que nem toda produção de seu porte é um lixo, e que no fundo tudo o que me afetava sobre elas era um preconceito ávido. No final, O Cavaleiro das Trevas, dentre as várias morais que fabricou, fez uma que em sua concepção é totalmente especial para mim, e que é a responsável por esta opinião: why so serious?

Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight)
dir. Christopher Nolan - 

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