segunda-feira, 24 de junho de 2019

DEMOCRACIA EM VERTIGEM (2019)


Democracia em Vertigem é um comentário preciso e relevante sobre o que a democracia brasileira tem sofrido nos últimos anos (e, de um modo geral, como o passado ditatorial e histórico do país sombreia seus caminhos políticos turvos), provocando uma reflexão sobre esse estado político e nos levando a analisar o seu impacto tão denso na vida dos brasileiros. Passa pela eleição histórica de Lula à Presidência em 2002, a primeira vez que o PT chega ao poder, com promessas de inclusão social e atenção às minorias, e oito anos depois a de sua sucessora, Dilma, primeira mulher a ocupar o cargo (no passado, militante presa e torturada durante a Ditadura). Quase que tragicamente, o documentário atravessa a derrocada que tentam impor a essas duas figuras neste que é um momento tão frágil dentro do cenário político do Brasil: o controverso e ainda recente golpe de Dilma em 2016 e a prisão de Lula em 2018. E, consequentemente, a chegada da direita ao poder (indiretamente) com o governo desastroso de Temer, vice de Dilma, que tornou-se impopular com sua dose de reformas ineficazes e descontrole sobre a crise que atingiu o país, e a eleição de um deputado de extrema-direita, Bolsonaro, o atual presidente do país, com um governo em sua grande maioria composto por militares (sendo ele próprio um capitão reformado do Exército), trazendo consigo uma aura extremamente conservadora, reforçando o clima de retrocesso já agravado pelo seu antecessor, e marcado por uma série de controvérsias e medidas polêmicas nos cinco primeiros meses de governo. 

Apesar de não se estender ao começo desse governo em que estamos, até por ser um capítulo mais recente da nossa história, o documentário de Petra dá conta dos principais acontecimentos dentro dessa década em relação à crise política no Brasil, enfocando na quantidade massiva de manifestações populares, na insatisfação, nos capítulos mais marcantes, na transição dos governos do PT para a retomada do poder pela direita e, mais uma vez, assim como o recente O Processo, reconstruindo o Impeachment de Dilma Rousseff, expurgando toda a fraude por trás do golpe e acenando para seus perpetuadores, Cunha, Temer e Aécio, lembrando que esse talvez seja o momento mais emblemático dessa crise política.

Mixando elementos pessoais ao documentário, com uma narração em off que comenta e dá cores ao que é exposto no filme, Costa também reconstrói a redemocratização, momento em que o país finalmente ia pra frente, após 20 anos mergulhado numa ditadura infame, e inclusive reconta, através das experiências dos pais (presos durante o regime) o que se seguiu após o golpe de 64, um atentado à democracia mascarado de resposta à ameaça comunista. Não muito diferente do que o país assistiria em 2016: uma presidente eleita retirada do poder em favor do ideal de "retomada" do país. 

Talvez o único ponto fraco do documentário seja passear pelos conflitos políticos do país sem realmente colocar o povo à frente do retrato. Costa valoriza muito mais um retrato íntimo e o conecta aos acontecimentos políticos do pais, mas quando a câmera está no povo, é para evidenciar a dualidade, as divergências de opinião que causaram uma perceptível polarização na sociedade brasileira, mas sem dar uma dimensão maior ao que todo esse caos político impactou na vida do brasileiro.

O olhar de Petra sobre esse momento que ficará marcado na história, em que a democracia do Brasil é tentada a todo instante por seu governo, que é vitrine de escândalos de corrupção, disputas pelo poder, mentiras e conspirações, também exibe a dor e o desgosto do povo brasileiro, com uma pluralidade que nos faz enxergar tanto quem apoia ou discorda, mas com um olhar próprio sobre as injustiças cometidas contra a gente do país. O horror do que a política brasileira se transformou, e do que fizeram com as promessas de transformação social e de igualdade, também é um alerta, um chamado. O povo brasileiro é um pária nesse cenário atual, como se as escolhas independessem dele, milhões de votos são jogados fora para "salvar a democracia", intrigas do poder que se desenrolam às escuras, nas sombras. E, como se já não bastasse, a Justiça entra no jogo. E ela joga muito sujo.

O registro de Costa sobre a política brasileira desperta diversos sentimentos, mas dois em especial ficam marcados com a gente nesse momento tão emblemático do nosso país: a indignação e o lamento. Ver as direções que seu governo tem tomado é lamentável.

Forte candidato a um dos melhores (e mais necessários) filmes nacionais do ano.

Democracia em Vertigem
dir. Petra Costa
★★★★

quarta-feira, 29 de maio de 2019

ACONTECEU EM WOODSTOCK (2009)


A celebração da liberdade é o motor principal de Aconteceu em Woodstock, o filme mais subestimado da carreira de Ang Lee. Já tendo ganhado o Oscar por Brokeback Mountain, 2 Leão de Ouro em Veneza, e com filmes como O Tigre e o Dragão e Razão e Sensibilidade no currículo, o cineasta taiwanês apostou nos bastidores dos bastidores do famoso Festival de Woodstock, lá em 1969, para a trama do seu sexto longa-metragem ambientado nos E.U.A. E, para isso, além da reunião de um elenco primoroso, o diretor usufruiu de leveza e espiritualidade admiráveis para costurar um retrato timidamente primoroso, e repleto de sutilezas, mas potente, de um dos momentos mais importantes do século 20, incorporando seus personagens ao espírito "paz-e-amor" de Woodstock da maneira mais bonita e plausível possível, como uma homenagem simples mas cheia de coração ao significado desse evento para a cultura americana.

Um jovem homem retorna da cidade para passar um tempo no motel dos pais, em Bethel, no interior do estado de NY, nas montanhas Catskills. É dele a ideia de trazer um festival que não conseguiu ser organizado para a cidadezinha. Ele consegue trazer um dos organizadores do evento, e é então que o festival de música e artes consegue ser realizado, o lendário Festival de Woodstock.

Engana-se quem pensa que Aconteceu em Woodstock é repleto de conflitos ou reviravoltas, e nem precisa disso pra funcionar do jeito que funciona belamente. Ang Lee faz questão de deixar as coisas fluírem com leveza, destacando seus personagens e o clima do evento que o filme sedia. O resultado é uma arquitetação de cenas que maravilham sem precisar de muito, fruindo uma naturalidade que casa perfeitamente com o seu tamanho. O elenco parece entender todas as propostas, com esforços que parecem tão naturais quanto a trama do filme em si.

A intenção é registrar um momento de confraternização e celebração de valores como a paz, liberdade e amor em tempos turbulentos de guerra do Vietnã e um cenário de alienação política. Mas Lee faz isso com tanta sutileza, e de maneira tão rica, que é impossível não ficar deslumbrado com a atenção que o filme dá ao clima e aos sentimentos do momento, criando um monumento de compaixão, simpatia, beleza e emoção. Aconteceu em Woodstock comemora a paz com um retrato sentimental de uma época e suas marcas, deixando-se levar pela graça que os seus personagens em conjunto evocam. Se destacam Imelda Staunton, Liev Schreiber, Demetri Martin, Henry Goodman e Jonathan Groff, mas o elenco em si está gigante, excelente. Aconteceu em Woodstock é uma pérola sublime escondida na filmografia de um grande cineasta.

Aconteceu em Woodstock
Taking Woodstock
dir. Ang Lee
★★★

terça-feira, 28 de maio de 2019

LUNCHBOX (2013)


Uma das coisas que eu mais gosto em relação aos filmes é a capacidade que eles tem de nos conectar, de expor as ligações que as pessoas compartilham entre elas, e de evidenciá-las na linguagem cinematográfica, sem depender exatamente de traduções ou explicações para deixar claras suas intenções. O cinema me fascina pela universalidade, pelas nuances da arte e da maneira como ela modela e aprimora os sentimentos que são impressos na tela. E, é claro, releva seu lado mais humano, seu poder incrível de expressão e identificação. 

Diretamente da Índia, vem um filme belíssimo sobre a inesperada relação entre uma mulher que descobre que, incidentalmente, o almoço que ela prepara para seu marido todos os dias (e que é transportado através de um infalível sistema de entregas de "lunchbox") está indo parar no endereço errado, nas mãos de um homem viúvo prestes a se aposentar da empresa onde trabalha. O homem fica deliciado com a comida que a mulher o prepara. Ao saberem desse engano, eles dois passam a trocar mensagens, e criam um vínculo muito forte: uma paixão. A mulher está frustrada no casamento, com um marido que não tem tempo pra ela, enquanto o homem encontra na relação com aquela mulher uma chance de se reencontrar e de amar de novo. Os dois tornam-se confidentes e se aproximam sem nem sequer terem se conhecido pessoalmente.

O resultado é de um frescor maravilhoso. Lunchbox abraça um sentimentalismo quieto, sem perder seu ritmo ao entrar num terreno mais dramático. Pelo contrário, isso ajuda ainda mais a criar uma história de amor belíssima em que acompanhamos deliciados a entrega de cartas e a intimidade que cresce bem na nossa frente, e que nos leva a torcer pela felicidade daquele casal tão singelo. Este filme romântico se equilibra entre as doçuras do amor e a observação da rotina daqueles dois personagens, às vezes carregadas de sentimentos de frustração e insatisfação. Em nenhum momento deixa de ser um retrato gracioso, cheio de pontos altos, e que conquista pela honestidade com que acompanha a curiosa relação entre seus protagonistas, sendo fiel aos seus sentimentos e às emoções que permeiam um romance tão majestoso, que mesmo tratando de pessoas comuns consegue ser extremamente particular nos gestos.

Lunchbox lida com a busca de seus personagens, com suas vidas simples, mas é no romantismo que a simplicidade se transforma radicalmente em algo maior. O amor surge das coisas pequenas, e é justamente nos momentos mais sutis e despretensiosos que ele parece ganhar força descomunal, de uma beleza admirável. Vai tocar o coração de quem já se apaixonou e teve que passar por todos os sentimentos que isso é capaz de fazer emergir, desde a tranquilidade de saber que se ama alguém, até a tensão de estar distante e não saber o que irá acontecer. Lunchbox compreende o amor porque compreende suas alegrias e dores. Seus personagens completam-se, mas também sofrem. O amor é um acontecimento precioso, e aqui ele é captado com a ternura e sutileza necessárias para fazer jus à sua incontível riqueza. Irffan Khan e Nimrat Kaur estão majestosos. Gostei demais desse filme. Muito bonito mesmo.

Lunchbox
Dabba
dir. Ritesh Batra
★★★★

sábado, 25 de maio de 2019

Palmarès 2019


PALMA DE OURO
Parasite (Bong Joon-Ho, Coreia do Sul)

GRANDE PRÊMIO DO JÚRI
Atlantique (Mati Diop, Senegal)

PRÊMIO DO JÚRI (empate)
Bacurau (Kleber Mendonça Filho & Juliano Dornelles, Brasil)
Les Misérables (Ladj Ly, França)

PRÊMIO DA MISE-EN-SCÈNE
Irmãos Dardenne — Le Jeune Ahmed (Bélgica)

MELHOR ATOR
Antonio Banderas — Dolor y Gloria (Espanha)

MELHOR ATRIZ
Emily Beecham — Little Joe (Reino Unido/Áustria)

PRÊMIO DE ROTEIRO
Portrait de la jeune fille en feu — Céline Sciamma (França)

MENÇÃO HONROSA DO JÚRI
It Must Be Heaven — Elia Suleiman (Palestina)

O Festival de Cannes 2019 se encerra com uma entrega de prêmios das mais justas dos últimos anos, longe da bagunça que algumas edições recentes fizeram ao ter que escolher os premiados, injustiçando candidatos potentes. Iñárritu e seu júri fizeram escolhas coerentes, dividiram os prêmios entre cineastas menos aclamados (Mendonça Filho, Bong Joon-Ho, Elia Suleiman) e inclusive alguns iniciantes na competição (Mati Diop, Celine Sciamma, Ladj Ly). O calibre da competição desse ano trouxe uma valorização bastante especial do cinema mundial. É o que se indica no reconhecimento de produções oriundas da Coreia do Sul, Brasil, Palestina, Espanha e Senegal. Se alguém estava pensando que o cinema americano seria o queridinho, agora foi a vez de outros cinemas falarem mais alto na vitrine mais importante do cinema de autor e, de certa forma, do cinema mundial também. 


Se o grande favorito da vez, Dolor y Gloria, não bateu a unanimidade prenunciada de Parasite, pelo menos legou a Antonio Banderas um bem-vindo reconhecimento pela sua performance no que talvez seja o mais autobiográfico dos filmes de Almodóvar. Como brasileiro, é impossível não ficar deliciado com a vitória maravilhosa de Bacurau (prêmio do júri), um dia após o filme de Karim Aïnouz chegar ao prêmio principal da mostra Um Certo Olhar (a mais importante do festival depois da competição da Palma). Ou seja, temos dois filhos do Brasil (e de cineastas nordestinos) entre os vencedores dos prêmios mais relevantes do Festival de Cannes. Isso é gigante. E nos dias de hoje, no Brasil de hoje, vocês sabem que a importância é triplamente maior. Viva o cinema nacional!!! 


E se é um dia histórico para o cinema sul-coreano que teve sua primeira Palma hoje, é também histórico para Mati Diop, que tornou-se a primeira africana a ter seu filme na competição de Cannes, e saiu com o 2º prêmio mais importante da noite. Rotineiramente premiados, os Irmãos Dardenne, apesar da recepção morna que tiveram no festival, saíram vitoriosos. E Celine Sciamma, que era cotadíssima à Palma, foi lembrada pelo melhor roteiro. Suleiman, cineasta palestino que retornou à competição após um hiato de uma década, foi a menção honrosa da seleção. Enfim, estão aí alguns dos filmes que foram celebrados nessa edição do festival, e que merecem nossa atenção. Feliz pelo cinema brasileiro, que foi enaltecido tão merecidamente. E que isso sirva de inspiração para a nossa cultura e arte nacional seguir resistindo em tempos turvos. O cinema é uma arma muito poderosa, lembrem-se disso. 

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Apostas, Alguns Prêmios e Mais Filmes em Cannes


Festival de Cannes está se encerrando, e nestes últimos dias mais alguns filmes pintaram na seleção, e hoje foram revelados os vencedores da mostra Um Certo Olhar, com uma grande e bela surpresa para nós brasileiros: nosso representante nacional A Vida Invisível de Eurídice Gusmão conquistou o prêmio principal da mostra, que só perde na importância para a competição da Palma de Ouro. Aliás, é o 1º filme brasileiro a conquistar essa honra. O filme é dirigido por Karim Aïnouz, de O Céu de Suely e Praia do Futuro. É motivo de comemoração, ainda mais em tempos como esse, em que a cultura é posta à prova pelos atuais governantes que ameaçam oprimi-la, e nosso cinema passa por uma fase em que é preciso, mais do que nunca, reafirmar a sua importância: e que bela maneira de fazê-lo! Que isso sirva de resistência, para mostrar a força do cinema nacional lá fora, quando tentam diminuir sua importância aqui dentro. 

Prêmio UM CERTO OLHAR: A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (Karim Aïnouz)
Prêmio do Júri: Fire Will Come (Oliver Laxe)
Prêmio de Direção: Kantemir Balagov (Beanpole)
Prêmio de Atuação: Chiara Mastroianni (On a Magical Night)
Prêmio Especial do Júri:
Albert Serra, Liberté
Bruno Dumont, Joan of Arc

Entre os últimos filmes exibidos na seleção principal, foram poucos os destaques. Muito se criticou a qualidade das produções e até tivemos uma bomba que foi chamada por muitos como sendo o pior filme já exibido no festival em anos. 


O mais elogiado (e um considerável finalista pra Palma) veio nessa sexta: It Must Be Heaven, do cineasta palestino Elia Suleiman, que há 10 anos não dirigia, e trouxe um filme pungente com teor sociopolítico sobre a identidade palestina e o cinema em si. 

De cineastas aclamados, sobraram as críticas desapontadas para os novos filmes de Bellocchio (com Il Traditore, recebido com frieza), Desplechin (seu thriller Roubaix, une lumière foi chamado de entediante) e, o filme mais aloprado de Cannes 2019, o novo de Kechiche (vencedor da Palma em 2013), Mektoub, My Love: Intermezzo, sequência de outro trabalho do cineasta de 2017, ultrapassou a impopularidade de desastres recentes como The Sea of Trees ou The Last Face, que foram detestados pela crítica. Esse aqui foi comparado a um filme pornô e teve uma das aprovações mais baixas (sem falar no pessoal saindo da sala aos montes durante a projeção). É esperar pra ver se é isso mesmo, mas a garantia é que não é agora que veremos Kechiche recuperar a Palma que ele teve que vender pra conseguir financiar o projeto. E, fechando a competição, o francês Sibyl, que até foi elogiado, principalmente pelo elenco. O filme é de Justine Triet, também na competição pela primeira vez.


E, agora, minhas apostas para OS PRÊMIOS que serão entregues amanhã. Será que veremos Almodóvar levar sua merecida Palma pra casa, sendo ele o grande favorito? Ou o júri vai preferir algum outro dos veteranos que disputam por mais uma pra coleção? Ou algum nome novo na lista, que chegou quebrando tudo? Veremos:

1ª opção (mais óbvia)

Palma de Ouro: Dolor y Glória
Grande Prêmio do Júri: A Hidden Life
Prêmio do Júri: Portrait de la jeune fille en feu
Prêmio da Mise-en-Scène: Quentin Tarantino
Melhor Atriz: Valerie Pachner, A Hidden Life
Melhor Ator: Kris Hitchen, Sorry We Missed You
Melhor Roteiro: Bacurau

2ª opção (meus chutes)

Palma de Ouro: A Hidden Life
Grande Prêmio do Júri: Parasite ou It Must Be Heaven
Prêmio do Júri: Atlantics
Prêmio da Mise-en-Scène: Céline Sciamma ou Mendonça & Dornelles
Melhor Atriz: Isabelle Huppert, Frankie
Melhor Ator: August Diehl, A Hidden Life
Melhor Roteiro: Matthias & Maxime ou Once Upon a Time in Hollywood

Os dez favoritos para a PALMA

1. Dolor y Gloria
2. A Hidden Life
3. It Must Be Heaven
4. Portrait de la jeune fille en feu 
5. Parasite
6. Bacurau
7. Atlantique
8. Once Upon a Time in... Hollywood
9. Sorry We Missed You
10. Matthias & Maxime

Era Uma Vez em Cannes

Parasite, de Bong Joon-Ho, é forte concorrente à Palma de Ouro, que será entregue neste sábado.

Perto de fechar o festival de 2019, e praticamente às vésperas da entrega dos prêmios, figuram alguns favoritos que podem cair nas graças do júri, e para completar a lista que já está cheia, temos um exemplar lá da Coreia do Sul: Parasite, de Bong Joon-Ho, é um dos únicos a duelar com o ainda grande favorito Dolor y Gloria na disputa dos prêmios. Bong é diretor de O Hospedeiro e Expresso do Amanhã. Competiu pela Palma pela primeira vez em 2017, com Okja.

Pitt, DiCaprio, Tarantino e Robbie em conferência

Em uma semana badalada, o festival presenteou o público e a crítica com alguns dos trabalhos mais esperadas da seleção deste ano. Talvez falando do filme mais esperado, falamos de Once Upon a Time in... Hollywood, de Tarantino, que ganhou os holofotes essa semana (em seu tapete vermelho desfilaram Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Margot Robbie) e a atenção da crítica em geral. Tarantino, que há duas décadas levava a Palma de Ouro pra casa por Pulp Fiction, há 10 anos não exibia um filme lá (desde Bastardos Inglórios), motivo que tornou o retorno ainda mais aguardado. Elogiado, mas também detratado (principalmente pela crítica estrangeira), o filme esteve envolvido em polêmicas (Tarantino foi grosso com os repórteres durante a conferência após ser criticado) mas também teve uma sessão lotada e com direito a uma ovação demorada.

Xavier Dolan retorna a Cannes com filme prestigiado após fracassos recentes

Retornos promissores, mas com recepções mornas, Matthias & Maxime, de Dolan, e Jeune Ahmed, dos Irmãos Dardenne, conseguiram chamar atenção. Dolan, com seu oitavo longa como diretor, foi elogiado por ter voltado ao terreno familiar, no Canadá, visto que seus dois últimos filmes, feitos no exterior, foram extremamente mal-recebidos, inclusive seu mais recente projeto hollywoodiano, com um elenco estelar, passou em branco e nem chegou a ser lançado direito nos cinemas. Mas parece que agora, em casa, o diretor conseguiu voltar à forma com uma comédia romântica menos ambiciosa. Enquanto isso, os irmãos belgas, que na edição de 2016, assim como Dolan, também tinham sido recebidos a pontapés pelos críticos, voltaram com um trabalho mais desafiador, mais elogiado que o anterior, porém aquém de outros grandes filmes da dupla dessa década, como O Garoto da Bicicleta ou Dois Dias, Uma Noite.

Isabelle Huppert, uma das musas do festival, está em Frankie, de Ira Sachs

Frankie, ainda que recebido com certo entusiasmo, é um concorrente fraco à Palma. É a primeira vez que Ira Sachs concorre, e traz Isabelle Huppert, presença mais que especial no festival, numa atuação celebrada (talvez o júri dê o prêmio pra ela?). Gomera, do romeno Corneliu Porumboiu, um thriller aplaudido que, se não está tão concorrido para a Palma, está saindo com elogios do festival. The Wild Goose Lake recebeu comparações a Hitchcock, mas também ficou desvalorizado numa competição curiosamente acirrada e com promessas acima da média.

resumo de 20 a 22 de maio. 

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Promessas da Croisette

Almodóvar (finalmente) favorito à Palma de Ouro
Bacurau, único brasileiro na competição, chama a atenção dos críticos

Festival de Cannes chegando na sua metade com uma porção de filmes promissores despontando na sua seleção recheada de coisa boa, e dificultando saber quem é que está mais perto da Palma de Ouro. Acompanhar o festival de longe, a posteriori, dificulta ainda mais, porém é bom ficarmos informados sobre quais são os filmes que estão aprovados e os filmes que receberam críticas mais duras. Entre os favoritos aos prêmios (que serão entregues no sábado) destacam-se Dolor y Gloria, de Almodóvar (tentando a Palma de Ouro pela 6ª vez, parece ser o grande favorito ao prêmio com esse novo projeto bastante pessoal), Portrait de la jeune fille en feu, de Sciamma (concorrendo pela primeira vez), A Hidden Life, de Malick (voltando a Cannes oito anos depois de A Árvore da Vida, que o garantiu a Palma, e com um filme que segundo alguns é bem mais convencional e seguro do que seus últimos filmes de ficção tidos como medianos), Atlantique, de Diop (ela é a primeira mulher africana a concorrer à Palma de Ouro na história do festival, e o filme foi recebido com chuvas de elogios) e, nosso representante nacional, Bacurau, de Mendonça Filho & Dornelles, que teve uma recepção bastante calorosa na semana passada, e já garantiu boatos de que poderia estar no radar dos prêmios. Les Miserábles, do estreante Ladj Ly, e Sorry We Missed You, o filme mais elogiado do veterano Ken Loach em muito tempo, também surgem entre os grandes preferidos de Cannes 2019. Enquanto isso, da competição, títulos que não agradaram muito a crítica, como The Dead Don't Die e Little Joe, foram rebaixados. 

Júri da competição

resumo da primeira metade (14 a 20/05) do Festival de Cannes

VINGADORES: ULTIMATO (2019)


Este comentário contém spoilers. Esperei para poder escrever sobre o novo Vingadores, o fenômeno das bilheterias que todos estavam loucos pra conferir, e que em uma semana após a sua estreia já tinha chegado à segunda colocação na lista das maiores bilheterias de todos os tempos (e está bem perto de passar Avatar), talvez pelo impacto que ele teve em mim, por não esperar que veria um filme tão grande e, ao mesmo tempo, ser tão sensível. 

O filme que encerra belamente uma das franquias mais populares do cinema é uma odisseia repleta de cenas grandiosas, sequências de ação enlouquecedoras com personagens que nos últimos anos, desde o primeiro filme dos Vingadores até as produções mais recentes, cresceram com o público e este aprendeu a acompanhar e gostar de suas histórias e filmes. O legado, mais uma vez, se fortalece a partir desses laços, que foram se estreitando, e que neste filme se confirmam. Em paralelo à grandiosidade épica que o encerramento dessa franquia exigiu, temos a leveza de cenas em que os super-heróis estão em seus momentos mais humanos, descontraídos ou pesados, mas carregados de uma simplicidade bem alegre e bem-resolvida. Ultimato expõe as fraquezas e as feridas, mas parece sempre olhar com amor aqueles personagens que construiu sua história, abraçando a história por trás de cada um deles. Abraçar a relação que o tempo fortaleceu e priorizar um retrato emocionante da fraternidade dos Vingadores e dos super-heróis é um dos pontos altos de Ultimato, que chegou para desestruturar os ranques como um dos melhores filmes de super-herói já feitos. 

A experiência de ver esse filme no cinema foi completamente emocionante, e tudo o que essa palavra pode definir Ultimato foi. A frenesi da ação, ou as lágrimas que eventualmente coloriram os rostos da maioria dos presentes na sessão lotadíssima (e o meu também, em uma sequência decisiva de deixar qualquer um extasiado), a beleza da redenção dos personagens, a amizade, o amor, as escolhas, o passado e o tempo, e o significado de uma família. Ultimato faz sentir tantas emoções, ao abraçar a simplicidade do seu sentimentalismo, que é também fruto da história que o público tem com essa franquia, mas que carrega na sua urgência pela união um significado bem maior, que transcende o mero exibicionismo da sua pilha de cenas grandiosas, mas esconde um afeto, que depois se revela com toda a graça desejada.

Os Irmãos Russo conseguem equilibrar a ação explosiva muito bem calibrada com sequências dramáticas devastadoras, capazes de deixar até quem não é fã em prantos. Os personagens estão nus e crus, em suas versões mais despidas, humanas, atenuantes. Grandes performances (Downey Jr, Renner, Ruffalo, Hemsworth, Evans, Brolin, etc.) coroam a opulência de um elenco que por si só é a própria reunião de família da Marvel, com a presença de atores que fizeram papéis em outros filmes da franquia (Swinton, Boseman, Cumberbatch, Olsen, etc.) que é impossível não pensar neste elenco como, pelo menos, a reunião mais exasperante dos últimos anos, e para os padrões do cinema, é um elenco gigantesco de satisfazer toda e qualquer expectativa.

Com um dos desfechos mais deslumbrantes e próximos da perfeição possíveis, Ultimato encerra belamente uma franquia que apaixonou vários espectadores, cinéfilos e fãs de quadrinhos desde o primeiro filme de 2012, e confirma o legado dos Vingadores. Faz a melhor combinação dos seus elementos para quebrar essa "regra" de que o mainstream não tem espaço para a delicadeza ou complexidade, e aqui são indispensáveis para fechar com chave de ouro uma história que emociona, faz vibrar, gritar, chorar, e conclui Ultimato com a dignidade que seus personagens demandam, desvendando o humano que em todo super-herói existe, e o que de mais heroico há no coração dos humanos. Me emocionou, eu que não sou fã, mas me senti como aqueles personagens, e a emoção tomou conta de mim, continuou vibrando até depois daquela sessão tão especial. Um dos melhores filmes de super-herói dos últimos anos, junto com Logan e Pantera Negra.

Vingadores: Ultimato
Avengers: Endgame
dir. Anthony & Joe Russo
★★★★

quinta-feira, 16 de maio de 2019

GAROTOS DE PROGRAMA (1991)


Garotos de Programa é Gus Van Sant antes da fama, antes de Hollywood, entregue às idiossincrasias do então cinema independente, experimentando linguagens e tentando coisas novas a cada partezinha do seu filme que fala sobre, entre outras coisas, o pertencer, o estar, as angústias de pessoas que vivem às margens, o abandono, e a todo instante, tenta-se encontrar, ou pelo menos alcançar, a beleza no meio daquela bagunça, enxergar o sublime em pessoas caóticas, perdidas.

A originalidade do estilo de Van Sant está livre, respirando sem amálgamas, ele tenta de tudo e consegue resultados espontâneos com o inconvencional. O elenco também aproveita da mesma liberdade pra moldar atuações inesquecíveis (River Phoenix, Keanu Reeves e William Richert estão brilhantes).

Num ritmo de road movie, o filme avança à medida em que descasca seus personagens, exibe suas fragilidades, expõe fraquezas, as perseguições, marcas da vida, e constrói um retrato melancólico, doloroso, de traços líricos, que projeta naquelas vidas marginais um senso de sentimento, comiseração sem forçar a barra, tudo para se alinhar com a beleza da procura que o personagem de Phoenix mantém pela mãe e que é o fio condutor da narrativa. Os caminhos dessa busca levam à contundência, com um desfecho forte, nunca exigente, mas que reflete a distorção daquelas vidas desencontradas e suas dores. Garotos de Programa provavelmente é o melhor exemplo daquilo que um drama homossexual deveria ser. Forte, mas sem apelos. E honesto, com delicadeza.

Garotos de Programa
My Own Private Idaho
dir. Gus Van Sant
★★★★½

O AMOR É CEGO (2005)


Provavelmente o melhor filme dos Irmãos Farrelly, empareado com O Amor é Cego. Diferentemente desse, aqui temos um casal cujo amor é testado pela devoção de um torcedor fanático do Red Sox ao time que é muito importante na sua vida, algo que no começo até surpreende a namorada por ela achar bonito o comprometimento e a dedicação com algo que se gosta, como um símbolo do amor, mas que aos poucos (e o filme vai desvendando isso de forma bem sutil e genial) vai mostrando seu lado, digamos, tóxico para a relação entre os dois.

Drew Barrymore talvez seja para as romcoms dos anos 2000 o que Sandra Bullock foi para os anos 90, e o charme dela entra numa sintonia tão deliciosa com o carisma do Jimmy Fallon que apenas observar a química entre os dois já deixa o filme encantador. Inclusive o que não falta são cenas românticas, sejam elas cômicas ou mais dramáticas, protagonizadas entre os dois, que funcionam belamente, dentro da simplicidade da proposta. Aos poucos percebo que os filmes do Farrelly tem essa vibe meio feel-good, até quando eles fazem comédias mais escrachadas, que mexem com um humor que surge do lado físico, mas que até nisso podem ser abordadas com certo sentimentalismo (como é o caso do Amor é Cego e de Ligado em Você também). Aqui isso fica de lado, em segundo plano, e o romance e o lado emocional são mais valorizados.

E importante notar que, sendo uma comédia que tem um protagonista tipicamente loser, até nisso há uma certa esperança, um "lado bom" para um personagem que busca a vitória no amor e no esporte, e o filme costura uma visão bastante positiva sobre esses dois campos e o significado deles para o Ben.

O Amor é Cego
Fever Pitch
dir. Bobby & Peter Farrelly
★★★★

terça-feira, 14 de maio de 2019

Festival de Cannes 2019: lista de desejos


Festival de Cannes começa hoje e a lista da seleção oficial veio recheada de promessas apetitosas para o ano cinematográfico de 2019. O poster dessa edição homenageia a querida cineasta francesa Agnès Varda, que nos deixou em março, fotografada durante as filmagens de seu longa de estreia, La Pointe-Courte. Segue aqui a reunião de alguns dos títulos que mais me interessaram dessa edição, acompanhando os que tiveram o prestígio de serem incluídos na competição pela Palma de Ouro. No júri, Iñárritu preside, e nomes do cinema como Reichardt, Lanthimos, Campillo, Pawlikowski e Rohrwacher irão escolher e entregar os prêmios com Elle Fanning, Enki Bilal e Maimouna N'Diaye. O festival segue de 14 a 25 de maio. 

Competição

Atlantique (Mati Diop)
Bacurau (Kleber Mendonça Filho & Juliano Dornelles)
The Dead Don't Die (Jim Jarmusch)
Frankie (Ira Sachs)
A Hidden Life (Terrence Malick)
It Must Be Heaven (Elia Suleiman)
Little Joe (Jessica Hausner)
Matthias & Maxime (Xavier Dolan)
Les Misérables (Ladj Ly)
Mektoub, My Love: Intermezzo (Abdellatif Kechiche)
Roubaix, une lumière (Arnaud Desplechin)
Once Upon a Time in Hollywood (Quentin Tarantino)
Dolor y Gloria (Pedro Almodóvar)
Parasite (Bong Joon-Ho)
Portrait de la jeune fille en feu (Céline Sciamma)
Sibyl (Justine Triet)
Sorry We Missed You (Ken Loach)
Il traditore (Marco Bellocchio)
Gomera (Corneliu Porumboiu)
The Wild Goose Lake (Diao Yinan)
Le Jeune Ahmed (Irmãos Dardenne)

OUTRAS PROMESSAS DA SELEÇÃO OFICIAL

Un Certain Regard

Freedom (Albert Serra)
A vida invisível de Eurídice Gusmão (Karim Ainouz)
Chambre 212 (Christophe Honoré)

Hors Concours

Rocketman (Dexter Fletcher)
Diego Maradona (Asif Kapadia)
Too Old to Die Young (Nicolas Winding Refn)
The Specials (Olivier Nakache & Éric Toledano)
Tommaso (Abel Ferrara)
Chicuarotes (Gael García Bernal)
Lux Æterna (Gaspar Noé)

Quinzena dos Realizadores

Deerskin (Quentin Dupieux)
First Love (Takashi Miike)
The Halt (Lav Diaz)
The Lighthouse (Robert Eggers)
Sem seu sangue (Alice Furtado)
Wounds (Babak Anvari)
Zombi Child (Bertrand Bonello)

domingo, 5 de maio de 2019

SE A RUA BEALE FALASSE (2018)


Se Moonlight era também sobre, de certa forma, o amor como forma de libertar-se de um mundo que te aprisiona, Se a Rua Beale Falasse inverte o jogo e retrata viver o amor diante dos cerceamentos do mundo, através de suas barreiras. Nesses filmes de Barry Jenkins, somos moldados pelos sentimentos ao mundo que nos cerca, pelas suas prisões, dores e aflições, para depois sermos resgatados pela graça, completude e maravilha do amor. É o que reafirma esse novo filme, que traz uma visão lírica e dolorosa da relação entre uma moça de 19 anos grávida de um rapaz que está preso, acusado de um crime que não cometeu.

Há todo um charme, uma dinâmica na paleta de cores, uma sutileza sublime nos enquadramentos e nos close-ups, magníficos. Obra de James Laxton, a fotografia não desaponta sequer um momento, continua evocando quem inspirou Jenkins (Kar-Wai, Denis) ao mesmo tempo em que cria para esse diretor sua estética própria, com cores que exprimem delicadamente os desdobramentos da trama, as sensações dos retratados e que também se conecta a quem está atrás da tela.

Diferentemente de Moonlight, esse aqui não tem o foco em apenas um personagem para depois conectá-lo ao elenco, mas divide sua atenção entre a Tish e o Fonny, e com os outros personagens, criando uma ponte entre os sentimentos de injustiça, glória e compaixão compartilhado por eles.

Num elenco inspirado, para as melhores atuações ficaram com a responsabilidade Regina King (excelente mesmo em poucas cenas), Stephan James e Kiki Layne, e até mesmo quem tem atuações menores, como Brian Tyree Henry, Aunjanue Ellis e Colman Domingo, conseguem se destacar.

A trilha de Nicholas Britell é desconcertante, tão desconcertante quanto a de Moonlight. Ajudando a compor a atmosfera romântica do filme, e com a sensibilidade de Barry Jenkins, esses detalhes ajudam a enriquecer a adaptação do romance de James Baldwin com um senso de ternura, paixão e força bastante precisos. O filme sabe da força que carrega e canaliza ela para o que ele tem de mais particular: sua compreensão tocante do amor. Com um retrato densamente pungente do negro na sociedade americana e das barreiras que a ele são impostas, Se a Rua Beale Falasse entende com a tristeza de um blues a marginalização, o aprisionamento, mas prefere costurar as vidas de seus personagens com o que de mais belo poderia acontecer a elas. É essa beleza, essa força incontida que, afinal de contas, permite que a esperança respire, e a liberdade fale, e enfim viva.

Se a Rua Beale Falasse
If Beale Street Could Talk
dir. Barry Jenkins
★★★★

domingo, 21 de abril de 2019

EM TRÂNSITO (2018)


Petzold, possivelmente o melhor cineasta em atividade na Alemanha, traz uma proposta diferente em seu novo filme: a reimaginação da segunda guerra nos dias de hoje. Seu filme moderniza e traduz o fascismo para a Europa contemporânea dos refugiados, a trama gira em torno de um alemão em exílio, a mulher de um escritor e toda a conexão que coexiste no hiato entre um e outro, personagens que vivem escondidos, procuram rostos conhecidos na multidão, vidas duplas que se intercalam.

Seu novo filme fala sobre um tipo de dor que só sabe quem já experimentou a distância, o abandono. Isso em especial parece ligar todos os personagens da trama, que são movidos por um certo mistério, uma busca pelo pertencer num cenário de guerra, conflito, caos e medo. Nessa procura por encontrar um lugar a que possam pertencer, essas pessoas encontram uma na outra a raiz de suas dores e felicidades. A distância é observada quando a proximidade entre eles é exposta.

Em Trânsito é uma investigação de sentimentos que nascem do trânsito das mudanças, com um olhar que invoca melancolia ou torpor, mas sempre vê delicadeza nos seus personagens, e coloca isso à frente. É um drama que se abre nos intervalos, se permite o romance e também a dor, porém com uma compaixão rara, certa e tranquila.

Nesse sentido, o final é extremamente decisivo, mas sela uma condição do filme. Uma condição que te convida a enxergar. Personagens que se procuram uns nos outros, que precisam fugir, mas querem ficar. A permanência como salvação. Petzold traz humanidade para temas que carregam um peso, mas a maneira como os toca, com afeto e resiliência, traz um impacto diferente em quem assiste, por ser tão particular e universal, como retrato da dor, do coração partido, do abandono.

Seu filme mais desolador, pungente, é humano, repleto de sensibilidade, do jeito que esse diretor faz de melhor. Atuações gigantes (Rogowski, Beer e Lilien Batman, o Driss, estão excelentes), uma fotografia em sincronia com o ritmo agridoce, e cenas desarmadoras, absurdamente bem concebidas, que coroam a belíssima percepção de Em Trânsito sobre tantos sentimentos, e com tamanha honestidade.

Em Trânsito
Transit
dir. Christian Petzold
★★★★★

sábado, 20 de abril de 2019

GRASS (2018)


Essa fase de Sang-Soo tem gerado resultados interessantemente diferentes de outros filmes da sua filmografia. Mantém-se os hábitos, mas trocam-se os discos. O autor coreano deixa de lado o humor e a graça pelo joie-de-vivre para tratar de temas não exatamente mais sérios do que outros já trabalhados, porém obscuros, amargos, com lirismo e delicadeza intocados, mas voltados para visões e dramas bem mais localizados e aprofundados, que são filtrados pelo mesmo ritmo poético de fazer filmes, planos meticulosos como meditações que se arrastam para costurar resultados firmes, tramas que eventualmente acabam se alinhando.

A leveza que era constantemente associada ao estilo desse diretor dá lugar à contemplação de diálogos repletos dos sentimentos pesados de personagens amargurados, que tem algo a descarregar naquelas mesas de café. O filme vai se estabelecendo como uma peça, se molda em poucos cenários e constrói neles suas direções. Funciona bem porque os personagens é que embasam o desfecho, pura e simplesmente. Observamos suas conversas e gestos como a quem pinta um quadro. Dramas que se interligam, pessoas que parecem procurar coisas parecidas.

Para mais ou menos uma hora de filme, o elenco se sai incrivelmente bem, com atuações que se não tomam muito tempo em tela, pelo menos conseguem dizer o suficiente. Hong deixa as coisas fluírem e seus atores sabem o que fazer.

Num café ou num beco, geralmente duas pessoas desabafam, colocam seus sentimentos pra fora, conversam, recuam, escondem, e finalmente desmascaram suas verdades, liberam a tensão. A personagem de Kim Min-Hee diz que não é escritora, mas registra o desabafo, parece estar conectada com aquilo de alguma forma, embora não fique claro no começo.

Com seu ritmo lento, Grass dá passos grandes para esculpir o tímido desnorteamento daquelas pessoas. Hong não é estranho ao drama, mas se em suas comédias buscava a espiritualidade do banal e se contentava com configurações simples de sentimentos mais espontâneos (com seus estados e rotinas), nessa fase há um interesse maior por um certo peso que defina os personagens, mexendo ainda mais fundo, resultados que não aparecem de primeira, mas se desenvolvem em tela. E, é claro, sempre mantendo o respeito pela naturalidade, uma marca registrada desse cinema que tem seu jeito próprio de captar a beleza por trás do sutil. Consistente e significativo.

Grass
Pul-lip-deul
dir. Hong Sang-Soo
★★★★

GUERRA FRIA (2018)


Guerra Fria é sobre amor, guerra e a turbulenta relação entre os dois. Pawlikowski registra em um preto-e-branco exuberante banhado de romance, mistério e beleza seu retrato apaixonado e distorcido de personagens que se encontram num cenário improvável, que se amam entre países, segredos e conflitos, numa guerra fria que é marcada pelos encontros e desencontros de amantes perdidos e deslocados numa Europa em ruínas.

Algumas cenas são muito bonitas visualmente, com um jeito de realçar o elegante romantismo de uma relação bagunçada. Não fica muito longe daquela beleza meio singular, inconvencional de Ida, com um certo fascínio pela graça inesperada que surge dos sentimentos que são emitidos em tela.

E é até surpreendente ver um filme que consegue conciliar tão bem a sensação amarga de uma guerra e a conexão arrebatadora de um romance que atravessa todos os conflitos que se colocam em seu caminho, com aquela confissão de sentimentos que todos os amantes conhecem. É um filme bonito nesse sentido, pode não ser o filme perfeito pra explorar a sensibilidade de um romance que sobrevive ao tempo, até pela questão de ser mais sobre a resistência e o amor como força redentora. As atuações de Kulig (lindíssima) e Kot são essenciais pra compor a fragilidade amorosa dos seus personagens, e à exposição que os cerca. Tanto a musicalidade quanto o apuro visual ajudam a filtrar sentimentos de preciosidade e precisão. Gosto principalmente das cenas em que eles se encontram em Paris, e também do começo do longa, mas em geral tem conjuntos de cenas que vão do belo ao melancólico, do quebradiço à glória, da guerra ao amor com um charme irresistível.

Guerra Fria
Zimna wojna
dir. Pawel Pawlikowski
★★★★

sábado, 13 de abril de 2019

A TURBA (1928)


Uma dessas pérolas únicas do cinema mudo, "A Turba" exala simplicidade e, porque não, inocência, com a mesma energia que celebra um e outro, nessa sensível ode ao homem comum americano, equilibrando tristeza e alegria com os dramas da história de um amor, casamento, família, trabalho e as atribulações da vida de gente comum, como eu e você.

O que mais comove aqui é a forma como o filme (e essa é uma herança do cinema daquela época) se sente, e se torna completo com a sua própria sutileza, com leveza e charme (aquela cena da primeira noite juntos no trem consegue ser expressiva com tão pouco, e com tamanha honestidade, que é impossível não ficar comovido com a timidez, o humor dela).

Mais bonito é observar as tensões que vão surgindo e como elas são delineadas, de maneira que sempre tenha um equilíbrio muito evidente entre drama e romance. As performances são essenciais pra reforçar essa simplicidade, a ideia de que o filme é construído em cima da beleza do ordinário, o particular que vem do geral.

É interessante que essa seja uma essência muito própria do cinema mudo, de encontrar valor cinematográfico em gestos puros, em premissas bem inocentes, mas que são felizes nesse formato, sem precisar de reforços para deixar seu recado (e que, de certa forma, é uma das maiores influências deixadas por esse cinema, que não se perdeu com o tempo).

É um filme feliz pela sua natureza, contente em filmar seus personagens e as situações aparentemente banais em que se envolvem, mas o jeito como ele se desenlaça, e extrai dessa banalidade beleza, afirmação e encantamento, é comovente demais pra passar em branco. "A Turba" me surpreendeu. É delicado ao retratar dor e amor, sempre falando sobre o que une todos nós, como retirar alguém aleatório de uma multidão e fazer uma história com que possamos nos identificar, plena e humana.

A Turba
The Crowd
dir. King Vidor
★★★★★

WON'T YOU BE MY NEIGHBOR? (2018)


Um belíssimo documentário, necessário pra gente lembrar que amor, bondade e generosidade fazem toda a diferença num mundo cheio de doenças. Inspirador também, porque faz comentário social/político ao mesmo tempo em que enaltece valores humanos e tão profundos, e que precisam sempre ser relembrados: o afeto que pode salvar uma pessoa, respeito, tolerância, a essência inerente do carinho, compreensão, igualdade, e, é claro, aceitarmos e amarmos uns aos outros como somos, e nos cuidarmos, nos protegermos em todos os momentos. 

Gosto das cenas em que o Fred está interagindo com as crianças, uma das coisas que mais me tocou foi perceber que crescer também é carregar dentro de si a infância, a beleza de ser e permanecer uma criança. E que o amor existe de todas as formas, e que ser amado é também um ato de humanidade. Talvez isso seja pessoal demais, eu só espero que as pessoas não fiquem cegas à relevância desse filme, saber que tem pessoas no mundo que ainda se importam com a gentileza é no mínimo gratificante. Uma lição de empatia, de positividade. Fiquei arrepiado com aquela sequência dos entrevistados pensando nas pessoas especiais em suas vidas.

Won't You Be My Neighbor?
dir. Morgan Neville
★★★★★

segunda-feira, 8 de abril de 2019

VICE (2018)


O menos querido dos indicados a Melhor Filme no Oscar desse ano, Vice é a (super) pretensiosa cinebio sobre o ex-vice-presidente dos EUA Dick Cheney (Christian Bale, em performance de caracterização deveras impressionante), que ocupou o cargo por oito anos durante a gestão de George W. Bush (Sam Rockwell, que foi indicado como ator coad. por este papel). O filme é dirigido por Adam McKay, que traz novamente os cortes rápidos e a edição fragmentada presentes no seu trabalho anterior, o frenético A Grande Aposta, usando sátira política repleta de exageros e inconsistências para costurar seu estranho retrato da política norte-americana. O resultado é decepcionante. Não há o tom político que tanto se almeja, as intenções nunca ficam claras, as críticas são lançadas mas o filme sempre encontra um jeito de recuar delas, focando no humor da situação e na caricatura dos personagens, sem nunca acertar o ponto, sem ter uma direção. Na falta de profundidade, Vice pretende a inovação (com uma boa dose de brincadeiras) sem nunca dar passos largos. Apela para reafirmações de seu projeto de humor e, grotescamente, é o mesmo humor que sabota qualquer proposta ou intenção louvável, qualquer chance de ser relevante. Curioso que um filme tão perdido assim tenha conseguido um número tão grande de indicações em diversos prêmios influentes. O elenco até encontra um equilíbrio, mas não consegue jogar a patifaria pra debaixo do tapete. Esses americanos precisam parar de querer ser engraçadinhos falando de política porque não tá funcionando muito. 

Vice
dir. Adam McKay
★★

domingo, 31 de março de 2019

Homenagem a Agnès Varda


Uma das perdas mais tristes. Agnès Varda nos deixou essa semana aos 90 anos. Ela foi uma das cineastas mais importantes não apenas da França, sua terra natal, mas do mundo. Foi a mãe da Nouvelle Vague, companheira de Jacques Demy (mestre do musical), rodou diversos filmes em mais de 50 anos de carreira, entre ficção, documentários e curtas, ganhou um Oscar recentemente e continuou produzindo filmes até esse ano (seu novo documentário está para sair). Em suas obras sempre manteve o amor pela vida, pela expressão, pelo cinema. Vai deixar saudade. Felizmente será lembrada, celebrada através do que deixou: grandes filmes, histórias, registros, poesia em forma de cinema. Em celebração do seu legado, aqui está minha lista das obras indispensáveis da carreira dela, lembrando que eu também tenho algumas anotadas e que devo ver em breve. Neste sábado, vi dois curtas e o belo Muros e Murmúrios. Muito grato pelo que Varda fez pelo cinema.

Adieu, Agnès. Merci pour tout. Vá em paz. Te amo. 

em ordem alfabética

Cléo das 5 às 7 
Os Catadores e Eu
Documenteur
Muros e Murmúrios
La Pointe-Courte
As Praias de Agnès
Os Renegados
Visages, Villages

na minha lista

As Cento e Uma Noites
As Criaturas
Daguerreótipos
As Duas Faces da Felicidade
Kung Fu Master
Lions Love (inédito)
Longe do Vietnã
Nausicaa (inédito)
Uma Canta, a Outra Não
Varda by Agnès (seu último documentário)

os curtas

Tio Yanco
L'Opera Mouffe
Panteras Negras
Resposta das Mulheres
Saudações aos Cubanos

domingo, 17 de março de 2019

Lumière de Ouro 2018 — Melhores do Ano


Aqui está o meu "Oscar pessoal" em sua quinta edição, com os meus votos para os melhores do ano no cinema em todos os aspectos. Decidi listar ambos os indicados e os vencedores no mesmo post. Aqui estão eles:

Regras de elegibilidade: filmes lançados comercialmente ou streaming durante o ano de 2018.
Mudanças: categorias de direção e elenco passam a ter um indicado a mais (sendo assim, seis indicados) e a categoria de melhor filme passa a ter 10 indicados. A categoria com mais indicados é melhor cena, com 12 selecionados.


FILME

Me Chame pelo seu Nome
Deixe a Luz do Sol Entrar
O Dia Depois
Feliz como Lázaro
Infiltrado na Klan
Mudbound
Ponto Cego
Projeto Flórida 
Roma
Trama Fantasma

DIREÇÃO

Alfonso Cuarón, Roma
Alice Rohrwacher, Feliz como Lázaro
Claire Denis, Deixe a Luz do Sol Entrar
Luca Guadagnino, Me Chame pelo seu Nome
Paul Thomas Anderson, Trama Fantasma
Spike Lee, Infiltrado na Klan

ATOR

Adriano Tardiolo, Feliz como Lázaro
Bradley Cooper, Nasce uma Estrela
Daniel Day-Lewis, Trama Fantasma
Daveed Diggs, Ponto Cego
Timothée Chalamet, Me Chame pelo seu Nome
Tracy Letts, Os Amantes

ATRIZ

Charlize Theron, Tully
Karine Teles, Benzinho
Juliette Binoche, Deixe a Luz do Sol Entrar
Saoirse Ronan, Lady Bird
Vicky Krieps, Trama Fantasma
Viola Davis, As Viúvas

ATOR COADJUVANTE

Rafael Casal, Ponto Cego
Jesse Plemons, A Noite do Jogo
Jonah Hill, A Pé Ele Não Vai Longe
Laurence Fishburne, A Melhor Escolha
Michael Shannon, A Forma da Água
Willem Dafoe, Projeto Flórida

ATRIZ COADJUVANTE

Alba Rohrwacher, Feliz como Lázaro
Carey Mulligan, Mudbound
Laurie Metcalf, Lady Bird
Leslie Manville, Trama Fantasma
Rachel McAdams, Desobediência
Millicent Simmonds, Sem Fôlego

CENA

A festa/revelação e beijo — Trama Fantasma
Mãe e filha no carro — Lady Bird
Sinal vermelho — Ponto Cego
Encontro no hospital — Três Anúncios para um Crime
Sequência final — A Forma da Água
O nascimento de uma nação — Infiltrado na Klan
A praia — Roma
A primeira noite — Me Chame pelo seu Nome
At Last — Deixe a Luz do Sol Entrar
Juntas na sinagoga — Desobediência
Lázaro reencontra a irmã — Feliz como Lázaro
O regresso do filho — Mudbound
Dança ao pôr-do-sol — Em Chamas

ELENCO

Feliz como Lázaro
Infiltrado na Klan
Lady Bird
Mudbound
Trama Fantasma
Três Anúncios para um Crime

ROTEIRO ORIGINAL

A Câmera de Claire, Hong Sang-Soo
O Dia Depois, Hong Sang-Soo
Lady Bird, Greta Gerwig
Ponto Cego, Daveed Diggs & Rafael Casal
Trama Fantasma, Paul Thomas Anderson

ROTEIRO ADAPTADO

Me Chame pelo seu Nome, James Ivory
Desobediência, Sebastián Lelio e Rebecca Lenkiewicz
Infiltrado na Klan, Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott e Spike Lee
Mudbound, Dee Rees e Virgil Williams
Pantera Negra, Ryan Coogler e Joe Robert Cole

TRILHA

Lady Bird — Jon Brion
A Forma da Água — Alexandre Desplat
Infiltrado na Klan — Terrence Blanchard
Sem Fôlego — Carter Burwell
Trama Fantasma — Jonny Greenwood

CANÇÃO
(EMPATE)

"Mighty River" — Mudbound
"Mystery of Love" — Me Chame Pelo Seu Nome
"I'll Never Love Again" — Nasce uma Estrela
"Shallow" — Nasce uma Estrela
"Visions of Gideon" — Me Chame Pelo Seu Nome

ANIMAÇÃO

Ilha dos Cachorros (Wes Anderson)
Neste Canto do Mundo (Sunao Katabuchi)
Paddington 2 (Paul King)
Viva: A Vida é uma Festa (Lee Unkrich)

DOCUMENTÁRIO

Dawson City: Frozen Time (Bill Morrison)
O Outro Lado do Vento (Orson Welles)
O Processo (Maria Augusta Ramos)
Visages Villages (Agnès Varda & JR)
Whitney (Kevin Macdonald)

FOTOGRAFIA
(EMPATE)


Trama Fantasma
Me Chame Pelo Seu Nome
Sem Fôlego
Deixe a Luz do Sol Entrar
Nasce uma Estrela

MONTAGEM

Em Chamas
Infiltrado na Klan
Roma
O Passageiro
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

DIREÇÃO DE ARTE

Trama Fantasma
The Post
A Forma da Água
Sem Fôlego
Roma

FIGURINO

Pantera Negra
A Forma da Água
Trama Fantasma
Roma
Sem Fôlego

SOM

Pantera Negra
O Primeiro Homem
Nasce uma Estrela
Roma
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

EFEITOS VISUAIS

Pantera Negra
O Primeiro Homem
A Forma da Água
Ilha dos Cachorros
Paddington 2

MAQUIAGEM

A Forma da Água
O Destino de uma Nação
Pantera Negra
A Morte de Stalin
Sem Fôlego

DIRETOR ESTREANTE

Aneesh Chaganty — Buscando
Bradley Cooper — Nasce uma Estrela
Carlos López-Estrada — Ponto Cego
John Krasinski — Um Lugar Silencioso
Xavier Legrand — Custódia

TOTAL DE PRÊMIOS:

6 — Trama Fantasma
3 — Infiltrado na Klan
2 — Mudbound, Nasce uma EstrelaPonto Cego
1 — A Forma da Água, Sem Fôlego, Pantera Negra, Lady Bird, Projeto Flórida, Visages VillagesDeixe a Luz do Sol Entrar, Ilha dos Cachorros

terça-feira, 5 de março de 2019

OSCAR 2020: APOSTAS ANTECIPADAS


FILME

The Irishman
Little Women
It's a Beautiful Day in the Neighborhood
Once Upon a Time in Hollywood
Ad Astra
Us
Toy Story 4
The Report
Star Wars: Episode IX
The Woman in the Window


possíveis

Lion King
Harriet
The Laundromat
The Last Thing He Wanted
Where'd You Go, Bernadette?
The Last Black Man in San Francisco
The Goldfinch
Dumbo
1917
Rocketman
High Life
Gemini Man
Clemency
The Souvenir
Midsommar
Dolor y Gloria
Yesterday
Ford v. Ferrari

DIREÇÃO

Martin Scorsese, The Irishman
Greta Gerwig, Little Women
Marielle Heller, It's a Beautiful Day in the Neighborhood
Jordan Peele, Us
James Gray, Ad Astra


possíveis:

Steven Soderbergh, The Laundromat
Quentin Tarantino, Once Upon a Time in Hollywood
Joe Wright, The Woman in the Window
Scott Z. Burns, The Report
Dee Rees, The Last Thing He Wanted

ATOR

Tom Hanks, It's a Beautiful Day in the Neighborhood
Adam Driver, The Report
Robert De Niro, The Irishman
Leonardo DiCaprio, Once Upon a Time in Hollywood
Taron Egerton, Rocketman

possíveis

Gary Oldman, The Laundromat
Christian Bale, Ford v. Ferrari
Ansel Elgort, The Goldfinch
Joaquin Phoenix, Joker
Brad Pitt, Ad Astra

ATRIZ

Cynthia Erivo, Harriet
Saoirse Ronan, Little Women
Amy Adams, The Woman in the Window
Cate Blanchett, Where'd You Go, Bernadette?
Natalie Portman, Lucy in the Sky

possíveis

Julianne Moore, Gloria Bell
Lupita Nyong'o, Us
Jessica Chastain, Seducing Ingrid Bergman
Anne Hathaway, The Last Thing He Wanted
Emma Thompson, Late Night

ATOR COADJUVANTE

Al Pacino, The Irishman
Joe Pesci, The Irishman
Timothée Chalamet, Little Women
Jon Hamm, The Report
Gary Oldman, The Woman in the Window

possíveis

Bob Odenkirk, Little Women
Willem Dafoe, The Last Thing He Wanted
Brad Pitt, Once Upon a Time in Hollywood
Matthew Rhys, It's a Beautiful Day in the Neighborhood
Tommy Lee Jones, Ad Astra

ATRIZ COADJUVANTE

Annette Bening, The Report
Meryl Streep, Little Women (ou The Laundromat)
Margot Robbie, Once Upon a Time in Hollywood
Julianne Moore, The Woman in the Window
Ruth Negga, Ad Astra

possíveis

Charlize Theron, Fair and Balanced
Rosie Perez, The Last Thing He Wanted
Nicole Kidman, The Goldfinch
Anna Paquin, The Irishman
Bryce Dallas Howard, Rocketman


Apostas iniciais para a corrida do ano que vem. Devemos ver na corrida os novos filmes de Scorsese, Tarantino, Soderbergh, Wright, Mendes (já veteranos no Oscar), Peele, Gerwig, Heller, Rees (que estiveram em corridas recentes) e quem sabe James Gray e Tim Burton, dois cineastas subestimados nos prêmios, que tem seus filmes novos programados para estrear em 2019. Vamos ver quais desses filmes continuarão prediletos ao Oscar daqui a um tempo.

Apostas dos anos anteriores:

Oscar 2016
Oscar 2017
Oscar 2019

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

A FAVORITA (2018)


O nome do grego Yorgos Lanthimos ascendeu quando seu filme Dente Canino fez um sucesso em Cannes (ganhou o prêmio Um Certo Olhar) e depois figurou entre os cinco finalistas a Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2011. Dono de um cinema bem particular, ganhou mais destaque com o recente O Lagosta (seu primeiro filme falado em inglês) e agora com o seu mais elogiado trabalho, A Favorita, drama épico centrado na relação de amor, discórdia, inimizade e loucura, repleta de intrigas, entre a rainha Anne da Inglaterra (Olivia Colman) e as mulheres mais próximas a ela: a duquesa de Marlborough (Rachel Weisz) e uma empregada recém-chegada ao palácio e prima desta última, Abigail (Emma Stone).

Os filmes de Yorgos transitam pelo que há de bizarro na nossa condição, explorando com sarcasmo e deboche (às vezes em quantidades exacerbadas) o horror e o humor que surgem das situações humanas. A ironia, ácida ou desmedida, vem para reforçar os sentimentos de chacota e desprezo que o cineasta evoca com personagens excêntricos que inspiram desde antipatia até vulgaridade. A Favorita segue esse padrão de deturpar personagens tão detestáveis do mundinho de Lanthimos, mas o resultado é surpreendentemente bom quando vemos que o estilo dele, quase misantrópico, casa perfeitamente com o subgênero dos filmes épicos de reis e rainhas, proporcionando um frescor que há tempos não víamos nesse tipo de história.

O equilíbrio é fundamental, o cuidado pela forma é tamanho que torna esse o mais bem realizado filme do grego (figurinos, fotografia e cenários impecáveis), e o trio de performances incrivelmente poderosas de Olivia Colman (agora vencedora de um Oscar, sendo ela a melhor daqui do elenco, com uma atuação arriscada e muito bem arquitetada, cheia de momentos tensos), Rachel Weisz e Emma Stone (igualmente admiráveis), com suas personagens enlouquecidas, esdrúxulas, às vezes irritantes, deslocadas, mas que parecem conter mais humanidade do que Yorgos permitiria a seus personagens, dão ao filme o seu aval de importância e maestria, que, alados ao autorismo de Lanthimos, fazem dele um trabalho tão incomum quanto original.

Insano, divertido e pra lá de esquisito, como todo filme de Yorgos, A Favorita pode não ser sua obra-prima, mas é certamente seu trabalho mais bem-feito. Furiosamente sarcástico e sem limites, traz um olhar drástico e rude sobre as mordomias, peripécias, segredos e podres da realeza, com a devida parcela de esquisitices e vilezas que um olhar afiado exige, sem nunca sair da pose, com seus planos muito rígidos, quase coreografados de tão simétricos, e precisamente vertiginosos, para nos sentirmos na pele daquelas mulheres tão perturbadas. E muitas cenas ficam grudadas no nosso pensamento.

A Favorita
The Favourite
dir. Yorgos Lanthimos
★★★★

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

OSCAR 2019 (91st Academy Awards)


Por incrível que pareça, esse não foi um Oscar ruim não. De controversa, ficam escolhas para prêmios principais bem chocantes, algumas injustas, mas nada muito longe do que o Oscar já fez em edições anteriores. Ficam os reconhecimentos a trabalhos importantes e outros mais polêmicos, e também justiças que acabaram salvando o prêmio, que apesar de tudo fica bem longe de ser um fiasco. Eu acompanho o Oscar desde 2013, e a tradição de assistir a cerimônia veio em 2014 (a primeira que eu assisti por inteiro, no sofá de casa). Até então, nunca vi uma cerimônia terminar após pouco mais de três horas de duração, o que se dá pela falta de um host (Kevin Hart, cotado ano passado, foi rebaixado por conta de comentários homofóbicos) e também por uma condução mais ágil da cerimônia, sem muitas daquelas enrolações que estamos acostumados a ver (e até os comerciais parecem ter sido mais curtos). 

Começo falando sobre a primeira vitória de Spike Lee (um dos mais importantes cineastas americanos ever, nem preciso falar) que só veio ser reconhecido nessa edição, ganhando por escrever o roteiro de Infiltrado na Klan, esnobado em direção e filme.  Ovacionado de pé, Spike foi celebrado no mais justo momento da noite, lembrando que o filme dele era o melhor concorrente dessa edição. E o seu discurso foi mais que poderoso. Poucos minutos antes, o roteiro de Green Book, um dos mais populares e criticados dos indicados desse ano, levou como roteiro original, e mais tarde se consagraria como Melhor Filme, esnobando outros dois títulos bem mais merecedores (Infiltrado na Klan e Pantera Negra) que não só são filmes mais qualificados como também tratam melhor das questões raciais que Green Book almejou tocar, de uma forma mais prática, não exatamente precisa.

Enfim, bem estranho uma das cerimônias mais diversificadas em muito tempo (algo visto em seu grupo de apresentadores) e com tantos filmes premiados sobre o empoderamento negro e tratando de questões raciais e étnicas bem relevantes dar o maior prêmio da noite para a equipe de produtores e diretor brancos do Green Book, que fala sobre racismo de uma forma bem superficial. Mas, de qualquer maneira, era um vencedor previsível, a surpresa foi a esnobação de outros grandes concorrentes bem mais potentes.

Roma é um deles. E se o filmão de Alfonso Cuarón não saiu vitorioso na categoria em que era favorito quase implacável, pelo menos levou três estatuetas pra casa (todas para Cuarón) incluindo fotografia, filme estrangeiro (a primeira pro México) e direção (fazendo dele o primeiro cineasta a receber o prêmio por um filme completamente estrangeiro, e falado em língua estrangeira, em 91 anos de Oscar). Com o mesmo número de prêmios, Pantera Negra foi ovacionado de pé em todas as suas conquistas, inclusive pela premiação das primeiras mulheres negras a vencerem em categorias técnicas como figurino (Ruth E. Carter, em sua terceira indicação) e design de produção (Hannah Beachler), dando uma noção do quanto foi uma obra impactante pros padrões de Hollywood.

No começo da cerimônia, tivemos uma apresentação massa da banda Queen, em parceria com Adam Lambert. A plateia ficou eufórica. Logo em seguida, subiram ao palco Tina Fey, Amy Poehler e Maya Rudolph, e já foram avisando que não estavam ali para apresentar a cerimônia como muitos estavam imaginando, mas para apresentar uma categoria. Elas acabaram meio que sendo uma versão de hosts, afinal, as três são ótimas comediantes, e fizeram uma curta apresentação mais decente que tantas outras que o Oscar já teve.

Falemos das estrelas. O primeiro prêmio da noite foi para Regina King, dona de uma elogiada performance em Se a Rua Beale Falasse. Ela, que estava há quase 10 anos sem atuar no cinema, ficou emocionada e deu um dos discursos mais tocantes da noite. Em seguida, a interpretação de Mahershala Ali foi premiada (o segundo Oscar do homem). Rami Malek, já favorito a melhor ator, lembrou suas origens de imigrante e fez um discurso com aceno à diversidade. Não foi lá merecido porque a maioria dos atores da categoria estavam beeeem melhores, como o Bradley Cooper, e lembremos que a atuação do Malek é pra lá de irregular. E, por fim, a maior surpresa da cerimônia, que até me fez tremer, foi o Oscar de Olivia Colman, de A Favorita, que ficou extremamente emocionada ao receber o prêmio, fazendo um discurso tenro e bastante comovido. Foi inesperadamente merecido porque a atuação dela é a melhor das cinco. Em sua sétima indicação ao prêmio, Glenn Close (a então favorita) foi esnobada de novo, e até a própria Olivia mencionou isso quando foi receber o Oscar. Por melhor que Olivia esteja, a vitória de Close já era aguardada e faria justiça ao legado de quem já entregou algumas das maiores atuações de todas, e que continua subestimada no Oscar. De partir o coração. Mas, enfim, pelo menos esnobaram certo.

Por fora dos prêmios principais, o Oscar estava fazendo escolhas mais esperáveis e até mais acertadas do que de outros anos. Aranhaverso ganhou como animação e Free Solo como documentário (embora nesta última meu favorito fosse o lindo Minding the Gap). Terminou que todos os oito indicados a filme saíram pelo menos com 1 prêmio, e Bohemian Rhapsody foi o recordista da noite com 4 vitórias (de 5 indicações). Levando em consideração que é o mais mediano dos concorrentes a filme, foram escolhas estranhas.

Entre os momentos bonitos da noite, figura a apresentação de Bradley Cooper e Lady Gaga cantando em conjunto a belíssima "Shallow", que ganhou (merecidamente) o prêmio de canção. Os dois estavam tão bonitos cantando, que a gente até lembra do quanto o filme é tocante quando fala do amor entre os dois. O provável momento mais lindo da noite, aliás. E a melhor das apresentações musicais, que no geral estavam bem normais. As outras canções não estavam tão empolgantes, mas também não desinteressantes: mornas.

Enfim, esse foi o Oscar 2019. Não muito longe do que já se fez antes, mas com resultados que desapontaram quem esperava um pouco mais de justiça, mudança, ares novos, e por outro lado alegre se formos ver que essa deve ter sido a premiação mais diversificada em anos em termos de participação. A Academia ainda precisa melhorar no aspecto dos resultados, e também o próprio show precisa de uma organização mais à altura. Fica claro que o prestígio por obras de um teor mais político e que tenham mensagens voltadas para esse ponto ganharam a cerimônia, mas outra questão a ser relevada é a transformação política dentro da própria Academia, e o que eles querem para o show. A edição que abriu as portas para a Marvel e a Netflix, mas acabou dando atenção para o mais tradicional dos indicados. Enfim, curioso e polêmico. Uma tendência a inovar e, ao mesmo tempo, premiar fórmulas? De todo o mais, foi uma edição interessante, e que fica no nosso pensamento, inclusive se formos levar em consideração as justiças que foram feitas.


MELHOR FILME
Green Book

MELHOR DIREÇÃO
Alfonso Cuarón — Roma

MELHOR ATOR
Rami Malek — Bohemian Rhapsody

MELHOR ATRIZ
Olivia Colman — A Favorita

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Mahershala Ali — Green Book

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Regina King — Se a Rua Beale Falasse

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Green Book (Peter Farrelly, Nick Vallelonga & Brian Currie)

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Infiltrado na Klan (Spike Lee, Kevin Willmott, David Rabinowitz & Charlie Wachtel)

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Roma — México (dir. Alfonso Cuarón)

MELHOR ANIMAÇÃO
Homem-Aranha: no Aranhaverso (Bob Persichetti, Peter Ramsey, Rodney Rothman, Phil Lord & Christopher Miller) 

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Free Solo (Elizabeth Chai Vasarhelyi, Jimmy Chin, Evan Hayes & Shannon Dill)

MELHOR TRILHA SONORA
Pantera Negra (Ludwig Göransson)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Shallow", de Nasce uma Estrela
(Lady Gaga, Mark Ronson, Anthony Rossomando & Andrew Wyatt)

MELHOR FOTOGRAFIA
Roma (Alfonso Cuarón)

MELHOR MONTAGEM
Bohemian Rhapsody (John Ottman)

MELHOR FIGURINO
Pantera Negra (Ruth E. Carter)

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Pantera Negra (Hannah Beachler & Jay Hart)

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS
Vice (Greg Cannom, Kate Biscoe & Patricia Dehaney)

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
Bohemian Rhapsody (John Warhurst & Nina Hartstone)

MELHOR MIXAGEM DE SOM
Bohemian Rhapsody (Paul Massey, Tim Cavagin & John Casali)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Primeiro Homem (Paul Lambert, Ian Hunter, Tristan Myles & J. D. Schwalm)

MELHOR CURTA — DOCUMENTÁRIO
Period. End of Sentence. (Rayka Zehtabchi & Melissa Berton)

MELHOR CURTA — LIVE-ACTION
Skin (Guy Nattiv & Jaime Ray Newman)

MELHOR CURTA — ANIMAÇÃO
Bao (Domee Shi & Becky Neiman-Cobb)