sexta-feira, 16 de agosto de 2019

SPIELBERG + WILDER


CAVALO DE GUERRA (2011)
(War Horse, dir. Steven Spielberg)


Realmente, acho que não tem outro cineasta atualmente devoto ao cinema clássico que nem o Spielberg que consiga reproduzi-lo com tanta paixão e excelência. Cavalo de Guerra é uma incursão no gênero de épico/guerra com o usual respeito que Spielberg tem ao cinema de outrora, só que reforçado em muitos aspectos. O filme se impregna disso tanto na sua forma como na composição, o que pra mim foi fascinante. Até funciona no formato adotado, de circular por diferentes histórias dentro de um mesmo período, mesmo que o roteiro tenha suas fraquezas ao fazer escolhas que prejudicam o andamento do longa, que dá a impressão de que se arrasta um pouco ali na metade. Apesar disso, Cavalo de Guerra prova ser um Spielberg em ótima forma. A fotografia por si só já eleva o filme a um outro patamar, e as sequências são bem deslumbrantes.

Um retrato sentimental e doloroso daqueles que atravessaram a guerra e testemunharam seus horrores, não muito diferente do que estamos acostumados a ver no cinema americano, mas bastante seguro da sua mensagem poderosa, dando passos firmes e precisos para isso. De partir o coração. E, mesmo diante das feridas deixadas pela guerra, surge uma certa esperança, e isso é retratado aqui. Saber como dar um bom desfecho em uma trama assim é o maior mérito desse Cavalo de Guerra, um Spielberg comovente, denso e enamorado do classicismo. 

O PECADO MORA AO LADO (1955)
(The Seven Year Itch, dir. Billy Wilder)



Não me pegou tanto do jeito que eu achava que ia, mas de certa forma é Billy Wilder, tem umas cenas impagáveis e a Marilyn Monroe, que está fantástica e no seu papel mais icônico. Um filme frequentemente enquadrado como clássico, com uma fotografia deslumbrante, que merece o nosso respeito, mas que fica aquém de outros grandes trabalhos de Wilder no cinema. Tem uma pegada mais teatral, com diversas cenas em que o personagem está falando sozinho, o que não deixa de fazer parte da graça do filme, que é uma típica comédia hollywoodiana da época, com um sugestivo apelo erótico na personagem da Monroe, cobiçada pelo vizinho atrapalhado. Por ser feita nos moldes clássicos, há uma noção mais ingênua de graça, que também tem a ver com o atrevimento e a ousadia que permeiam a narrativa (quase escandalizante para os padrões da época). É compreensível que ele figure como um dos filmes mais deliciosos e icônicos do gênero. Quem sabe com uma revisão minha nota não aumenta.

Cotação:
CAVALO DE GUERRA ★★★
O PECADO MORA AO LADO ★★★

domingo, 4 de agosto de 2019

ASSUNTO DE FAMÍLIA (2018)


Fazia um tempo que eu não assistia um filme que me tocasse tanto por conta da história e dos personagens, de uma forma tão pura e desprevenida. Assunto de Família foi destaque por ter conquistado inúmeros prêmios e ter dado a Hirokazu Kore-eda sua primeira indicação ao Oscar, mas o cinema do japonês já é visto com muita atenção e prazer por muitos dos seus belíssimos trabalhos anteriores, que falam tão delicamente sobre a força dos laços de família, de uma forma que talvez nenhum outro cineasta ativo no mundo possa se comparar.

E Assunto de Família me pegou de surpresa. É um filme muito querido, extremamente cuidadoso com seus personagens e o desenrolar da história. Fiquei encantado porque o filme me tocou muito, e com tamanha honestidade. Me fez sentir mais ou menos a mesma coisa de quando eu assisti Depois da Tempestade, um filme que me deixou tão movido quanto, só que com uma porrada de sentimentos mais latentes, que fazem parte das surpresas que surgem nessa sentimental narrativa sobre uma família bastante inconvencional e, ao mesmo tempo, regada a muito amor e carinho.

Quem quer que esteja inserido dentro de uma família (em geral) vai entender o que esse filme quer dizer. Afetos, convivência, proximidade, união: a família nesse filme é um conjunto de coisas todas juntas, como que não para definir, mas fazer a gente sentir a força de vínculos profundos e que constroem quem a gente é. Há cenas tão lindas que é capaz de levar a gente às lágrimas. A compreensão humana e delicada de Kore-eda sobre seus personagens, inseridos numa situação incomum, se alia à perspectiva irônica sobre as falhas do sistema capitalista, e que mesmo em países desenvolvidos como o Japão a população é negligenciada pelo Estado.

Apesar de tocar em todo um rol de temas mais sérios, Assunto de Família  é um filme levinho e ao mesmo tempo carregado, que toma para si laços preciosos e tira deles muita beleza, inclusive o real significado de ter uma família. E eu entendi porque se falou tão bem desse filme. É lindo demais. Muito lindo mesmo. O filme mais bonito desse ano, talvez. Me conquistou e eu fiquei apaixonado pelo seu tratamento com os personagens e com a história. Com esse filme, Kore-eda costura uma visão necessariamente humana e calorosa de relações em que o amor é posto em primeiro lugar. Sentimental, mas honesto. E essencial também.

Assunto de Família
Manbiki Kazoku
dir. Hirokazu Kore-eda
★★★★★

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

PSICOSE (1998)


É até meio divertido ver Gus Van Sant se arriscar a fazer um remake shot-for-shot de um dos filmes mais inimitáveis já feitos, seja em relação a seu status no ranque dos maiores, seja no que diz respeito a seus primores cinematográficos. Mais do que essa tentativa de ser uma cópia (quase) fiel, Psicose é o resultado do flerte de Van Sant com o suspense hitchockiano, penso eu que a intenção não era contrapor um ao outro, mas criar uma versão distorcida do original, para reimaginar/reforçar/re-estilizar, enfim, depende da interpretação de quem vê. Os quilos de referências encontradas nessa adaptação impossivelmente remeterão a outra coisa a não ser a obra de Hitchcock, e fica difícil estabelecer parâmetros quando existe essa simbiose tão inevitável entre os dois.

Praticamente é o mesmo filme, mas a trilha, a fotografia e a re-concepção de outros detalhes em relação ao original, Psicose estabelece um jogo de imitação e recriação, sem exatamente pretender consertar erros ou adicionar outros objetivos ao filme que foi refeito, como acontece com muitos remakes, até porque, falando de Psicose, não há praticamente nada a ser complementado ou alterado. 

À parte dos exageros, das cenas icônicas recriadas e picotadas risivelmente, e essa fotografia curiosa, Psicose de Van Sant funciona melhor sem a comparação, mas ela é fundamental pra certos aspectos do filme, que foi lido por muitos como uma tentativa ofensiva de reimaginar um grande clássico. Mas também é possível eleger a pretensão cinéfila de Van Sant em compreender Hitchcock nos seus detalhes e, literalmente, na execução de seu estilo único. É um caso singular no cinema, em que temos dois cineastas distintos tendo seus estilos fundidos num mesmo filme. Por mais irregular e pecável que seja, Psicose é uma anomalia inusitada, uma provocação cinéfila que deve intrigar os admiradores de ambos Hitchcock e Van Sant. Uma reverência, um insulto? De todo modo, se o remake de um grande filme não se faz mesmo necessário, pelo menos gera uns debates impressionantes.

Psicose
Psycho
dir. Gus Van Sant
★★★

segunda-feira, 29 de julho de 2019

A MULA (2018)


Parando pra pensar, acho que Clint Eastwood nunca esteve fora do seu auge. E com A Mula esse querido cineasta atinge um momento único na sua carreira, com um filme que é quase uma mescla de celebração e meditação, e ao mesmo tempo cada passo que dá é firmado com maturidade plena. O personagem principal do filme aproveita a melhor idade sem deixar de olhar para trás e enxergar a sombra projetada pelos seus erros em respeito a sua família. E, é claro, Eastwood é o cineasta que melhor explorou a redenção de personagens muitas vezes falhos, mas também humanos, ao longo de uma carreira repleta de obras densas e marcantes. A Mula é um trabalho calcado na sensibilidade nata desse cineasta que passou sua filmografia investigando o coração do homem americano em busca da entrega a um sentimento específico. A redenção é, de certa forma, a porta para um estado de purificação catártica. 

Eastwood sempre filmou com o coração, e sempre acertou. Com A Mula não foi nada diferente. É gratificante ver esse veterano do cinema americano entregando mais uma grande obra quase aos 90. Alguém, não me lembro agora quem, fez uma comparação a Kiarostami. Muito justo. Eastwood, em sua longa fase de maturidade, encontra no olhar conciliativo e sensivelmente humano uma forma de passear através de histórias e de personagens, podendo não trazer muita coisa nova, mas sobretudo reforçando um estudo preciso de dramas e de feridas na vida de um homem. Há um sentimento de leveza e despreocupação que é como um recado de Eastwood para nós, um recado vindo da longevidade. E ele aproveita para aconselhar, reforçar que um homem precisa se dedicar a sua família. Em uma certa cena, ele diz para o personagem de Bradley Cooper que seu maior erro foi ter colocado trabalho antes da família. A Mula, esse filme que eu consigo definir como sendo imperdível pra quem seguiu os passos de um mestre do cinema, passeia pela celebração e pelo arrependimento de um homem no ápice da sua experiência de vida, tentando consertar o que quebrou, refazendo seus passos e enfim recuperando o tempo perdido.

Já é, pra mim, um dos grandes filmes do ano. 

A Mula
The Mule
dir. Clint Eastwood
★★★★★

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Destaques do 1º Semestre


O primeiro semestre trouxe muita coisa boa. Essa lista é para registrar alguns dos filmes que mais me encantaram nessa primeira metade do ano, e estão espalhados entre os lançamentos nos cinemas e os que foram lançados apenas nas telinhas. A lista está em ordem de preferência, e o primeiro lugar pode ser dividido entre o meu favorito que passou nos cinemas (Anos 90) e um filme que chegou ao streaming no final do ano passado, mas que acabou sendo visto apenas nesse ano (Sem Rastros, foto). Aliás, decidi incluir os que foram vistos na telinha, só para reforçar a lista. 

A Lista

1. SEM RASTROS (Debra Granik)
2. ANOS 90 (Jonah Hill)
3. EM TRÂNSITO (Christian Petzold)
4. WON’T YOU BE MY NEIGHBOR (Morgan Neville)
5. BEM-VINDOS A MARWEN (Robert Zemeckis)
6. VINGADORES: ULTIMATO (Anthony & Joe Russo)
7. SE A RUA BEALE FALASSE (Barry Jenkins)
8. GUERRA FRIA (Pawel Pawlikowski)
9. A FAVORITA (Yorgos Lanthimos)
10. NÓS (Jordan Peele)
11. FIRST REFORMED (Paul Schrader)
12. GREEN BOOK (Peter Farrelly)
13. DEMOCRACIA EM VERTIGEM (Petra Costa)
14. TODOS JÁ SABEM (Asghar Farhadi)
15. HIGH FLYING BIRD (Steven Soderbergh)
16. HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO (Bob Perischetti, Peter Ramsey, Rodney Rothman)
17. OBSESSÃO (Neil Jordan)
18. QUERIDO MENINO (Felix Van Groeningen)
19. NO PORTAL DA ETERNIDADE (Julian Schnabel)
20. COMO TREINAR O SEU DRAGÃO 3 (Dean DeBlois)

Ainda não conferi


ASSUNTO DE FAMÍLIA, VIDRO, AMANDA, LONGA JORNADA NOITE ADENTRO, A MULA, FORA DE SÉRIE, 3 FACES, DOR E GLÓRIA, ROLLING THUNDER REVUE, GLORIA BELL, AGNÈS BY VARDA, UNDER THE SILVER LAKE, DOMINO, TOY STORY 4, JOHN WICK 3, MAYA.

Apesar de não ter conferido alguns dos lançamentos mais importantes, o primeiro semestre trouxe muita coisa boa, e filmes que devem ficar entre os principais desse ano. E, não apenas nos lançamentos, mas o cinema em geral trouxe filmes inesquecíveis. Muitos eu comentei aqui no blog e também lá no meu letterboxd

domingo, 30 de junho de 2019

Três filmes americanos


Os Irmãos Cara-de-Pau (The Blues Brothers, dir. John Landis, 1980)


O que dizer de um clássico que cresceu tanto com o tempo? Os Irmãos Cara-de-Pau construiu algumas das cenas mais icônicas e inesquecíveis que o cinema americano de comédia nos trouxe nos anos 80. E, nesse sentido, esse filme tornou-se uma lenda, um verdadeiro clássico para as audiências que tiveram suas infâncias marcadas pela produção. Dan Aykroyd e John Belushi interpretam dois malandros que, numa missão divina, tentam resgatar os membros de uma banda da qual costumavam fazer parte, partindo numa jornada cheia de confusões, cenas de perseguições em um shopping e show em um bar country... e até mesmo a participação de dois grandes ícones da música americana: Aretha Franklin e Ray Charles. O tempo só fez crescer a fama de clássico deste filme que marcou geração e é lembrado com muito carinho por seu público. Um grande filmaço de John Landis.

Na Época do Ragtime (Ragtime, dir. Milos Forman, 1981)


Lançado na mesma época de O Portal do Paraíso. E, como ele, um épico gigantesco, adoravelmente pomposo e ferozmente incisivo sobre a construção da América. Performances incríveis, a direção de Forman que se aproxima muito da perfeição, e o conjunto de sequências excepcionais, muito bem arquitetadas, com um rigor fiel ao épico que é. Ragtime é uma obra-prima, um olhar sobre o que se fez necessário para a formação de uma "grande nação", com um retrato ácido e pungente do racismo, o motor secular dos problemas sociais no maior país do mundo. O elenco é grandioso, muitas atuações inesquecíveis, cenas cuidadosamente bem-feitas e de uma força única. Eis um filme que merece ser lembrado e falado com mais frequência.

Entre Quatro Paredes (In the Bedroom, dir. Todd Field, 2001)


Desarmador. Um dos poucos filmes americanos que está em uma ruidosa sintonia com seu elenco, blindado com as performances estarrecedoras de Wilkinson, Spacek e Tomei, que conseguem compor cenas que vão do banal ao trágico de uma forma absurda. A consistência do suspense, e com esse grupo de atuações incríveis, fazem de Entre Quatro Paredes uma experiência provocadora, que convida o espectador a observar atentamente o desenrolar das ações, a complexidade emocional dos personagens e uma trama eletrizante, de um peso descomunal. O vigor dramático é admirável. O filme poderia seguir caminhos bem óbvios, mas prefere uma desconstrução quase misteriosa e cheia de nuances, como que sugerindo que aquele capítulo tão brutal na vida dos personagens daria lugar a sentimentos mistos, possibilidades estranhas e uma tensão avassaladora. Alguns anos depois Field viria a dirigir Pecados Íntimos, outro filme que desconstrói a vida nos subúrbios americanos através de um capítulo trágico e criminoso.

Editado em 01/07. 

segunda-feira, 24 de junho de 2019

DEMOCRACIA EM VERTIGEM (2019)


Democracia em Vertigem é um comentário preciso e relevante sobre o que a democracia brasileira tem sofrido nos últimos anos (e, de um modo geral, como o passado ditatorial e histórico do país sombreia seus caminhos políticos turvos), provocando uma reflexão sobre esse estado político e nos levando a analisar o seu impacto tão denso na vida dos brasileiros. Passa pela eleição histórica de Lula à Presidência em 2002, a primeira vez que o PT chega ao poder, com promessas de inclusão social e atenção às minorias, e oito anos depois a de sua sucessora, Dilma, primeira mulher a ocupar o cargo (no passado, militante presa e torturada durante a Ditadura). Quase que tragicamente, o documentário atravessa a derrocada que tentam impor a essas duas figuras neste que é um momento tão frágil dentro do cenário político do Brasil: o controverso e ainda recente golpe de Dilma em 2016 e a prisão de Lula em 2018. E, consequentemente, a chegada da direita ao poder (indiretamente) com o governo desastroso de Temer, vice de Dilma, que tornou-se impopular com sua dose de reformas ineficazes e descontrole sobre a crise que atingiu o país, e a eleição de um deputado de extrema-direita, Bolsonaro, o atual presidente do país, com um governo em sua grande maioria composto por militares (sendo ele próprio um capitão reformado do Exército), trazendo consigo uma aura extremamente conservadora, reforçando o clima de retrocesso já agravado pelo seu antecessor, e marcado por uma série de controvérsias e medidas polêmicas nos cinco primeiros meses de governo. 

Apesar de não se estender ao começo desse governo em que estamos, até por ser um capítulo mais recente da nossa história, o documentário de Petra dá conta dos principais acontecimentos dentro dessa década em relação à crise política no Brasil, enfocando na quantidade massiva de manifestações populares, na insatisfação, nos capítulos mais marcantes, na transição dos governos do PT para a retomada do poder pela direita e, mais uma vez, assim como o recente O Processo, reconstruindo o Impeachment de Dilma Rousseff, expurgando toda a fraude por trás do golpe e acenando para seus perpetuadores, Cunha, Temer e Aécio, lembrando que esse talvez seja o momento mais emblemático dessa crise política.

Mixando elementos pessoais ao documentário, com uma narração em off que comenta e dá cores ao que é exposto no filme, Costa também reconstrói a redemocratização, momento em que o país finalmente ia pra frente, após 20 anos mergulhado numa ditadura infame, e inclusive reconta, através das experiências dos pais (presos durante o regime) o que se seguiu após o golpe de 64, um atentado à democracia mascarado de resposta à ameaça comunista. Não muito diferente do que o país assistiria em 2016: uma presidente eleita retirada do poder em favor do ideal de "retomada" do país. 

Talvez o único ponto fraco do documentário seja passear pelos conflitos políticos do país sem realmente colocar o povo à frente do retrato. Costa valoriza muito mais um retrato íntimo e o conecta aos acontecimentos políticos do pais, mas quando a câmera está no povo, é para evidenciar a dualidade, as divergências de opinião que causaram uma perceptível polarização na sociedade brasileira, mas sem dar uma dimensão maior ao que todo esse caos político impactou na vida do brasileiro.

O olhar de Petra sobre esse momento que ficará marcado na história, em que a democracia do Brasil é tentada a todo instante por seu governo, que é vitrine de escândalos de corrupção, disputas pelo poder, mentiras e conspirações, também exibe a dor e o desgosto do povo brasileiro, com uma pluralidade que nos faz enxergar tanto quem apoia ou discorda, mas com um olhar próprio sobre as injustiças cometidas contra a gente do país. O horror do que a política brasileira se transformou, e do que fizeram com as promessas de transformação social e de igualdade, também é um alerta, um chamado. O povo brasileiro é um pária nesse cenário atual, como se as escolhas independessem dele, milhões de votos são jogados fora para "salvar a democracia", intrigas do poder que se desenrolam às escuras, nas sombras. E, como se já não bastasse, a Justiça entra no jogo. E ela joga muito sujo.

O registro de Costa sobre a política brasileira desperta diversos sentimentos, mas dois em especial ficam marcados com a gente nesse momento tão emblemático do nosso país: a indignação e o lamento. Ver as direções que seu governo tem tomado é lamentável.

Forte candidato a um dos melhores (e mais necessários) filmes nacionais do ano.

Democracia em Vertigem
dir. Petra Costa
★★★★

quarta-feira, 29 de maio de 2019

ACONTECEU EM WOODSTOCK (2009)


A celebração da liberdade é o motor principal de Aconteceu em Woodstock, o filme mais subestimado da carreira de Ang Lee. Já tendo ganhado o Oscar por Brokeback Mountain, 2 Leão de Ouro em Veneza, e com filmes como O Tigre e o Dragão e Razão e Sensibilidade no currículo, o cineasta taiwanês apostou nos bastidores dos bastidores do famoso Festival de Woodstock, lá em 1969, para a trama do seu sexto longa-metragem ambientado nos E.U.A. E, para isso, além da reunião de um elenco primoroso, o diretor usufruiu de leveza e espiritualidade admiráveis para costurar um retrato timidamente primoroso, e repleto de sutilezas, mas potente, de um dos momentos mais importantes do século 20, incorporando seus personagens ao espírito "paz-e-amor" de Woodstock da maneira mais bonita e plausível possível, como uma homenagem simples mas cheia de coração ao significado desse evento para a cultura americana.

Um jovem homem retorna da cidade para passar um tempo no motel dos pais, em Bethel, no interior do estado de NY, nas montanhas Catskills. É dele a ideia de trazer um festival que não conseguiu ser organizado para a cidadezinha. Ele consegue trazer um dos organizadores do evento, e é então que o festival de música e artes consegue ser realizado, o lendário Festival de Woodstock.

Engana-se quem pensa que Aconteceu em Woodstock é repleto de conflitos ou reviravoltas, e nem precisa disso pra funcionar do jeito que funciona belamente. Ang Lee faz questão de deixar as coisas fluírem com leveza, destacando seus personagens e o clima do evento que o filme sedia. O resultado é uma arquitetação de cenas que maravilham sem precisar de muito, fruindo uma naturalidade que casa perfeitamente com o seu tamanho. O elenco parece entender todas as propostas, com esforços que parecem tão naturais quanto a trama do filme em si.

A intenção é registrar um momento de confraternização e celebração de valores como a paz, liberdade e amor em tempos turbulentos de guerra do Vietnã e um cenário de alienação política. Mas Lee faz isso com tanta sutileza, e de maneira tão rica, que é impossível não ficar deslumbrado com a atenção que o filme dá ao clima e aos sentimentos do momento, criando um monumento de compaixão, simpatia, beleza e emoção. Aconteceu em Woodstock comemora a paz com um retrato sentimental de uma época e suas marcas, deixando-se levar pela graça que os seus personagens em conjunto evocam. Se destacam Imelda Staunton, Liev Schreiber, Demetri Martin, Henry Goodman e Jonathan Groff, mas o elenco em si está gigante, excelente. Aconteceu em Woodstock é uma pérola sublime escondida na filmografia de um grande cineasta.

Aconteceu em Woodstock
Taking Woodstock
dir. Ang Lee
★★★

terça-feira, 28 de maio de 2019

LUNCHBOX (2013)


Uma das coisas que eu mais gosto em relação aos filmes é a capacidade que eles tem de nos conectar, de expor as ligações que as pessoas compartilham entre elas, e de evidenciá-las na linguagem cinematográfica, sem depender exatamente de traduções ou explicações para deixar claras suas intenções. O cinema me fascina pela universalidade, pelas nuances da arte e da maneira como ela modela e aprimora os sentimentos que são impressos na tela. E, é claro, releva seu lado mais humano, seu poder incrível de expressão e identificação. 

Diretamente da Índia, vem um filme belíssimo sobre a inesperada relação entre uma mulher que descobre que, incidentalmente, o almoço que ela prepara para seu marido todos os dias (e que é transportado através de um infalível sistema de entregas de "lunchbox") está indo parar no endereço errado, nas mãos de um homem viúvo prestes a se aposentar da empresa onde trabalha. O homem fica deliciado com a comida que a mulher o prepara. Ao saberem desse engano, eles dois passam a trocar mensagens, e criam um vínculo muito forte: uma paixão. A mulher está frustrada no casamento, com um marido que não tem tempo pra ela, enquanto o homem encontra na relação com aquela mulher uma chance de se reencontrar e de amar de novo. Os dois tornam-se confidentes e se aproximam sem nem sequer terem se conhecido pessoalmente.

O resultado é de um frescor maravilhoso. Lunchbox abraça um sentimentalismo quieto, sem perder seu ritmo ao entrar num terreno mais dramático. Pelo contrário, isso ajuda ainda mais a criar uma história de amor belíssima em que acompanhamos deliciados a entrega de cartas e a intimidade que cresce bem na nossa frente, e que nos leva a torcer pela felicidade daquele casal tão singelo. Este filme romântico se equilibra entre as doçuras do amor e a observação da rotina daqueles dois personagens, às vezes carregadas de sentimentos de frustração e insatisfação. Em nenhum momento deixa de ser um retrato gracioso, cheio de pontos altos, e que conquista pela honestidade com que acompanha a curiosa relação entre seus protagonistas, sendo fiel aos seus sentimentos e às emoções que permeiam um romance tão majestoso, que mesmo tratando de pessoas comuns consegue ser extremamente particular nos gestos.

Lunchbox lida com a busca de seus personagens, com suas vidas simples, mas é no romantismo que a simplicidade se transforma radicalmente em algo maior. O amor surge das coisas pequenas, e é justamente nos momentos mais sutis e despretensiosos que ele parece ganhar força descomunal, de uma beleza admirável. Vai tocar o coração de quem já se apaixonou e teve que passar por todos os sentimentos que isso é capaz de fazer emergir, desde a tranquilidade de saber que se ama alguém, até a tensão de estar distante e não saber o que irá acontecer. Lunchbox compreende o amor porque compreende suas alegrias e dores. Seus personagens completam-se, mas também sofrem. O amor é um acontecimento precioso, e aqui ele é captado com a ternura e sutileza necessárias para fazer jus à sua incontível riqueza. Irffan Khan e Nimrat Kaur estão majestosos. Gostei demais desse filme. Muito bonito mesmo.

Lunchbox
Dabba
dir. Ritesh Batra
★★★★

sábado, 25 de maio de 2019

Palmarès 2019


PALMA DE OURO
Parasite (Bong Joon-Ho, Coreia do Sul)

GRANDE PRÊMIO DO JÚRI
Atlantique (Mati Diop, Senegal)

PRÊMIO DO JÚRI (empate)
Bacurau (Kleber Mendonça Filho & Juliano Dornelles, Brasil)
Les Misérables (Ladj Ly, França)

PRÊMIO DA MISE-EN-SCÈNE
Irmãos Dardenne — Le Jeune Ahmed (Bélgica)

MELHOR ATOR
Antonio Banderas — Dolor y Gloria (Espanha)

MELHOR ATRIZ
Emily Beecham — Little Joe (Reino Unido/Áustria)

PRÊMIO DE ROTEIRO
Portrait de la jeune fille en feu — Céline Sciamma (França)

MENÇÃO HONROSA DO JÚRI
It Must Be Heaven — Elia Suleiman (Palestina)

O Festival de Cannes 2019 se encerra com uma entrega de prêmios das mais justas dos últimos anos, longe da bagunça que algumas edições recentes fizeram ao ter que escolher os premiados, injustiçando candidatos potentes. Iñárritu e seu júri fizeram escolhas coerentes, dividiram os prêmios entre cineastas menos aclamados (Mendonça Filho, Bong Joon-Ho, Elia Suleiman) e inclusive alguns iniciantes na competição (Mati Diop, Celine Sciamma, Ladj Ly). O calibre da competição desse ano trouxe uma valorização bastante especial do cinema mundial. É o que se indica no reconhecimento de produções oriundas da Coreia do Sul, Brasil, Palestina, Espanha e Senegal. Se alguém estava pensando que o cinema americano seria o queridinho, agora foi a vez de outros cinemas falarem mais alto na vitrine mais importante do cinema de autor e, de certa forma, do cinema mundial também. 


Se o grande favorito da vez, Dolor y Gloria, não bateu a unanimidade prenunciada de Parasite, pelo menos legou a Antonio Banderas um bem-vindo reconhecimento pela sua performance no que talvez seja o mais autobiográfico dos filmes de Almodóvar. Como brasileiro, é impossível não ficar deliciado com a vitória maravilhosa de Bacurau (prêmio do júri), um dia após o filme de Karim Aïnouz chegar ao prêmio principal da mostra Um Certo Olhar (a mais importante do festival depois da competição da Palma). Ou seja, temos dois filhos do Brasil (e de cineastas nordestinos) entre os vencedores dos prêmios mais relevantes do Festival de Cannes. Isso é gigante. E nos dias de hoje, no Brasil de hoje, vocês sabem que a importância é triplamente maior. Viva o cinema nacional!!! 


E se é um dia histórico para o cinema sul-coreano que teve sua primeira Palma hoje, é também histórico para Mati Diop, que tornou-se a primeira africana a ter seu filme na competição de Cannes, e saiu com o 2º prêmio mais importante da noite. Rotineiramente premiados, os Irmãos Dardenne, apesar da recepção morna que tiveram no festival, saíram vitoriosos. E Celine Sciamma, que era cotadíssima à Palma, foi lembrada pelo melhor roteiro. Suleiman, cineasta palestino que retornou à competição após um hiato de uma década, foi a menção honrosa da seleção. Enfim, estão aí alguns dos filmes que foram celebrados nessa edição do festival, e que merecem nossa atenção. Feliz pelo cinema brasileiro, que foi enaltecido tão merecidamente. E que isso sirva de inspiração para a nossa cultura e arte nacional seguir resistindo em tempos turvos. O cinema é uma arma muito poderosa, lembrem-se disso. 

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Apostas, Alguns Prêmios e Mais Filmes em Cannes


Festival de Cannes está se encerrando, e nestes últimos dias mais alguns filmes pintaram na seleção, e hoje foram revelados os vencedores da mostra Um Certo Olhar, com uma grande e bela surpresa para nós brasileiros: nosso representante nacional A Vida Invisível de Eurídice Gusmão conquistou o prêmio principal da mostra, que só perde na importância para a competição da Palma de Ouro. Aliás, é o 1º filme brasileiro a conquistar essa honra. O filme é dirigido por Karim Aïnouz, de O Céu de Suely e Praia do Futuro. É motivo de comemoração, ainda mais em tempos como esse, em que a cultura é posta à prova pelos atuais governantes que ameaçam oprimi-la, e nosso cinema passa por uma fase em que é preciso, mais do que nunca, reafirmar a sua importância: e que bela maneira de fazê-lo! Que isso sirva de resistência, para mostrar a força do cinema nacional lá fora, quando tentam diminuir sua importância aqui dentro. 

Prêmio UM CERTO OLHAR: A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (Karim Aïnouz)
Prêmio do Júri: Fire Will Come (Oliver Laxe)
Prêmio de Direção: Kantemir Balagov (Beanpole)
Prêmio de Atuação: Chiara Mastroianni (On a Magical Night)
Prêmio Especial do Júri:
Albert Serra, Liberté
Bruno Dumont, Joan of Arc

Entre os últimos filmes exibidos na seleção principal, foram poucos os destaques. Muito se criticou a qualidade das produções e até tivemos uma bomba que foi chamada por muitos como sendo o pior filme já exibido no festival em anos. 


O mais elogiado (e um considerável finalista pra Palma) veio nessa sexta: It Must Be Heaven, do cineasta palestino Elia Suleiman, que há 10 anos não dirigia, e trouxe um filme pungente com teor sociopolítico sobre a identidade palestina e o cinema em si. 

De cineastas aclamados, sobraram as críticas desapontadas para os novos filmes de Bellocchio (com Il Traditore, recebido com frieza), Desplechin (seu thriller Roubaix, une lumière foi chamado de entediante) e, o filme mais aloprado de Cannes 2019, o novo de Kechiche (vencedor da Palma em 2013), Mektoub, My Love: Intermezzo, sequência de outro trabalho do cineasta de 2017, ultrapassou a impopularidade de desastres recentes como The Sea of Trees ou The Last Face, que foram detestados pela crítica. Esse aqui foi comparado a um filme pornô e teve uma das aprovações mais baixas (sem falar no pessoal saindo da sala aos montes durante a projeção). É esperar pra ver se é isso mesmo, mas a garantia é que não é agora que veremos Kechiche recuperar a Palma que ele teve que vender pra conseguir financiar o projeto. E, fechando a competição, o francês Sibyl, que até foi elogiado, principalmente pelo elenco. O filme é de Justine Triet, também na competição pela primeira vez.


E, agora, minhas apostas para OS PRÊMIOS que serão entregues amanhã. Será que veremos Almodóvar levar sua merecida Palma pra casa, sendo ele o grande favorito? Ou o júri vai preferir algum outro dos veteranos que disputam por mais uma pra coleção? Ou algum nome novo na lista, que chegou quebrando tudo? Veremos:

1ª opção (mais óbvia)

Palma de Ouro: Dolor y Glória
Grande Prêmio do Júri: A Hidden Life
Prêmio do Júri: Portrait de la jeune fille en feu
Prêmio da Mise-en-Scène: Quentin Tarantino
Melhor Atriz: Valerie Pachner, A Hidden Life
Melhor Ator: Kris Hitchen, Sorry We Missed You
Melhor Roteiro: Bacurau

2ª opção (meus chutes)

Palma de Ouro: A Hidden Life
Grande Prêmio do Júri: Parasite ou It Must Be Heaven
Prêmio do Júri: Atlantics
Prêmio da Mise-en-Scène: Céline Sciamma ou Mendonça & Dornelles
Melhor Atriz: Isabelle Huppert, Frankie
Melhor Ator: August Diehl, A Hidden Life
Melhor Roteiro: Matthias & Maxime ou Once Upon a Time in Hollywood

Os dez favoritos para a PALMA

1. Dolor y Gloria
2. A Hidden Life
3. It Must Be Heaven
4. Portrait de la jeune fille en feu 
5. Parasite
6. Bacurau
7. Atlantique
8. Once Upon a Time in... Hollywood
9. Sorry We Missed You
10. Matthias & Maxime

Era Uma Vez em Cannes

Parasite, de Bong Joon-Ho, é forte concorrente à Palma de Ouro, que será entregue neste sábado.

Perto de fechar o festival de 2019, e praticamente às vésperas da entrega dos prêmios, figuram alguns favoritos que podem cair nas graças do júri, e para completar a lista que já está cheia, temos um exemplar lá da Coreia do Sul: Parasite, de Bong Joon-Ho, é um dos únicos a duelar com o ainda grande favorito Dolor y Gloria na disputa dos prêmios. Bong é diretor de O Hospedeiro e Expresso do Amanhã. Competiu pela Palma pela primeira vez em 2017, com Okja.

Pitt, DiCaprio, Tarantino e Robbie em conferência

Em uma semana badalada, o festival presenteou o público e a crítica com alguns dos trabalhos mais esperadas da seleção deste ano. Talvez falando do filme mais esperado, falamos de Once Upon a Time in... Hollywood, de Tarantino, que ganhou os holofotes essa semana (em seu tapete vermelho desfilaram Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Margot Robbie) e a atenção da crítica em geral. Tarantino, que há duas décadas levava a Palma de Ouro pra casa por Pulp Fiction, há 10 anos não exibia um filme lá (desde Bastardos Inglórios), motivo que tornou o retorno ainda mais aguardado. Elogiado, mas também detratado (principalmente pela crítica estrangeira), o filme esteve envolvido em polêmicas (Tarantino foi grosso com os repórteres durante a conferência após ser criticado) mas também teve uma sessão lotada e com direito a uma ovação demorada.

Xavier Dolan retorna a Cannes com filme prestigiado após fracassos recentes

Retornos promissores, mas com recepções mornas, Matthias & Maxime, de Dolan, e Jeune Ahmed, dos Irmãos Dardenne, conseguiram chamar atenção. Dolan, com seu oitavo longa como diretor, foi elogiado por ter voltado ao terreno familiar, no Canadá, visto que seus dois últimos filmes, feitos no exterior, foram extremamente mal-recebidos, inclusive seu mais recente projeto hollywoodiano, com um elenco estelar, passou em branco e nem chegou a ser lançado direito nos cinemas. Mas parece que agora, em casa, o diretor conseguiu voltar à forma com uma comédia romântica menos ambiciosa. Enquanto isso, os irmãos belgas, que na edição de 2016, assim como Dolan, também tinham sido recebidos a pontapés pelos críticos, voltaram com um trabalho mais desafiador, mais elogiado que o anterior, porém aquém de outros grandes filmes da dupla dessa década, como O Garoto da Bicicleta ou Dois Dias, Uma Noite.

Isabelle Huppert, uma das musas do festival, está em Frankie, de Ira Sachs

Frankie, ainda que recebido com certo entusiasmo, é um concorrente fraco à Palma. É a primeira vez que Ira Sachs concorre, e traz Isabelle Huppert, presença mais que especial no festival, numa atuação celebrada (talvez o júri dê o prêmio pra ela?). Gomera, do romeno Corneliu Porumboiu, um thriller aplaudido que, se não está tão concorrido para a Palma, está saindo com elogios do festival. The Wild Goose Lake recebeu comparações a Hitchcock, mas também ficou desvalorizado numa competição curiosamente acirrada e com promessas acima da média.

resumo de 20 a 22 de maio. 

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Promessas da Croisette

Almodóvar (finalmente) favorito à Palma de Ouro
Bacurau, único brasileiro na competição, chama a atenção dos críticos

Festival de Cannes chegando na sua metade com uma porção de filmes promissores despontando na sua seleção recheada de coisa boa, e dificultando saber quem é que está mais perto da Palma de Ouro. Acompanhar o festival de longe, a posteriori, dificulta ainda mais, porém é bom ficarmos informados sobre quais são os filmes que estão aprovados e os filmes que receberam críticas mais duras. Entre os favoritos aos prêmios (que serão entregues no sábado) destacam-se Dolor y Gloria, de Almodóvar (tentando a Palma de Ouro pela 6ª vez, parece ser o grande favorito ao prêmio com esse novo projeto bastante pessoal), Portrait de la jeune fille en feu, de Sciamma (concorrendo pela primeira vez), A Hidden Life, de Malick (voltando a Cannes oito anos depois de A Árvore da Vida, que o garantiu a Palma, e com um filme que segundo alguns é bem mais convencional e seguro do que seus últimos filmes de ficção tidos como medianos), Atlantique, de Diop (ela é a primeira mulher africana a concorrer à Palma de Ouro na história do festival, e o filme foi recebido com chuvas de elogios) e, nosso representante nacional, Bacurau, de Mendonça Filho & Dornelles, que teve uma recepção bastante calorosa na semana passada, e já garantiu boatos de que poderia estar no radar dos prêmios. Les Miserábles, do estreante Ladj Ly, e Sorry We Missed You, o filme mais elogiado do veterano Ken Loach em muito tempo, também surgem entre os grandes preferidos de Cannes 2019. Enquanto isso, da competição, títulos que não agradaram muito a crítica, como The Dead Don't Die e Little Joe, foram rebaixados. 

Júri da competição

resumo da primeira metade (14 a 20/05) do Festival de Cannes

VINGADORES: ULTIMATO (2019)


Este comentário contém spoilers. Esperei para poder escrever sobre o novo Vingadores, o fenômeno das bilheterias que todos estavam loucos pra conferir, e que em uma semana após a sua estreia já tinha chegado à segunda colocação na lista das maiores bilheterias de todos os tempos (e está bem perto de passar Avatar), talvez pelo impacto que ele teve em mim, por não esperar que veria um filme tão grande e, ao mesmo tempo, ser tão sensível. 

O filme que encerra belamente uma das franquias mais populares do cinema é uma odisseia repleta de cenas grandiosas, sequências de ação enlouquecedoras com personagens que nos últimos anos, desde o primeiro filme dos Vingadores até as produções mais recentes, cresceram com o público e este aprendeu a acompanhar e gostar de suas histórias e filmes. O legado, mais uma vez, se fortalece a partir desses laços, que foram se estreitando, e que neste filme se confirmam. Em paralelo à grandiosidade épica que o encerramento dessa franquia exigiu, temos a leveza de cenas em que os super-heróis estão em seus momentos mais humanos, descontraídos ou pesados, mas carregados de uma simplicidade bem alegre e bem-resolvida. Ultimato expõe as fraquezas e as feridas, mas parece sempre olhar com amor aqueles personagens que construiu sua história, abraçando a história por trás de cada um deles. Abraçar a relação que o tempo fortaleceu e priorizar um retrato emocionante da fraternidade dos Vingadores e dos super-heróis é um dos pontos altos de Ultimato, que chegou para desestruturar os ranques como um dos melhores filmes de super-herói já feitos. 

A experiência de ver esse filme no cinema foi completamente emocionante, e tudo o que essa palavra pode definir Ultimato foi. A frenesi da ação, ou as lágrimas que eventualmente coloriram os rostos da maioria dos presentes na sessão lotadíssima (e o meu também, em uma sequência decisiva de deixar qualquer um extasiado), a beleza da redenção dos personagens, a amizade, o amor, as escolhas, o passado e o tempo, e o significado de uma família. Ultimato faz sentir tantas emoções, ao abraçar a simplicidade do seu sentimentalismo, que é também fruto da história que o público tem com essa franquia, mas que carrega na sua urgência pela união um significado bem maior, que transcende o mero exibicionismo da sua pilha de cenas grandiosas, mas esconde um afeto, que depois se revela com toda a graça desejada.

Os Irmãos Russo conseguem equilibrar a ação explosiva muito bem calibrada com sequências dramáticas devastadoras, capazes de deixar até quem não é fã em prantos. Os personagens estão nus e crus, em suas versões mais despidas, humanas, atenuantes. Grandes performances (Downey Jr, Renner, Ruffalo, Hemsworth, Evans, Brolin, etc.) coroam a opulência de um elenco que por si só é a própria reunião de família da Marvel, com a presença de atores que fizeram papéis em outros filmes da franquia (Swinton, Boseman, Cumberbatch, Olsen, etc.) que é impossível não pensar neste elenco como, pelo menos, a reunião mais exasperante dos últimos anos, e para os padrões do cinema, é um elenco gigantesco de satisfazer toda e qualquer expectativa.

Com um dos desfechos mais deslumbrantes e próximos da perfeição possíveis, Ultimato encerra belamente uma franquia que apaixonou vários espectadores, cinéfilos e fãs de quadrinhos desde o primeiro filme de 2012, e confirma o legado dos Vingadores. Faz a melhor combinação dos seus elementos para quebrar essa "regra" de que o mainstream não tem espaço para a delicadeza ou complexidade, e aqui são indispensáveis para fechar com chave de ouro uma história que emociona, faz vibrar, gritar, chorar, e conclui Ultimato com a dignidade que seus personagens demandam, desvendando o humano que em todo super-herói existe, e o que de mais heroico há no coração dos humanos. Me emocionou, eu que não sou fã, mas me senti como aqueles personagens, e a emoção tomou conta de mim, continuou vibrando até depois daquela sessão tão especial. Um dos melhores filmes de super-herói dos últimos anos, junto com Logan e Pantera Negra.

Vingadores: Ultimato
Avengers: Endgame
dir. Anthony & Joe Russo
★★★★

quinta-feira, 16 de maio de 2019

GAROTOS DE PROGRAMA (1991)


Garotos de Programa é Gus Van Sant antes da fama, antes de Hollywood, entregue às idiossincrasias do então cinema independente, experimentando linguagens e tentando coisas novas a cada partezinha do seu filme que fala sobre, entre outras coisas, o pertencer, o estar, as angústias de pessoas que vivem às margens, o abandono, e a todo instante, tenta-se encontrar, ou pelo menos alcançar, a beleza no meio daquela bagunça, enxergar o sublime em pessoas caóticas, perdidas.

A originalidade do estilo de Van Sant está livre, respirando sem amálgamas, ele tenta de tudo e consegue resultados espontâneos com o inconvencional. O elenco também aproveita da mesma liberdade pra moldar atuações inesquecíveis (River Phoenix, Keanu Reeves e William Richert estão brilhantes).

Num ritmo de road movie, o filme avança à medida em que descasca seus personagens, exibe suas fragilidades, expõe fraquezas, as perseguições, marcas da vida, e constrói um retrato melancólico, doloroso, de traços líricos, que projeta naquelas vidas marginais um senso de sentimento, comiseração sem forçar a barra, tudo para se alinhar com a beleza da procura que o personagem de Phoenix mantém pela mãe e que é o fio condutor da narrativa. Os caminhos dessa busca levam à contundência, com um desfecho forte, nunca exigente, mas que reflete a distorção daquelas vidas desencontradas e suas dores. Garotos de Programa provavelmente é o melhor exemplo daquilo que um drama homossexual deveria ser. Forte, mas sem apelos. E honesto, com delicadeza.

Garotos de Programa
My Own Private Idaho
dir. Gus Van Sant
★★★★½

O AMOR É CEGO (2005)


Provavelmente o melhor filme dos Irmãos Farrelly, empareado com O Amor é Cego. Diferentemente desse, aqui temos um casal cujo amor é testado pela devoção de um torcedor fanático do Red Sox ao time que é muito importante na sua vida, algo que no começo até surpreende a namorada por ela achar bonito o comprometimento e a dedicação com algo que se gosta, como um símbolo do amor, mas que aos poucos (e o filme vai desvendando isso de forma bem sutil e genial) vai mostrando seu lado, digamos, tóxico para a relação entre os dois.

Drew Barrymore talvez seja para as romcoms dos anos 2000 o que Sandra Bullock foi para os anos 90, e o charme dela entra numa sintonia tão deliciosa com o carisma do Jimmy Fallon que apenas observar a química entre os dois já deixa o filme encantador. Inclusive o que não falta são cenas românticas, sejam elas cômicas ou mais dramáticas, protagonizadas entre os dois, que funcionam belamente, dentro da simplicidade da proposta. Aos poucos percebo que os filmes do Farrelly tem essa vibe meio feel-good, até quando eles fazem comédias mais escrachadas, que mexem com um humor que surge do lado físico, mas que até nisso podem ser abordadas com certo sentimentalismo (como é o caso do Amor é Cego e de Ligado em Você também). Aqui isso fica de lado, em segundo plano, e o romance e o lado emocional são mais valorizados.

E importante notar que, sendo uma comédia que tem um protagonista tipicamente loser, até nisso há uma certa esperança, um "lado bom" para um personagem que busca a vitória no amor e no esporte, e o filme costura uma visão bastante positiva sobre esses dois campos e o significado deles para o Ben.

O Amor é Cego
Fever Pitch
dir. Bobby & Peter Farrelly
★★★★

terça-feira, 14 de maio de 2019

Festival de Cannes 2019: lista de desejos


Festival de Cannes começa hoje e a lista da seleção oficial veio recheada de promessas apetitosas para o ano cinematográfico de 2019. O poster dessa edição homenageia a querida cineasta francesa Agnès Varda, que nos deixou em março, fotografada durante as filmagens de seu longa de estreia, La Pointe-Courte. Segue aqui a reunião de alguns dos títulos que mais me interessaram dessa edição, acompanhando os que tiveram o prestígio de serem incluídos na competição pela Palma de Ouro. No júri, Iñárritu preside, e nomes do cinema como Reichardt, Lanthimos, Campillo, Pawlikowski e Rohrwacher irão escolher e entregar os prêmios com Elle Fanning, Enki Bilal e Maimouna N'Diaye. O festival segue de 14 a 25 de maio. 

Competição

Atlantique (Mati Diop)
Bacurau (Kleber Mendonça Filho & Juliano Dornelles)
The Dead Don't Die (Jim Jarmusch)
Frankie (Ira Sachs)
A Hidden Life (Terrence Malick)
It Must Be Heaven (Elia Suleiman)
Little Joe (Jessica Hausner)
Matthias & Maxime (Xavier Dolan)
Les Misérables (Ladj Ly)
Mektoub, My Love: Intermezzo (Abdellatif Kechiche)
Roubaix, une lumière (Arnaud Desplechin)
Once Upon a Time in Hollywood (Quentin Tarantino)
Dolor y Gloria (Pedro Almodóvar)
Parasite (Bong Joon-Ho)
Portrait de la jeune fille en feu (Céline Sciamma)
Sibyl (Justine Triet)
Sorry We Missed You (Ken Loach)
Il traditore (Marco Bellocchio)
Gomera (Corneliu Porumboiu)
The Wild Goose Lake (Diao Yinan)
Le Jeune Ahmed (Irmãos Dardenne)

OUTRAS PROMESSAS DA SELEÇÃO OFICIAL

Un Certain Regard

Freedom (Albert Serra)
A vida invisível de Eurídice Gusmão (Karim Ainouz)
Chambre 212 (Christophe Honoré)

Hors Concours

Rocketman (Dexter Fletcher)
Diego Maradona (Asif Kapadia)
Too Old to Die Young (Nicolas Winding Refn)
The Specials (Olivier Nakache & Éric Toledano)
Tommaso (Abel Ferrara)
Chicuarotes (Gael García Bernal)
Lux Æterna (Gaspar Noé)

Quinzena dos Realizadores

Deerskin (Quentin Dupieux)
First Love (Takashi Miike)
The Halt (Lav Diaz)
The Lighthouse (Robert Eggers)
Sem seu sangue (Alice Furtado)
Wounds (Babak Anvari)
Zombi Child (Bertrand Bonello)

domingo, 5 de maio de 2019

SE A RUA BEALE FALASSE (2018)


Se Moonlight era também sobre, de certa forma, o amor como forma de libertar-se de um mundo que te aprisiona, Se a Rua Beale Falasse inverte o jogo e retrata viver o amor diante dos cerceamentos do mundo, através de suas barreiras. Nesses filmes de Barry Jenkins, somos moldados pelos sentimentos ao mundo que nos cerca, pelas suas prisões, dores e aflições, para depois sermos resgatados pela graça, completude e maravilha do amor. É o que reafirma esse novo filme, que traz uma visão lírica e dolorosa da relação entre uma moça de 19 anos grávida de um rapaz que está preso, acusado de um crime que não cometeu.

Há todo um charme, uma dinâmica na paleta de cores, uma sutileza sublime nos enquadramentos e nos close-ups, magníficos. Obra de James Laxton, a fotografia não desaponta sequer um momento, continua evocando quem inspirou Jenkins (Kar-Wai, Denis) ao mesmo tempo em que cria para esse diretor sua estética própria, com cores que exprimem delicadamente os desdobramentos da trama, as sensações dos retratados e que também se conecta a quem está atrás da tela.

Diferentemente de Moonlight, esse aqui não tem o foco em apenas um personagem para depois conectá-lo ao elenco, mas divide sua atenção entre a Tish e o Fonny, e com os outros personagens, criando uma ponte entre os sentimentos de injustiça, glória e compaixão compartilhado por eles.

Num elenco inspirado, para as melhores atuações ficaram com a responsabilidade Regina King (excelente mesmo em poucas cenas), Stephan James e Kiki Layne, e até mesmo quem tem atuações menores, como Brian Tyree Henry, Aunjanue Ellis e Colman Domingo, conseguem se destacar.

A trilha de Nicholas Britell é desconcertante, tão desconcertante quanto a de Moonlight. Ajudando a compor a atmosfera romântica do filme, e com a sensibilidade de Barry Jenkins, esses detalhes ajudam a enriquecer a adaptação do romance de James Baldwin com um senso de ternura, paixão e força bastante precisos. O filme sabe da força que carrega e canaliza ela para o que ele tem de mais particular: sua compreensão tocante do amor. Com um retrato densamente pungente do negro na sociedade americana e das barreiras que a ele são impostas, Se a Rua Beale Falasse entende com a tristeza de um blues a marginalização, o aprisionamento, mas prefere costurar as vidas de seus personagens com o que de mais belo poderia acontecer a elas. É essa beleza, essa força incontida que, afinal de contas, permite que a esperança respire, e a liberdade fale, e enfim viva.

Se a Rua Beale Falasse
If Beale Street Could Talk
dir. Barry Jenkins
★★★★

domingo, 21 de abril de 2019

EM TRÂNSITO (2018)


Petzold, possivelmente o melhor cineasta em atividade na Alemanha, traz uma proposta diferente em seu novo filme: a reimaginação da segunda guerra nos dias de hoje. Seu filme moderniza e traduz o fascismo para a Europa contemporânea dos refugiados, a trama gira em torno de um alemão em exílio, a mulher de um escritor e toda a conexão que coexiste no hiato entre um e outro, personagens que vivem escondidos, procuram rostos conhecidos na multidão, vidas duplas que se intercalam.

Seu novo filme fala sobre um tipo de dor que só sabe quem já experimentou a distância, o abandono. Isso em especial parece ligar todos os personagens da trama, que são movidos por um certo mistério, uma busca pelo pertencer num cenário de guerra, conflito, caos e medo. Nessa procura por encontrar um lugar a que possam pertencer, essas pessoas encontram uma na outra a raiz de suas dores e felicidades. A distância é observada quando a proximidade entre eles é exposta.

Em Trânsito é uma investigação de sentimentos que nascem do trânsito das mudanças, com um olhar que invoca melancolia ou torpor, mas sempre vê delicadeza nos seus personagens, e coloca isso à frente. É um drama que se abre nos intervalos, se permite o romance e também a dor, porém com uma compaixão rara, certa e tranquila.

Nesse sentido, o final é extremamente decisivo, mas sela uma condição do filme. Uma condição que te convida a enxergar. Personagens que se procuram uns nos outros, que precisam fugir, mas querem ficar. A permanência como salvação. Petzold traz humanidade para temas que carregam um peso, mas a maneira como os toca, com afeto e resiliência, traz um impacto diferente em quem assiste, por ser tão particular e universal, como retrato da dor, do coração partido, do abandono.

Seu filme mais desolador, pungente, é humano, repleto de sensibilidade, do jeito que esse diretor faz de melhor. Atuações gigantes (Rogowski, Beer e Lilien Batman, o Driss, estão excelentes), uma fotografia em sincronia com o ritmo agridoce, e cenas desarmadoras, absurdamente bem concebidas, que coroam a belíssima percepção de Em Trânsito sobre tantos sentimentos, e com tamanha honestidade.

Em Trânsito
Transit
dir. Christian Petzold
★★★★★

sábado, 20 de abril de 2019

GRASS (2018)


Essa fase de Sang-Soo tem gerado resultados interessantemente diferentes de outros filmes da sua filmografia. Mantém-se os hábitos, mas trocam-se os discos. O autor coreano deixa de lado o humor e a graça pelo joie-de-vivre para tratar de temas não exatamente mais sérios do que outros já trabalhados, porém obscuros, amargos, com lirismo e delicadeza intocados, mas voltados para visões e dramas bem mais localizados e aprofundados, que são filtrados pelo mesmo ritmo poético de fazer filmes, planos meticulosos como meditações que se arrastam para costurar resultados firmes, tramas que eventualmente acabam se alinhando.

A leveza que era constantemente associada ao estilo desse diretor dá lugar à contemplação de diálogos repletos dos sentimentos pesados de personagens amargurados, que tem algo a descarregar naquelas mesas de café. O filme vai se estabelecendo como uma peça, se molda em poucos cenários e constrói neles suas direções. Funciona bem porque os personagens é que embasam o desfecho, pura e simplesmente. Observamos suas conversas e gestos como a quem pinta um quadro. Dramas que se interligam, pessoas que parecem procurar coisas parecidas.

Para mais ou menos uma hora de filme, o elenco se sai incrivelmente bem, com atuações que se não tomam muito tempo em tela, pelo menos conseguem dizer o suficiente. Hong deixa as coisas fluírem e seus atores sabem o que fazer.

Num café ou num beco, geralmente duas pessoas desabafam, colocam seus sentimentos pra fora, conversam, recuam, escondem, e finalmente desmascaram suas verdades, liberam a tensão. A personagem de Kim Min-Hee diz que não é escritora, mas registra o desabafo, parece estar conectada com aquilo de alguma forma, embora não fique claro no começo.

Com seu ritmo lento, Grass dá passos grandes para esculpir o tímido desnorteamento daquelas pessoas. Hong não é estranho ao drama, mas se em suas comédias buscava a espiritualidade do banal e se contentava com configurações simples de sentimentos mais espontâneos (com seus estados e rotinas), nessa fase há um interesse maior por um certo peso que defina os personagens, mexendo ainda mais fundo, resultados que não aparecem de primeira, mas se desenvolvem em tela. E, é claro, sempre mantendo o respeito pela naturalidade, uma marca registrada desse cinema que tem seu jeito próprio de captar a beleza por trás do sutil. Consistente e significativo.

Grass
Pul-lip-deul
dir. Hong Sang-Soo
★★★★

GUERRA FRIA (2018)


Guerra Fria é sobre amor, guerra e a turbulenta relação entre os dois. Pawlikowski registra em um preto-e-branco exuberante banhado de romance, mistério e beleza seu retrato apaixonado e distorcido de personagens que se encontram num cenário improvável, que se amam entre países, segredos e conflitos, numa guerra fria que é marcada pelos encontros e desencontros de amantes perdidos e deslocados numa Europa em ruínas.

Algumas cenas são muito bonitas visualmente, com um jeito de realçar o elegante romantismo de uma relação bagunçada. Não fica muito longe daquela beleza meio singular, inconvencional de Ida, com um certo fascínio pela graça inesperada que surge dos sentimentos que são emitidos em tela.

E é até surpreendente ver um filme que consegue conciliar tão bem a sensação amarga de uma guerra e a conexão arrebatadora de um romance que atravessa todos os conflitos que se colocam em seu caminho, com aquela confissão de sentimentos que todos os amantes conhecem. É um filme bonito nesse sentido, pode não ser o filme perfeito pra explorar a sensibilidade de um romance que sobrevive ao tempo, até pela questão de ser mais sobre a resistência e o amor como força redentora. As atuações de Kulig (lindíssima) e Kot são essenciais pra compor a fragilidade amorosa dos seus personagens, e à exposição que os cerca. Tanto a musicalidade quanto o apuro visual ajudam a filtrar sentimentos de preciosidade e precisão. Gosto principalmente das cenas em que eles se encontram em Paris, e também do começo do longa, mas em geral tem conjuntos de cenas que vão do belo ao melancólico, do quebradiço à glória, da guerra ao amor com um charme irresistível.

Guerra Fria
Zimna wojna
dir. Pawel Pawlikowski
★★★★

sábado, 13 de abril de 2019

A TURBA (1928)


Uma dessas pérolas únicas do cinema mudo, "A Turba" exala simplicidade e, porque não, inocência, com a mesma energia que celebra um e outro, nessa sensível ode ao homem comum americano, equilibrando tristeza e alegria com os dramas da história de um amor, casamento, família, trabalho e as atribulações da vida de gente comum, como eu e você.

O que mais comove aqui é a forma como o filme (e essa é uma herança do cinema daquela época) se sente, e se torna completo com a sua própria sutileza, com leveza e charme (aquela cena da primeira noite juntos no trem consegue ser expressiva com tão pouco, e com tamanha honestidade, que é impossível não ficar comovido com a timidez, o humor dela).

Mais bonito é observar as tensões que vão surgindo e como elas são delineadas, de maneira que sempre tenha um equilíbrio muito evidente entre drama e romance. As performances são essenciais pra reforçar essa simplicidade, a ideia de que o filme é construído em cima da beleza do ordinário, o particular que vem do geral.

É interessante que essa seja uma essência muito própria do cinema mudo, de encontrar valor cinematográfico em gestos puros, em premissas bem inocentes, mas que são felizes nesse formato, sem precisar de reforços para deixar seu recado (e que, de certa forma, é uma das maiores influências deixadas por esse cinema, que não se perdeu com o tempo).

É um filme feliz pela sua natureza, contente em filmar seus personagens e as situações aparentemente banais em que se envolvem, mas o jeito como ele se desenlaça, e extrai dessa banalidade beleza, afirmação e encantamento, é comovente demais pra passar em branco. "A Turba" me surpreendeu. É delicado ao retratar dor e amor, sempre falando sobre o que une todos nós, como retirar alguém aleatório de uma multidão e fazer uma história com que possamos nos identificar, plena e humana.

A Turba
The Crowd
dir. King Vidor
★★★★★

WON'T YOU BE MY NEIGHBOR? (2018)


Um belíssimo documentário, necessário pra gente lembrar que amor, bondade e generosidade fazem toda a diferença num mundo cheio de doenças. Inspirador também, porque faz comentário social/político ao mesmo tempo em que enaltece valores humanos e tão profundos, e que precisam sempre ser relembrados: o afeto que pode salvar uma pessoa, respeito, tolerância, a essência inerente do carinho, compreensão, igualdade, e, é claro, aceitarmos e amarmos uns aos outros como somos, e nos cuidarmos, nos protegermos em todos os momentos. 

Gosto das cenas em que o Fred está interagindo com as crianças, uma das coisas que mais me tocou foi perceber que crescer também é carregar dentro de si a infância, a beleza de ser e permanecer uma criança. E que o amor existe de todas as formas, e que ser amado é também um ato de humanidade. Talvez isso seja pessoal demais, eu só espero que as pessoas não fiquem cegas à relevância desse filme, saber que tem pessoas no mundo que ainda se importam com a gentileza é no mínimo gratificante. Uma lição de empatia, de positividade. Fiquei arrepiado com aquela sequência dos entrevistados pensando nas pessoas especiais em suas vidas.

Won't You Be My Neighbor?
dir. Morgan Neville
★★★★★

segunda-feira, 8 de abril de 2019

VICE (2018)


O menos querido dos indicados a Melhor Filme no Oscar desse ano, Vice é a (super) pretensiosa cinebio sobre o ex-vice-presidente dos EUA Dick Cheney (Christian Bale, em performance de caracterização deveras impressionante), que ocupou o cargo por oito anos durante a gestão de George W. Bush (Sam Rockwell, que foi indicado como ator coad. por este papel). O filme é dirigido por Adam McKay, que traz novamente os cortes rápidos e a edição fragmentada presentes no seu trabalho anterior, o frenético A Grande Aposta, usando sátira política repleta de exageros e inconsistências para costurar seu estranho retrato da política norte-americana. O resultado é decepcionante. Não há o tom político que tanto se almeja, as intenções nunca ficam claras, as críticas são lançadas mas o filme sempre encontra um jeito de recuar delas, focando no humor da situação e na caricatura dos personagens, sem nunca acertar o ponto, sem ter uma direção. Na falta de profundidade, Vice pretende a inovação (com uma boa dose de brincadeiras) sem nunca dar passos largos. Apela para reafirmações de seu projeto de humor e, grotescamente, é o mesmo humor que sabota qualquer proposta ou intenção louvável, qualquer chance de ser relevante. Curioso que um filme tão perdido assim tenha conseguido um número tão grande de indicações em diversos prêmios influentes. O elenco até encontra um equilíbrio, mas não consegue jogar a patifaria pra debaixo do tapete. Esses americanos precisam parar de querer ser engraçadinhos falando de política porque não tá funcionando muito. 

Vice
dir. Adam McKay
★★

domingo, 31 de março de 2019

Homenagem a Agnès Varda


Uma das perdas mais tristes. Agnès Varda nos deixou essa semana aos 90 anos. Ela foi uma das cineastas mais importantes não apenas da França, sua terra natal, mas do mundo. Foi a mãe da Nouvelle Vague, companheira de Jacques Demy (mestre do musical), rodou diversos filmes em mais de 50 anos de carreira, entre ficção, documentários e curtas, ganhou um Oscar recentemente e continuou produzindo filmes até esse ano (seu novo documentário está para sair). Em suas obras sempre manteve o amor pela vida, pela expressão, pelo cinema. Vai deixar saudade. Felizmente será lembrada, celebrada através do que deixou: grandes filmes, histórias, registros, poesia em forma de cinema. Em celebração do seu legado, aqui está minha lista das obras indispensáveis da carreira dela, lembrando que eu também tenho algumas anotadas e que devo ver em breve. Neste sábado, vi dois curtas e o belo Muros e Murmúrios. Muito grato pelo que Varda fez pelo cinema.

Adieu, Agnès. Merci pour tout. Vá em paz. Te amo. 

em ordem alfabética

Cléo das 5 às 7 
Os Catadores e Eu
Documenteur
Muros e Murmúrios
La Pointe-Courte
As Praias de Agnès
Os Renegados
Visages, Villages

na minha lista

As Cento e Uma Noites
As Criaturas
Daguerreótipos
As Duas Faces da Felicidade
Kung Fu Master
Lions Love (inédito)
Longe do Vietnã
Nausicaa (inédito)
Uma Canta, a Outra Não
Varda by Agnès (seu último documentário)

os curtas

Tio Yanco
L'Opera Mouffe
Panteras Negras
Resposta das Mulheres
Saudações aos Cubanos

domingo, 17 de março de 2019

Lumière de Ouro 2018 — Melhores do Ano


Aqui está o meu "Oscar pessoal" em sua quinta edição, com os meus votos para os melhores do ano no cinema em todos os aspectos. Decidi listar ambos os indicados e os vencedores no mesmo post. Aqui estão eles:

Regras de elegibilidade: filmes lançados comercialmente ou streaming durante o ano de 2018.
Mudanças: categorias de direção e elenco passam a ter um indicado a mais (sendo assim, seis indicados) e a categoria de melhor filme passa a ter 10 indicados. A categoria com mais indicados é melhor cena, com 12 selecionados.


FILME

Me Chame pelo seu Nome
Deixe a Luz do Sol Entrar
O Dia Depois
Feliz como Lázaro
Infiltrado na Klan
Mudbound
Ponto Cego
Projeto Flórida 
Roma
Trama Fantasma

DIREÇÃO

Alfonso Cuarón, Roma
Alice Rohrwacher, Feliz como Lázaro
Claire Denis, Deixe a Luz do Sol Entrar
Luca Guadagnino, Me Chame pelo seu Nome
Paul Thomas Anderson, Trama Fantasma
Spike Lee, Infiltrado na Klan

ATOR

Adriano Tardiolo, Feliz como Lázaro
Bradley Cooper, Nasce uma Estrela
Daniel Day-Lewis, Trama Fantasma
Daveed Diggs, Ponto Cego
Timothée Chalamet, Me Chame pelo seu Nome
Tracy Letts, Os Amantes

ATRIZ

Charlize Theron, Tully
Karine Teles, Benzinho
Juliette Binoche, Deixe a Luz do Sol Entrar
Saoirse Ronan, Lady Bird
Vicky Krieps, Trama Fantasma
Viola Davis, As Viúvas

ATOR COADJUVANTE

Rafael Casal, Ponto Cego
Jesse Plemons, A Noite do Jogo
Jonah Hill, A Pé Ele Não Vai Longe
Laurence Fishburne, A Melhor Escolha
Michael Shannon, A Forma da Água
Willem Dafoe, Projeto Flórida

ATRIZ COADJUVANTE

Alba Rohrwacher, Feliz como Lázaro
Carey Mulligan, Mudbound
Laurie Metcalf, Lady Bird
Leslie Manville, Trama Fantasma
Rachel McAdams, Desobediência
Millicent Simmonds, Sem Fôlego

CENA

A festa/revelação e beijo — Trama Fantasma
Mãe e filha no carro — Lady Bird
Sinal vermelho — Ponto Cego
Encontro no hospital — Três Anúncios para um Crime
Sequência final — A Forma da Água
O nascimento de uma nação — Infiltrado na Klan
A praia — Roma
A primeira noite — Me Chame pelo seu Nome
At Last — Deixe a Luz do Sol Entrar
Juntas na sinagoga — Desobediência
Lázaro reencontra a irmã — Feliz como Lázaro
O regresso do filho — Mudbound
Dança ao pôr-do-sol — Em Chamas

ELENCO

Feliz como Lázaro
Infiltrado na Klan
Lady Bird
Mudbound
Trama Fantasma
Três Anúncios para um Crime

ROTEIRO ORIGINAL

A Câmera de Claire, Hong Sang-Soo
O Dia Depois, Hong Sang-Soo
Lady Bird, Greta Gerwig
Ponto Cego, Daveed Diggs & Rafael Casal
Trama Fantasma, Paul Thomas Anderson

ROTEIRO ADAPTADO

Me Chame pelo seu Nome, James Ivory
Desobediência, Sebastián Lelio e Rebecca Lenkiewicz
Infiltrado na Klan, Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott e Spike Lee
Mudbound, Dee Rees e Virgil Williams
Pantera Negra, Ryan Coogler e Joe Robert Cole

TRILHA

Lady Bird — Jon Brion
A Forma da Água — Alexandre Desplat
Infiltrado na Klan — Terrence Blanchard
Sem Fôlego — Carter Burwell
Trama Fantasma — Jonny Greenwood

CANÇÃO
(EMPATE)

"Mighty River" — Mudbound
"Mystery of Love" — Me Chame Pelo Seu Nome
"I'll Never Love Again" — Nasce uma Estrela
"Shallow" — Nasce uma Estrela
"Visions of Gideon" — Me Chame Pelo Seu Nome

ANIMAÇÃO

Ilha dos Cachorros (Wes Anderson)
Neste Canto do Mundo (Sunao Katabuchi)
Paddington 2 (Paul King)
Viva: A Vida é uma Festa (Lee Unkrich)

DOCUMENTÁRIO

Dawson City: Frozen Time (Bill Morrison)
O Outro Lado do Vento (Orson Welles)
O Processo (Maria Augusta Ramos)
Visages Villages (Agnès Varda & JR)
Whitney (Kevin Macdonald)

FOTOGRAFIA
(EMPATE)


Trama Fantasma
Me Chame Pelo Seu Nome
Sem Fôlego
Deixe a Luz do Sol Entrar
Nasce uma Estrela

MONTAGEM

Em Chamas
Infiltrado na Klan
Roma
O Passageiro
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

DIREÇÃO DE ARTE

Trama Fantasma
The Post
A Forma da Água
Sem Fôlego
Roma

FIGURINO

Pantera Negra
A Forma da Água
Trama Fantasma
Roma
Sem Fôlego

SOM

Pantera Negra
O Primeiro Homem
Nasce uma Estrela
Roma
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

EFEITOS VISUAIS

Pantera Negra
O Primeiro Homem
A Forma da Água
Ilha dos Cachorros
Paddington 2

MAQUIAGEM

A Forma da Água
O Destino de uma Nação
Pantera Negra
A Morte de Stalin
Sem Fôlego

DIRETOR ESTREANTE

Aneesh Chaganty — Buscando
Bradley Cooper — Nasce uma Estrela
Carlos López-Estrada — Ponto Cego
John Krasinski — Um Lugar Silencioso
Xavier Legrand — Custódia

TOTAL DE PRÊMIOS:

6 — Trama Fantasma
3 — Infiltrado na Klan
2 — Mudbound, Nasce uma EstrelaPonto Cego
1 — A Forma da Água, Sem Fôlego, Pantera Negra, Lady Bird, Projeto Flórida, Visages VillagesDeixe a Luz do Sol Entrar, Ilha dos Cachorros