sábado, 31 de março de 2018

OSCAR 2019 — as primeiras apostas


Estamos a quase um mês de distância do Oscar 2018, a temporada de premiações está oficialmente encerrada — mas as apostas para a próxima já começam a despontar. Os primeiros concorrentes do Oscar 2019 parecem estar tão definidos quanto imprevisíveis, dado que neste ano teremos o retorno de diretores cujos filmes marcaram presença nas edições passadas (Damien Chazelle, Barry Jenkins, Adam McKay, Lenny Abrahamson, Wes Anderson, Asghar Farhadi, Steve McQueen) assim como outros nomes renomeados parecem entrar com força nas apostas mesmo que não sejam comunalmente tidos como favoritáveis ao Oscar (Spike Lee, James Gray, Claire Denis). 

Enfim, aqui estão alguns dos títulos que poderemos ver daqui a 1 ano na lista do próximo Oscar. Fiquem de olho. 

MELHOR FILME

If Beale Street Could Talk
Widows
Where'd You Go, Bernadette
First Man
Pantera Negra
Black Klansman
Ad Astra
Backseat
Ilha de Cachorros
Can You Ever Forgive Me?

outros possíveis concorrentes: 
Everybody Knows
The Favourite
Black Klansman
Peterloo
The Sisters Brothers
Disobedience
Gloria
The Women of Marwen
The Kidnapping of Edgardo Mortara
Maria Madalena
The Death and Life of John F. Donovan
Suspiria
Roma
The Front Runner
At Eternity's Gate
Boy Erased
Beautiful Boy

MELHOR DIRETOR

Barry Jenkins — If Beale Street Could Talk
Steve McQueen — Widows
Damien Chazelle — First Man
Spike Lee — Black Klansman
Adam McKay — Backseat

pode ir:
Ryan Coogler (Pantera Negra), James Gray (Ad Astra), Richard Linklater (Where'd You Go, Bernadette?), Mike Leigh (Peterloo), Luca Guadagnino (Suspiria), Sebastian Lelio (Disobedience/Gloria), Marielle Heller (Can You Ever Forgive Me?), Yorgos Lanthimos (The Favourite)

MELHOR ATRIZ

Melissa McCarthy — Can You Ever Forgive Me?
Isabelle Huppert — The Widow
Viola Davis — Widows
Cate Blanchett — Where'd You Go, Bernadette
Kiki Layne — If Beale Street Could Talk

outras concorrentes:
Emma Stone — The Favourite
Julianne Moore — Gloria
Saoirse Ronan — Mary Queen of Scots
Rachel Weisz — Disobedience
Penélope Cruz — Everybody Knows

MELHOR ATOR

Willem Dafoe — At Eternity's Gate
John David Washington — Black Klansman
Ryan Gosling — First Man
Lucas Hedges — Boy Erased
Joaquin Phoenix — You Were Never Really Here

outros concorrentes: 
Brad Pitt — Ad Astra
Steve Carell — The Women of Marwen; Beautiful Boy
Joaquin Phoenix — Don't Worry, He Won't Get Far on Foot; The Sisters Brothers
Javier Bardem — Everybody Knows
Robert Redford — Old Man and the Gun

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Amy Adams — Backseat
Regina King — If Beale Street Could Talk
Olivia Colman — The Favourite
Rachel McAdams — Disobedience
Tilda Swinton — Suspiria

outras concorrentes:
Margot Robbie — Mary Queen of Scots
Nicole Kidman — Boy Erased
Jacki Weaver — Widows
Amy Ryan — Beautiful Boy
Claire Foy — First Man

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Timothée Chalamet — Beautiful Boy
Steve Carell — Backseat
Daniel Kaluuya — Widows
Richard E. Grant — Can You Ever Forgive Me?
Diego Luna — If Beale Street Could Talk

outros concorrentes:
Adam Driver — Black Klansman
Sam Rockwell — Backseat
Steve Buscemi — Lean on Pete
Kyle Chandler — First Man
Joe Alwyn — Boy Erased

ROTEIRO ORIGINAL

Backseat
Isle of Dogs
Ad Astra
Peterloo
Roma

outros concorrentes:
Everybody Knows
The Favourite
Destroyer
High Life
Loro

ROTEIRO ADAPTADO

If Beale Street Could Talk
Can You Ever Forgive Me?
Widows
Black Klansman
Where'd You Go, Bernadette?

outros concorrentes:
Disobedience
Lean on Pete
Love, Simon
First Man
Boy Erased

A FORMA DA ÁGUA (2017)


Para compor a sua história fantástica sobre o amor entre uma faxineira de um laboratório secreto do governo (Sally Hawkins, como Elisa) e uma estranha criatura das águas da América do Sul levada até lá para estudos, e que é maltratada por um homem cruel e carrasco (Michael Shannon, o detestável vilão Strickland), Del Toro usou e abusou de elementos cinematográficos de todos os lados (seja na arquitetura estética, na fotografia que exala cores fascinantes e mistura tons, na câmera que parece estar em uma constante relação de encantamento com os personagens que filma) e há muito amor sendo exalado por essa historinha que parece ser bastante ingênua e acaba se revelando mais intensa do que poderíamos pensar.

Pode não funcionar para uns — a proposta de uma história de amor narrada com elementos do gênero fantasia (e também entrando no terreno do noir) — e embora existam muitos problemas neste filme, não há como negar que um encantamento emerge da sutileza com que ele defende esse amor, levando (muito) a sério a premissa da paixão entre um ser humano e um ser aquático que parece ser tão impossível para outros de receber tal tratamento, aqui, não apenas há isso como também uma espécie de respeito pelos personagens, que é muito bonito de se ver. De algum modo, acaba funcionando, mesmo que a dedicação de Del Toro dispare para tantos lados que há irregularidades bem evidentes.

Embora eu não ache (mesmo) que seja um filme decepcionante, queria ter gostado mais de A Forma da Água (mais do que eu já gostei). As coisas parecem estar em seus devidos lugares: uma trilha sonora belíssima, cenários tão humanos e monumentais quanto seus personagens, um visual incrível... Mas acontece que na narrativa muito da essência que a estética do filme evoca é deixado para trás na valorização de excessos. 

Del Toro está tão preocupado em deixar o seu filme hiperestilizado para atender às "necessidades" que na verdade não são necessárias assim, que boa parte do que é realmente promissor nele se perde. E é triste, porque é um trabalho que muita gente amaria amar e tinha tudo para ser grandioso. Eu gosto de muitas de suas propostas. A forma como a história se desenrola, deixa a desejar (e muito). 

A diversidade dos personagens é um fator marcante. Del Toro quer dar espaço para todos e abraçar os oprimidos num conto sobre amar mesmo que isso custe ir contra a maré, ter o seu próprio espaço num lugar onde ele já está pré-determinado, romper barreiras. O filme, no papel, é genial. Tirando os excessos (querer dar uma dimensão para cada personagem, mas atropelando as essências de cada núcleo), seria mais crível.

Não há como negar que se tem um dos elencos mais proveitosos: Sally Hawkins (numa de suas atuações mais ricas), Michael Shannon (o vilão que eu mais odiei em muito tempo, em atuação infelizmente subestimada), Michael Stuhlbarg (destaque), Octavia Spencer (tem seu brilho) e Richard Jenkins (cujo personagem tem momentos de delicadeza ímpares). 

De tudo no filme, o que eu mais gosto é da beleza do amor entre a Elisa e a criatura (e como a estética acompanha isso), mesmo que seja algo que está mais na imaginação do espectador, porque até nesse núcleo há alguns disparates. Entretanto, se encerra maravilhosamente, ainda que a narrativa percorra tanto para chegar a tão pouco. Surpreende o fato de ter ganhado o Oscar de melhor filme, chega a ser até um pouco estranho, mas há um lado bom nisso. É um dos poucos filmes que conseguem driblar fantasia e romance sem perder o ritmo melancólico e agridoce dos sentimentos dos seus personagens. É uma fábula contente por assim ser, e que exige que o espectador entre na sua dança. Nessa parte, é mais particular, pois cada um interpreta seus detalhes como quer (e como lhe diz o interior, é claro). 

A Forma da Água (The Shape of Water)
dir. Guillermo Del Toro
★★★½

domingo, 25 de março de 2018

LADY BIRD (2017)


E não é que Greta Gerwig realmente se revelou como diretora em 2017? E foi a revelação mais bem falada do ano, elogiada aos montes. Acho que foi um pouco surpreendente constatar que o longa chegou ao nível de ser indicado ao Oscar e receber vários prêmios e indicações, tornando-se um queridinho da temporada de premiações. Talvez nem a própria Gerwig, musa do cinema independente americano, esperava que seu filme fosse ecoar tão alto. O que não significa que ele não tenha merecido todos esses reconhecimentos. Afinal, estamos falando de um filme que exala uma sensibilidade nata ao retratar, de forma delicada e precisa, a relação conturbada entre uma mãe e sua filha, vivendo na cidade de Sacramento (Califórnia), e, mais proximamente, a adolescência da última e todos os altos e baixos de uma fase complicada, marcada por descobertas, mudanças e aspirações.

Lady Bird é um filme que, em primeiro lugar, respeita seus personagens, seus espaços, suas formas de viver, suas emoções e os desenlaces das relações que eles mantém uns com os outros, seja no núcleo da mãe e da filha, da filha com o pai, da filha com o namorado, a melhor amiga, etc. A adolescente desvairada e ansiosa por se transformar naquilo que aspira, Christine (em performance mais que espetacular de Saoirse Ronan) colide com a mãe (por Laurie Metcalf, genial em todos os sentidos possíveis, esnobada no Oscar) que, de certa forma, parece não compactuar com a geração que sua filha incorpora, a geração dos anseios e das necessidades impulsivas de auto-afirmação. Embora possamos testemunhar diversas cenas de desentendimentos e brigas entre as duas, é entre essas personagens que se estabelece a relação amorosa mais intensa da narrativa. Por isso, é uma relação conduzida com uma delicadeza ímpar, embora as duas se desencontrem tanto, mas acabem se amando mais do que podem saber (talvez a mãe esteja mais ciente disso do que a filha). 

Lady Bird, deslocada, não consegue se encaixar naquela cidade, quer se mudar, se tornar uma artista, fugir do universo mundano, fazer parte de um mundo que está distante dali. Embora a proximidade seja mais explorada, a distância é algo que parece fazer parte também dos complexos da personagem, que se vê mais realizada distante de tudo aquilo ali, quando na verdade é em Sacramento onde ela se encontra, mesmo sem saber que ali é, na verdade, o seu próprio mundo, o seu lugar, a sua casa. De tanto querer se afirmar, ela acaba negando a sua essência. De certa forma, é a universalidade do jovem de uma geração que cresceu acostumada a absorver em sua cultura interior uma espécie de auto-afirmação e preservar mais aquilo que não está ao seu alcance, o intocável, o abstrato, o que cultivamos à priori. 

A forma como o filme se desenrola nos oferece momentos de singularidade e excelência, quanto a delicadeza de um retrato que sabe o que quer, se escorando na simplicidade para expressar todos os seus focos. Gerwig é tão boa diretora/roteirista como atriz e isso pode ser evidenciado em diversos momentos deste trabalho (que é semi-autobiográfico, inclusive) em que nota-se a maturidade de uma condução excepcionalmente bem construída. Há também, como destaque, uma trilha fenomenal da autoria de Jon Brion, e uma fotografia de momentos ímpares. 

Lady Bird é sobre se sentir em casa. Os encontros e desencontros da vida. Sonhos e realidade. Enxergar seu mundo fora dele. Retornar e não querer sair. A necessidade de se enxergar por outros filtros. Fazer suas decisões. Lidar com consequências. Estar à deriva em si mesmo. Não poder fugir das suas incertezas. Estar preso em uma fase. Se arrepender. Não poder se desculpar, mas querer. Querer viver. Longe de tudo. Estando o mais próximo possível. Lady Bird tem mil e uma razões para ser essa obra-prima sensível que capta tantos sentimentos, e com personagens tão humanos e aprazíveis. Não há vilões, não há heróis. Lady Bird é o que é: mundano, cativo e extremamente prazeroso com tão pouco. É simples, mas complexo por se afirmar, gigante em sua compreensão de cada ponto de vista, fiel na composição dessas vidas que colidem umas com as outras, as pessoas que fazem parte de nós, e nós delas. 

Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird)
dir. Greta Gerwig
★★★★½

sábado, 17 de março de 2018

Alguns filmes da semana


Como escrever no blog está se tornando uma tarefa mais rara, decidi atualizá-lo semanalmente com curtos comentários sobre os filmes vistos durante a semana (e geralmente meus comentários também podem ser acompanhados no meu letterboxd). 

Veneno (Poison, Todd Haynes, 1991) ★★★★


Primeiro filme do cineasta Todd Haynes. Uma delícia. Praticamente é como se fosse Sem Fôlego só que com três linhas de narrativa distintas intercaladas que não compartilham conexões diretas umas com as outras, embora pareçam dividir da mesma intensidade e energia ao longo do filme. Interessante é que este trabalho foi influenciado por trabalhos do escritor francês Jean Genet. Provocativo, forte e necessariamente pesado: foi um ótimo prólogo para o mestre que Haynes se tornaria alguns filmes após este. Escolhi (sem saber) uma cópia VHS e me surpreendi com o quanto isso ajudou na atmosfera perversa e bizarra do longa. Há também alguns aspectos de filme de horror, evocados em diversos momentos tensos da trama, o que influencia no fato do filme ser, no geral, um tanto incômodo quando trata da liberdade sexual, do aprisionamento, dos limites aos quais somos impostos e o quanto sofremos por eles. O impacto foi demasiado. Há grandes atuações, uma trilha inspirada e, é claro, uma condução de deixar qualquer um fora de si. 

The Fits (Anna Rose Helmer, 2016) ★★★½


É muito interessante e mais interessante ainda é que se trata de um filme de uma diretora estreante. Os níveis que a mise-en-scene atinge são desnorteantes. E ainda mais quando se tem em cena uma atriz mirim tão talentosa como a Royalty Hightower, cuja brilhante atuação, na pele de uma menina que fica dividida entre as lutas de boxe e as aulas de dança no centro em que frequenta, foi tão pouco reconhecida (como o próprio filme que, embora tenha caído nas graças da crítica, teve pouca divulgação e quase ninguém fala sobre). Transita entre uma diversidade de elementos dramáticos mas nunca perdendo o próprio ritmo que a história carrega. E mesmo numa variação tão limitada de espaços, o balanço dramático e espacial que a diretora encontra é riquíssimo. Dos maiores destaques do cinema indie americano recente. 

A Garota do Café (The Girl in the Café, David Yates, 2005) ★★★


Filmezinho simpático esse. Talvez eu tenha gostado mais do que eu poderia prever. Especialmente por conta da química entre os atores principais, os ótimos Bill Nighy e Kelly Macdonald, aqui fazendo um par romântico bem atípico e gostoso de se observar. Eu posso entender as intenções do roteiro de Richard Curtis até por envolver certos pontos diplomáticos em seu contexto (um filme sobre um economista que trabalha para o governo britânico indo em uma cúpula do G8 e levando em sua companhia uma mulher que ele conheceu recentemente), mas parece que as respostas dadas parecem ser tão simples para questões tão complexas, embora seja nobre o quanto são humanas as mesmas intenções que esse roteiro desenha. Enfim, eu gostei. Serve mais como uma distração romântica do que como uma crônica política. 

bônus:
Roads of Kiarostami (Abbas Kiarostami, 2006) ★★★★½


Achei este curta inédito de meia hora do nosso querido Abbas Kiarostami e me deliciei com tamanha simplicidade. Temos uma série de imagens (fotografias tiradas pelo cineasta em estradas, caminhos e paisagens que ele visitou) seguidas por uma narração do mesmo e uma trilha belíssima. É a perfeita definição do que cinema poético é. Mesmo com pouco, Kiarostami extrai desses simples gestos de combinar imagens, palavras e música algo tão forte e cinematograficamente poético que nossa única reação é ficar ali, parado, abismado e encantado com a disposição. É calcado na sutileza de um olhar, mergulhado na paixão de quem encontra numa fotografia o monumento para uma vida. 

segunda-feira, 5 de março de 2018

OSCAR 2018 (90th Academy Awards)


Oscar comemorou 90 aninhos ontem no ritmo de um evento que tinha tudo para ser dos mais memoráveis dos tempos recentes. E, em partes, foi sim uma grande festa, afinal, é o Oscar, sempre vai ser uma grande celebração. Talvez a comemoração dos 90 anos não tenha recebido aquela dimensão que todos esperariam (tirando as partes em que eles encheram a cerimônia de homenagens a edições e vencedores anteriores, claro), mas vai ser uma edição lembrada com carinho por sua parcela de momentos altos.

A grande surpresa foi reservada para o clímax da cerimônia. Nem Três Anúncios para um Crime, tampouco Corra!. Foi A Forma da Água que levou o Oscar de melhor filme pra casa — entregue pela famigerada dupla Faye Dunaway e Warren Beatty, autores da maior gafe da história do prêmio, que voltaram ao palco para reapresentar a categoria, dessa vez com o vencedor correto anunciado (ufa!). A produção de fantasia do mexicano Guillermo Del Toro conquistou quatro das treze estatuetas às quais recebeu indicação, inclusive as de melhor diretor, trilha e design de produção. 


Ironicamente, não houve surpresa quanto à entrega dos prêmios de atuação, que ficaram limitados ao quarteto já reconhecido em outros prêmios da awards season: Frances McDormand (cuja vitória deverá ser lembrada por ter gerado um dos momentos mais plausíveis e emocionantes), Sam Rockwell, Allison Janney e Gary Oldman. Os injustiçados talvez já esperassem isso, mas há quem apostasse que a Academia faria diferente e surpreenderia dando o prêmio pra alguém que não estava cotado — o que, infelizmente, não aconteceu. 

Até porque esse ano tinha muita gente boa pra premiar, sem falar nos que foram esnobados. De uma maneira, a edição em si contempla uma reunião de grandes exemplares do cinema americano, e, no meio das já usuais injustiças, a gente sempre encontra uma vitória pra abraçar. E foi o caso de James Ivory — que, aos 89 anos, conquistou seu primeiro Oscar ontem. Foi um momento muito lindo. O lendário diretor de fotografia Roger Deakins, após trocentas esnobações, finalmente levou o homem dourado por Blade Runner 2049

Tanto se falou em empoderamento feminino (que ganhou um enorme destaque essa noite, com vários profissionais e intérpretes trajando a label "Time's Up" em suas roupas de gala) e tão pouco foram reconhecidas as profissionais mulheres nessa edição. A começar por Greta Gerwig, que teve de se contentar em sair de mãos abanando mesmo com duas indicações fartas em direção e roteiro por Lady Bird, filmão que não foi lembrado em sequer 1 categoria. Outra injustiça braba foi a de Agnès Varda, que — ganhadora do Oscar honorário há pouquíssimo tempo — já era apontada como a favorita em documentário por Visages Villages, indicação essa que, sendo sua primeira competitiva, também a tornou a pessoa mais velha a ser indicada a um Oscar. Não, ela não ganhou. A Academia pisou feio na bola.


Deixando um pouco as injustiças de lado, é hora de lembrar o que essa premiação fez de bom. Jordan Peele foi aplaudido de pé quando recebeu melhor roteiro original por Corra!, uma das poucas justiças que essa cerimônia fez. Vale ressaltar também que o filme chileno Uma Mulher Fantástica saiu vitorioso em filme estrangeiro, apesar de sua protagonista, Daniela Vega, ter sido esnobada (mas na noite anterior apareceu 2 vezes no palco, uma recebendo o prêmio com a equipe, onde até foi aplaudida quando o diretor a reconheceu, e depois introduzindo a lindíssima canção "Mystery of Love"). 

Entrando no terreno das apresentações, esse Oscafoi marcado por algumas performances das quais eu vou lembrar com muito afeto. São elas as de "Mighty River" (que era a minha favorita, mas infelizmente não levou), "Remember Me" (que levou canção original e me fez chorar no cinema) e, é claro, a deliciosa "Mystery of Love". 

Todo ano o pessoal do Oscar tenta reprisar o momento icônico da selfie de 2014, esse ano foi a vez do Jimmy Kimmel sair do Dolby Theatre junto com várias estrelas e indicados (Del Toro, Robbie, Gadot, Elgort, Hammer, etc.) rumo ao TCL Chinese Theatre para agradecer espectadores por celebrarem a experiência de assistir filmes nos cinemas. Foi um momento divertido, tá virando rotina aguardar essas horas que o show para pra tentar imitar aquele que foi, provavelmente, o momento mais icônico das edições recentes do Oscar. A parte do In Memoriam fez a gente lembrar de grandes artistas do cinema que nos deixaram recentemente, como Jeanne Moreau, Jerry Lewis, Martin Landau e Jonathan Demme. 


Trama Fantasma — o elogiado filme de Paul Thomas Anderson — saiu com 1 Oscar em figurino, e nada mais. Dunkirk ganhou três prêmios técnicos, como era de esperar. Mas nada (nadinha mesmo) de Oscars para The Post, Lady Bird, Mudbound, Star Wars: Os Últimos Jedi e Em Ritmo de Fuga.

O prêmio que eu mais estava esperando foi justamente o de ator coadjuvante, por ter conferido Projeto Flórida nesse fim-de-semana e finalmente ver que o Willem Dafoe arrasa numa atuação maravilhosa que perdeu para Sam Rockwell. Aliás, é um fato assustador que um filme como Projeto Flórida tenha sido tão descaradamente desmerecido nessa edição do Oscar. Não só ele como vários outros títulos e outros que nem sequer foram lembrados em uma categoria. 

A premiação desse ano voltou-se para a diversidade, para abrir espaços às minorias e dar voz às vítimas, aos imigrantes, às mulheres, aos negros e a todas as etnias, conferindo assim ao Oscar um tom de cerimônia globalizada, em pauta com o mundo exterior — até na seleção dos vencedores isso é denotado. Se isso mostra que temos uma comunidade cinematográfica aberta ao respeito e ao reconhecimento, ciente de sua força e poder, é sinal de que um novo caminho para novas perspectivas começa, há muito no que progredir pela frente.


vencedores:

MELHOR FILME
A Forma da Água

MELHOR DIRETOR
Guillermo Del Toro — A Forma da Água

MELHOR ATRIZ
Frances McDormand — Três Anúncios para um Crime

MELHOR ATOR
Gary Oldman — O Destino de uma Nação

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Allison Janney — Eu, Tonya

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Sam Rockwell — Três Anúncios para um Crime

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Corra! — Jordan Peele

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Me Chame pelo seu Nome — James Ivory

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Uma Mulher Fantástica (Chile — dir. Sebástian Lelio)

MELHOR ANIMAÇÃO
Viva! — A Vida é uma Festa

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Icarus

MELHOR TRILHA SONORA
A Forma da Água — Alexandre Desplat

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Remember Me" — Viva!

MELHOR FOTOGRAFIA
Blade Runner 2049 — Roger Deakins

MELHOR EDIÇÃO
Dunkirk — Lee Smith

MELHOR FIGURINO
Trama Fantasma — Mark Bridges

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
A Forma da Água

MELHOR MAQUIAGEM/PENTEADOS
O Destino de uma Nação

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
Dunkirk

MELHOR MIXAGEM DE SOM
Dunkirk

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Blade Runner 2049

MELHOR CURTA-METRAGEM (LIVE-ACTION)
The Silent Child

MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO)
Heaven Is a Traffic Jam on the 405

MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO)
Dear Basketball

domingo, 4 de março de 2018

PROJETO FLÓRIDA (2017)


Eu sei que palavras não vão ser suficientes pra definir o quanto eu amei incondicionalmente cada segundo desse filme, mas vou tentar de qualquer forma. Projeto Flórida — do que tem de delicioso, tem de amargo na mesma medida. Sean Baker (do ótimo Tangerine, filme que talvez seja mais lembrado por ter sido filmado inteiramente num iPhone) não tem pudores na hora de mostrar a realidade, mas é justamente na inocência dessa história sobre, principalmente, minorias buscando um espaço e um lado do sistema que ninguém quer mostrar (especialmente no cinema americano), que o diretor foca para encontrar a beleza no meio do caos e da miséria no "lugar dos sonhos". E também acaba encontrando, entre outras coisas, dentro das suas camadas de personagens e subtramas essencialmente vivas, uma humanidade dilacerante, visceral, riquíssima em todos os seus aspectos. Entra então o belíssimo Projeto Flórida, essa graciosa obra-prima que, surpreendentemente, trata-se do melhor que o cinema americano nos proporcionou em 2017. 

Crianças que brincam e vivem seus dias de felicidade durante a temporada de férias, e adultos que sofrem para poder contornar a difícil realidade na qual estão inseridos. É a pobreza no país mais rico do mundo, a nação americana vista do lado de baixo, das minorias, dos ignorados, deixados para trás, e tão próximos do "mundo perfeito". Baker cria um universo em que esses personagens são acolhidos tão humanamente, com um calor tão verdadeiro, que é impossível não desenvolver simpatia por cada uma dessas figuras retratadas tão autenticamente num filme que se inspira na desordem pra encontrar a essência mágica da vida que está presente ali, dos moradores que digladiam uns com os outros para depois se consolarem, do síndico que executa suas responsabilidades à risca mas também desenvolve um afeto extremamente genuíno com todos os personagens, aos trancos e barrancos que a convivência humana proporciona.

Muitas coisas me maravilharam aqui, desde como o Baker dirige seu filme extraindo cada pedacinho de ternura e virtude que é possível, até as atuações vibrantes e excelentes de vários atores, e nem todos conhecidos. É claro, temos o Willem Dafoe, cuja atuação foi altamente elogiada e premiada (e muito justamente, ele tá incrível aqui), mas também há as iniciantes Brooklynn Prince (como a garotinha sapeca que vive aprontando com os amigos nos arredores do motel) e Bria Vinaite (esta dá um show de atuação, em seu primeiríssimo papel no cinema, como a mãe dessa garotinha).

Existe uma série de cenas fascinantes, engraçadas, muitas delas envolvendo as crianças fazendo estripulias e mexendo com os outros moradores, e depois fazendo coisas que crianças fazem — e no que diz respeito a isso o filme tem uma visão bastante singular — dando lugar, aos poucos, a um final que conecta a doçura infantil do filme à brusca realidade que corre por baixo dela. O desfecho é essencialmente triste, e guarda, principalmente, uma cena que me tocou profundamente, que é a da Moonee se despedindo da melhor amiga (não dá pra segurar as lágrimas). 

Projeto Flórida é sobre viver nas margens da vida, procurar um lugar pra se fixar, enxergar a vida através dos nossos sonhos por mais amarga que a realidade possa ser (ou por mais que ela tente te derrubar). É extremamente doce em tudo, na fofura do seu elenco infantil, no afeto que transborda de cada frame, no seu inspirado retrato que capta as emoções mais avassaladoras e as mais gostosas também, fazendo com que o espectador se emocione (e se encha de alegria). É um conto adorável onde inocência e perdição andam lado a lado, mesmo sem saber disso, cada uma dando lugar aos sentimentos que permitem, e às vezes preenchendo umas às outras.

Eu não posso resistir um filme tão gostoso assim, é maravilhoso demais, e tudo o que eu sinto por ele é simplesmente amor, amor, amor. Todos esses personagens, todos esses lugares, todas essas emoções, todas essas histórias parecem estar conectadas de alguma maneira com o que me rodeia agora, com esse universo que faz parte da minha existência, é uma parte da qual eu não posso me desprender, mas que a cada dia me surpreende com a humanidade que exala e o intenso calor que evoca, provando que não existe nada mais forte no mundo que os sentimentos. Já é o melhor filme do ano pra mim, so far. Lindo pra caramba. 

Projeto Flórida (The Florida Project)
dir. Sean Baker
★★★★★

Independent Spirit Awards 2018


Ontem foi noite do Indie Spirit Awards, que é mais conhecido como o Oscar do cinema independente. A premiação é responsável por dar destaques a alguns filmes que às vezes não conseguem aparecer em prêmios maiores, mas também é um ótimo indicador para esses prêmios, como é o caso do Oscar, visto que nos últimos quatro anos, seus vencedores (de melhor filme) bateram com os vencedores do Oscar de melhor filme também. Ou seja, isso é um bom sinal para Corra!.

MELHOR FILME
Corra!

MELHOR DIRETOR
Jordan Peele — Corra!

MELHOR ATRIZ
Frances McDormand — Três Anúncios para um Crime

MELHOR ATOR
Timothée Chalamet — Me Chame pelo seu Nome

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Allison Janney — Eu, Tonya

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Sam Rockwell — Três Anúncios para um Crime

MELHOR ROTEIRO
Lady Bird

MELHOR ROTEIRO DE ESTREIA
Doentes de Amor

MELHOR FILME DE ESTREIA
Ingrid Goes West

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Visages Villages

MELHOR FOTOGRAFIA
Me Chame pelo seu Nome

MELHOR EDIÇÃO
Eu, Tonya

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Uma Mulher Fantástica

sábado, 3 de março de 2018

Oscar 2018 — Apostas Finais




MELHOR FILME
quem vai ganhar: Corra!
quem pode: Três Anúncios para um Crime
quem surpreenderia: A Forma da Água
quem merece: Corra!
quem faltou: Projeto Flórida

MELHOR DIRETOR
quem vai ganhar: Guillermo del Toro — A Forma da Água
quem pode: Greta Gerwig — Lady Bird
quem surpreenderia: Jordan Peele — Corra!
quem merece: Jordan Peele — Corra!
quem faltou: Sean Baker — Projeto Flórida

MELHOR ATRIZ
quem vai ganhar: Frances McDormand — Três Anúncios para um Crime
quem pode: Saoirse Ronan — Lady Bird
quem surpreenderia: Sally Hawkins — A Forma da Água
quem merece: Saoirse Ronan — Lady Bird
quem faltou: Daniela Vega — Uma Mulher Fantástica

MELHOR ATOR
quem vai ganhar: Gary Oldman — O Destino de uma Nação
quem pode: Daniel Day-Lewis — Trama Fantasma
quem surpreenderia: Timothée Chalamet — Me Chame pelo seu Nome
quem mereceChalamet/Day-Lewis
quem faltou: Robert Pattinson — Bom Comportamento

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
quem vai ganhar: Allison Janney — Eu, Tonya
quem pode: Laurie Metcalf — Lady Bird
quem surpreenderia: Lesley Manville — Trama Fantasma
quem merece: Metcalf/Janney/Manville
quem faltou: Bria Vinaite/Brooklynn Prince — Projeto Flórida

MELHOR ATOR COADJUVANTE
quem vai ganhar: Sam Rockwell — Três Anúncios para um Crime
quem pode: Willem Dafoe — Projeto Flórida
quem surpreenderia: Christopher Plummer — Todo o Dinheiro do Mundo
quem merece: Willem Dafoe — Projeto Flórida
quem faltou: Steve Carell/Bryan Cranston/Laurence Fishburne — A Melhor Escolha

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
quem vai ganhar: Corra!
quem pode: Três Anúncios para um Crime
quem surpreenderia: Lady Bird
quem merece: Corra!
quem faltou: Projeto Flórida

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
quem vai ganhar: Me Chame pelo seu Nome
quem pode: Mudbound
quem surpreenderia: Artista do Desastre
quem merece: Me Chame pelo seu Nome
quem faltou: A Morte de Stalin

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
quem vai ganhar: Uma Mulher Fantástica
quem pode: The Square
quem surpreenderia: O Insulto
quem merece: Uma Mulher Fantástica
quem faltou: 120 Batimentos por Minuto

MELHOR DOCUMENTÁRIO
quem vai ganhar: Visages Villages
quem pode: Last Men in Aleppo
quem surpreenderia: Strong Island
quem merece: Visages Villages
quem faltou: Ex Libris

MELHOR ANIMAÇÃO
quem vai ganhar: Viva!
quem pode: The Breadwinner
quem surpreenderia: O Touro Ferdinando
quem merece: Viva!
quem faltou: In this Corner of the World

MELHOR TRILHA SONORA
quem vai ganhar: A Forma da Água
quem pode: Trama Fantasma
quem surpreenderia: Dunkirk
quem merece: Trama Fantasma
quem faltou: Lady Bird

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
quem vai ganhar: "Mighty River" (Mudbound)
quem pode: "Remember Me" (Viva!)
quem surpreenderia: "Mystery of Love" (Me Chame pelo seu Nome)
quem merece: "Mighty River"
quem faltou: não faço a menor ideia

MELHOR FOTOGRAFIA
quem vai ganhar: Blade Runner 2049
quem pode: A Forma da Água
quem surpreenderia: Mudbound
quem merece: Blade Runner 2049 Mudbound
quem faltou: Roda Gigante 

MELHOR EDIÇÃO
quem vai ganhar: Em Ritmo de Fuga
quem pode: Dunkirk
quem surpreenderia: Eu, Tonya
quem merece: Em Ritmo de Fuga
quem faltou: Detroit em Rebelião

MELHOR FIGURINO
quem vai ganhar: Trama Fantasma
quem pode: A Forma da Água
quem surpreenderia: A Bela e a Fera
quem merece: Trama Fantasma
quem faltou: O Estranho que nós Amamos

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
quem vai ganhar: A Forma da Água
quem pode: Blade Runner 2049
quem surpreenderia: O Destino de uma Nação
quem merece: Blade Runner 2049
quem faltou: Sem Fôlego

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS
quem vai ganhar: O Destino de uma Nação
quem pode: Extraordinário
quem surpreenderia: Victoria & Abdul
quem merece: O Destino de uma Nação
quem faltou: A Forma da Água

MELHORES EFEITOS VISUAIS
quem vai ganhar: Blade Runner 2049
quem pode: Planeta dos Macacos: A Guerra
quem surpreenderia: Star Wars: Os Últimos Jedi
quem merece: Blade Runner 2049
quem faltou: Okja

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
quem vai ganhar: Dunkirk
quem pode: Blade Runner 2049
quem surpreenderia: A Forma da Água
quem merece: Dunkirk
quem faltou: John Wick — Um Novo Dia para Matar

MELHOR MIXAGEM DE SOM
quem vai ganhar: Dunkirk
quem pode: Em Ritmo de Fuga
quem surpreenderia: Blade Runner 2049
quem merece: Dunkirk
quem faltou: Detroit em Rebelião

O Oscar deste domingo tem tudo para ser memorável. Afinal, quando foi a última vez que na categoria de melhor filme apostamos na produção que era, de fato, a melhor da lista? Eu, sinceramente, não me recordo. Corra! tem mil e um motivos pra ganhar. Não estou falando do momento, da causa, das aspirações ativistas de Hollywood em voga com a indústria. Não (embora seja uma questão válida no contexto participativo da indústria e na influência direta que isso tem na escolha dos vencedores). O caso é que Corra! — filme de estreia de um cineasta estreante, Jordan Peele, que teve dificuldades para angariar fundos para a produção independente e que passou quase 5 anos desenvolvendo o roteiro — é um filme que não faz muito sentido estar onde está, embora seja, de fato, um dos maiores filmes americanos do ano (se não for o maior, é claro). Tecnicamente, é um filme de terror voltado para uma crítica corrosiva e poderosa à cultura racista, que o faz com o brilhantismo de pouquíssimos longas recentes. É uma vitória que parece estar realmente acontecendo e com a devida justiça que essa obra deveria receber. É claro, nós temos o calor do momento, que sempre vai contar nos votos, mas, como eu disse, ficar re-frisando os vícios da indústria quando já estamos estourados de tantos exemplos é o mesmo que chover no molhado. 

Como seu potencial concorrente, Três Anúncios para um Crime, filme que mistura humor negro e drama para contar a história de uma mãe buscando vingança pela morte da filha numa cidadezinha do interior, arrecadou inúmeros prêmios e um favoritismo absurdo em categorias de atuação e roteiro. É cotado para melhor filme (e tem muitas razões para sê-lo) mas de alguma forma o filme, nos caminhos pedregosos que toma, pode não soar tão apropriado, já que sua tendência é dividir mais do que chegar a uma unanimidade. Então, isso já entra como uma inclinação desfavorável, mas não totalmente desqualificadora.

Vale lembrar que, do lado desses dois filmes, A Forma da Água surge com peso (sendo o líder de indicações dessa edição) e um favoritismo quase unânime, embora duvidável — e isso pode ser dito até mesmo em vista da presença dele em diversos prêmios, que por um lado o garantiu arrebatadores reconhecimentos e, por outro, o distanciou de outros (ausentou-se no SAG, esnobado no BAFTA e Globo de Ouro — porém, vencedor do PGA, prêmio importante que, em contrapartida, teve seu último vencedor repetido no Oscar há três anos). Seu diretor, Del Toro, é um favorito inegável. Quanto ao filme, restam dúvidas, mas ainda sobra uma centelha de esperança para que a "fábula adulta" do cineasta mexicano acabe fazendo a noite desse Oscar 2018. Não é impossível, de todo modo. Aliás, segundo minhas previsões, vai acabar sendo o filme que mais vai levar Oscars nessa edição.

As categorias de atuação seguem tão misteriosas quanto previsíveis — esse é o ano em que todos os quatro vencedores parecem estar decididos, numa unanimidade atípica na história dessa temporada de premiações, quase escandalosa, pra dizer a verdade — mas eu prevejo que pelo menos em 1 dessas a Academia vai optar por uma outra escolha. É difícil dizer quem vai ser esnobado, mas eu não sei se é possível que as quatro escolhas permaneçam assim ao longo da temporada com um favoritismo tão inabalado. Chega a ser até chato, por um lado.

Este Oscar deve trazer reconhecimentos também para profissionais que há muito mereciam. Como é o caso de dois cineastas veteranos, a francesa Agnès Varda e o britânico James Ivory, e um cineasta com uma reputação mais atual, o mexicano Guillermo Del Toro, do diretor de fotografia Roger Deakins, do compositor Jonny Greenwood (este em uma rixa acirrada com Alexandre Desplat), da atriz Allison Janney (outrora esnobada injustamente por tantos bons papéis coadjuvantes como em Margaret e Distante Nós Vamos), do injustiçado Gary Oldman, que surgiu como um inabalado frontrunner desde os primeiros momentos da temporada, e também (porém com menos chances), a atriz e diretora Greta Gerwig, confirmada como uma das mulheres mais influentes e importantes do cinema americano contemporâneo, que pode surpreender se ganhar um prêmio por dirigir ou escrever, o merecimento é incontestável, por mais que o filme esteja correndo por fora das apostas, mas com uma presença forte que com certeza pode ajudá-lo a sair com algum reconhecimento, se a Academia for generosa e justa esse ano.