sábado, 12 de agosto de 2017

NU (2017)


No começo de "Nu", o personagem de Marlon Wayans, professor de literatura, faz uma comparação entre dois livros, "O Apanhador no Campo de Centeio" (livro que aborda um dia na vida de um jovem riquinho de Nova York refletindo sobre suas atitudes e o mundo que o cerca) e "O Senhor das Moscas" (este segundo, defendido pelo professor num argumento com um aluno seu durante esta mesma cena, relata a jornada de um grupo de jovens que acabam confinados em uma ilha deserta após um acidente aéreo, obrigados a retomar um certo espírito de selvageria e reminiscência social para sobreviver). Dado o contexto dessa cena (o professor e os alunos do ensino médio) tal comparação é até compreensível, natural, mas a referência feita a estes trabalhos literários ganhará um sentido maior no decorrer do filme. Vale lembrar que nessa mesma cena, rapidamente após o fim dos créditos, há um close-up em um relógio (o primeiro de muitos close-ups em relógios durante o filme todo) capaz de passar até despercebido, mas crucial para a dialética contemplada nesta comédia.

Há uma lógica que flui de uma maneira bastante interessante dentro do novo trabalho de Michael Tiddes (diretor do horrível "50 Tons de Preto") e é essa mesma lógica que, dado um certo contexto, garante a metalinguagem à qual maneja o protagonista da história, um homem que revive o mesmo período de uma hora várias vezes justamente no dia de seu casamento (e nota: este se encontra nu em um elevador de um hotel no momento em que deveria estar na igreja, onde sua noiva o espera), um dilema que, por sua vez, está diretamente relacionado à  "nudez", sim, aqui é a metáfora da desmistificação de uma expectativa em torno de realidades que se concatenam, de crenças que parecem nos prender a uma mesma rotina, a um mesmo momento, de uma repetição aparentemente banal, para depois provar (e demonstrar) o cerne de todo um subtexto cinematográfico, que aqui se apoia justamente nessa brincadeira ingênua com o personagem principal, despido (literal e figuradamente) de todas as suas certezas.

Daí, o filme se dedica a não apenas relativizar essa jornada do personagem em busca da descoberta do próprio casamento (o que está ainda mais ligado à filosofia de "Feitiço do Tempo": o teste da nossa própria existência frente à iminência de uma dúvida, de uma exposição que põe em risco nossas próprias perspectivas, anula qualquer julgamento para dar origem a um humor escapulido, pelado, fugitivo, exposto, sempre procurando uma saída) mas também à justificação do eco dessa metalinguagem que se afirma em diferentes níveis, seja na confrontação de um repertório, da ressignificação de uma série de persuasões roteirísticas e também das repetições que se refletem no filme, seja na fala das próprias personagens ou nesse jogo de proporcionalismos e dimensões.

E se o filme nem sempre acerta numa tentativa (as soluções fáceis até poderiam passar, mas o ritmo que se apressa para poder fornecer uma continuidade meio imprecisa) pelo menos sai bem nessa questão de poder tanto reinventar a própria lógica e associá-la a uma metalinguagem que flui no mesmo volume de sua simplicidade. É um filme que não quer muito, parece querer apenas ser um entretenimento, mas acaba surgindo toda uma funcionalidade curiosíssima por trás de um aparente mecanismo de roteiro. Se Tiddes errou feio na sua "revitalização" do erotismo de "50 Tons de Preto" em substituí-lo por uma estilização fraquíssima da comédia, em "Nu" a configuração do gênero casa muito bem com o dispositivo metalinguístico.

Sim, estamos falando de um besteirol, com suas piadas imaturas (e surpreendentemente aqui estas não são tão frequentes quanto eu esperava) e seu humor bizarro e politicamente incorreto, bem como suas irregularidades. Podia ser mais um besteirol do catálogo de originais da Netflix, mas o que eu acabei encontrando foi uma agradável surpresa. Cinema em lugares inesperados: imprevisto, mas nunca uma coisa impossível. Aliás, no cinema, tudo pode acontecer. Tudo é possível. Até mesmo você ficar preso numa mesma hora no dia do seu casamento. Nu.

Nu (Naked)
dir. Michael Tiddes
★★★

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