sábado, 17 de setembro de 2016

Crítica: "CAFÉ SOCIETY" (2016) - ★★★★½


Woody Allen está de volta, com um filme que pode ser muito bem considerado um seus trabalhos mais charmosos, elegantes, requintados e apaixonantes. Café Society possui um charme próprio, que conspira a seu favor. A beleza narrativa e visual dessa crônica amorosa ultrapassa e minimiza quaisquer falhas do filme em si, que na verdade são mínimas, imperceptíveis, ininfluenciáveis à qualidade e versatilidade deste. 

Café Society é o 46º longa-metragem de Woody (sem contar com Contos de Nova York). O longa foi selecionado para abrir o 69º Festival de Cannes em maio desse ano. É o terceiro filme do diretor a realizar esse feito. Os anteriores foram Meia Noite em Paris em 2011 e Dirigindo no Escuro em 2002. O filme Contos de Nova York, que tem um segmento dirigido pelo cineasta, também abriu o festival em 1989. 

Se alguns o celebram como o melhor filme do Woody em anos (o que é um pouco controverso, já que muitos afirmam isso levando em conta a “má fama” de projetos recentes anteriores do diretor, que foram tão mal-recebidos pela crítica/imprensa, o que acabou sujando a reputação desta que está sendo pintada como a “pior fase” do cineasta – algo que pra mim não faz o menor sentido – mas de qualquer forma a afirmação de jeito algum é errônea, não deixa de ser justa, levando em conta que este é realmente um marco da filmografia dele, um destaque, digamos), o público e os fãs ficarão surpresos em constatar uma fotografia magistral, completamente incomparável a outros títulos, e que pode ser tida como a grande preciosidade deste novo filme de Allen. No entanto, não é a única. 

Kristen Stewart, fabulosa e estonteante, brilha em uma de suas personagens mais belas, a jovem Vonnie, secretária e amante de um poderoso agente de Hollywood, Phil (Steve Carell). Ela é por quem se apaixona o sobrinho novaiorquino deste agente, Bobby (Jesse Eisenberg), que se muda para Hollywood na esperança de trabalhar com o tio no ramo cinematográfico. Vonnie fica divida entre Phil, seu grande amor, e Bobby, por quem também tem sentimentos, ainda que duvidosos. O triângulo amoroso toma rumos quase que inesperados, quanto a gente vê que o agente está realmente apaixonado pela mocinha, contrariando a expectativa de que aquele romance seria algo passageiro, e que Vonnie provavelmente seria iludida por Phil.  

O elenco também traz Blake Lively, no segundo ato, na pele de Veronica. Ela está fantástica, especialmente naquela cena belíssima onde o Bobby a leva para um barzinho de jazz de madrugada, um momento de luxo e prazer que deixa o espectador nas nuvens. Corey Stoll (o Ernest Hemingway de Meia Noite em Paris) interpreta um gangster barra-dura, irmão de Bobby, e dono da boate onde este passa a trabalhar na 2ª metade do filme. Parker Posey, que esteve no anterior, Homem Irracional, interpreta uma socialite renomada.

Café Society ostenta beleza, sofisticação e riqueza técnica. Woody Allen é o narrador desta vibrante e triunfal história de amor, que nos cativa e emociona, encanta e maravilha, a todo instante. Woody mais uma vez desfrui da magia, da formosura e da sublimidade dos anos 30 como plano de fundo desse conto apaixonado e embelezado, que esbanja primor e transborda grandiosidade. É um filme enfeitiçante, gostoso de se acompanhar e que não sai da nossa cabeça. 

O visual paradisíaco do filme (a fotografia saturada, em tons nítidos, esfumados) faz referência ao cinema daquela época; aliás, não só dessa maneira Woody faz questão de relembrar e recriar os tão maravilhosos e espetaculares anos 30 e o cinema desse tempo, mas também lançando várias e diversas referências à filmes, estrelas, estúdios, e etc., projetando todo um iconismo cinematográfico em torno do longa, com um olhar de admiração e respeito ao cinema e à cultura fílmica dos anos 30.

O mais interessante é que, mesmo com uma filmografia tão diversa, com filmes tão autênticos e completos, Allen consegue se reinventar em seu 47º longa-metragem e trazer um filme tão excepcional e original como Café Society, que no quesito qualidade está um passo à frente. O filme surge com uma premissa sutil e descomplexada que se aprofunda como uma meditação válida sobre a vida, a ilusão, o amor, o tempo e as virtudes nostálgicas. 

Woody arquiteta sua trama de maneira apaixonada e ao mesmo tempo conformista, sem necessariamente ser pessimista-cético. Cada vez mais, o diretor parece certo de enxergar na beleza, no amor e no humor um sentido para a vida, vida essa que ele tanto protestava ser sem sentido, incompreensível e irreal. E no fundo, a vida é tudo isso e mais. Mas não vale a pena viver pelo amor, ou pela beleza? Qual seria a “lição de moral” de Café Society, que termina de uma forma um tanto melancólica e vaga, mas com um toque embriagado de suntuosidade?

O certo é que mesmo o amor mais profundo e verdadeiro pode ser um grande mistério. Ninguém escolhe amar – ou ser amado, ainda mais. O coração age por si mesmo. Ele está pouco se fodendo para o que a nossa cabeça quer ou está pensando. Os nossos sentimentos estão à solta. Afinal, um rostinho bonito pode ser bastante atrativo (assim como também pode enganar), mas o caráter e a personalidade contam mais. Tratando-se de um filme tão visualmente impecável (o diretor de fotografia é Vittorio Storaro, o mesmo de clássicos como Apocalypse Now e O Último Imperador), me pergunto se Woody teria proposto essa coincidência de forma a sugerir ironia? De uma forma ou de outra, Café Society é um filme brilhante. Um dos mais bonitos e delicados que eu vi esse ano. Woody Allen faz 80 anos e o presente vai para o espectador: uma obra formal, magnífica, inteligente, poética, estilosa e cheia de glamour. Impossível resistir. Lindo do começo ao fim. 

Café Society
dir. Woody Allen - ★½

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