segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Crítica: "QUANTO MAIS QUENTE MELHOR" (1959) - ★★★★★


Às vezes a muvuca do circuito e dos filmes que vão entrando em cartaz é tão grande que a gente acaba deixando de lado os filmes antigos ou clássicos para ver. Foi o caso de 2015, ano em que eu estive tão atarefado com as estreias que acabei deixando os outros pra outra hora e acabei me embolando todo. Por isso, esse ano darei prioridade aos clássicos e tentarei me desvencilhar dos lançamentos. Quer dizer, tentar eu vou tentar, mas do jeito que as coisas andam não se tem garantia de que manterei a promessa por muito tempo, ou no ritmo intencionado.

Enfim, não estou aqui pra prever o futuro, mas sim para falar sobre Quanto Mais Quente Melhor. Rapaz, sou um grande fã do Billy Wilder (o considero um dos maiores diretores) mas confesso que até hoje nunca tinha conferido este aqui dele. Já vi Crepúsculo dos Deuses, Se Meu Apartamento Falasse entre outros, mas acho que dos essenciais eu só não tinha visto esse aqui, Farrapo Humano (faz um tempo parei pra conferir no TC Cult mas só vi o começo, e gostei do que vi) e Pacto de Sangue. Pois é, vexaminoso. 

Ao contrário dos dois últimos citados, Quanto Mais Quente Melhor é um trabalho mais leve, descontraído, e bem menos pesado e rigorosamente dramático. Acho que da filmografia do Wilder este aqui é bastante semelhante a Se Meu Apartamento Falasse, que veio ao mundo poucos anos depois de Quanto Mais Quente Melhor. Se bem que Se Meu Apartamento Falasse puxa pro lado dramático também, mesmo que seja cômico, então...

A simpática comédia de Billy Wilder, a provável melhor já feita por ele, desfila sob um humor atrativo fácil de conquistar e chamar a atenção. Quanto Mais Quente Melhor carrega um frescor atemporal e seduz o espectador aos poucos. Não há como resistir. A suavidade de uma narrativa serena e bem construída carrega o espetáculo. E, além de tudo, é divertido pra caramba. Nunca pensei que ia gargalhar tanto. É um clássico extremamente obrigatório para todo amante da 7ª arte. É inesquecível, é deleitoso.

Estamos no finzinho dos anos 20. Chicago. Jack Lemmon e Tony Curtis vivem dois músicos que acidentalmente testemunham um terrível massacre e que, por sorte, conseguem escapar antes de serem aniquilados por uma trupe de mafiosos. Eles querem que querem sumir de vez da cidade, mas não sabem como. Estão desempregados, passando frio, endividados até o talo e desnorteados.

Até que a ideia perfeita (até a segunda página) bate à porta: os instrumentistas se fantasiam de mulher para conseguir integrar uma banda de moças que está partindo para a Flórida. Tudo sai como planejado, até que a vida lhes prega uma peça: a linda Sugar (Marylin Monroe, no auge de sua beleza), que está na banda, atravessa o caminho dos dois rapazes, deixando-os doidos de amor.

Os personagens de Jack e Tony estão vagueando sem rumo, por conta própria, perdidos e totalmente quebrados, tendo de arcar com apresentações musicais de quinta categoria (o funeral da vovó...). Já não bastasse toda a desgraça que os acometera (aperto financeiro, vida amorosa, sucesso, tempo...) aí vem uma gangue de mafiosos arruaceiros e pinta uma carnificina diante dos olhos dos músicos. Os caras chegaram no fundo do poço: estão sendo caçados, sem teto, sem grana, sem praticamente nada a não ser seus próprios instrumentos, o falho ganha-pão dos amigos, mas não perdem a pose.

A questão aqui não é ser esperançoso: a questão é escapar. Sua vida pode ser uma comédia ou pode ser uma tragédia. Tudo depende da sua escolha. Aquele que escapa não é miserável. A gente tem que aprender a seguir em frente, a fugir da tragédia. Escapar dos dramas da vida é necessário. No filme de Billy, a tragédia propulsiona a comédia. É assim que deve funcionar.

Quanto Mais Quente Melhor não chega a ser um filme pastelão, mas esse é o efeito. A boêmia espiritual decora essa comédia infinitamente engraçada e recheada de sequências icônicas e lendárias. Wilder exercita seus super-poderes de roteiro novamente ao lado do colaborador de longa data I.A.L. Diamond, que concluem um trabalho genial, astuto, comovente. Os diálogos são afiados e ágeis, perfumados com uma comicidade elétrica. As piadas conduzem o contraponto irônico de uma trama sobre dois azarentos dançando pra valer e tentando lidar com as mundanices da vida sempre com um sorriso estampado na face.

A participação de um elenco talentoso ajuda na estética dedilhada e bem esculpida que o longa prismatiza. Quanto Mais Quente Melhor é uma obra adorável, uma comédia doce, simples, aconchegante e milimetricamente deliciosa. Resumindo de vez: um clássico atemporal e eternamente plausível. Serão raríssimas as chances em que se terá a oportunidade de ver um filme desse naipe na história. A trama se multiplica e não demora pra abraçar de vez o espectador e transmitir um sentimento de glória e emoção inapagável. É muito primoroso. É primoroso demais. É simplesmente Wilder, é simplesmente o melhor do cinema. E, pra acabar, deixo um recado: "ninguém é perfeito".

Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot)
dir. Billy Wilder - 

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