quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Crítica: "POUCAS E BOAS" (1999) - ★★★★


Esses dias ando muito ocupado, tanto que creio que nunca estive tão abarrotado de coisas pra fazer como estou agora. O jeito vai ser sacrificar as minhas madrugadas pra ver se dou um jeito nesse blog e quito meu débito com os filmes que ainda precisam ser resenhados. Sem falar naqueles que precisam ser assistidos. E não vai ser esse ano que vou ver todos os filmes do Oscar, de novo e infelizmente, antes do prêmio, que acontece daqui a aproximadamente uma semana. Pra animar um pouco as coisas, decidi ver um filme do Woody Allen. É um calmante embriagador. O escolhido dessa vez foi o excelente Poucas e Boas

O filme é o último da fase anos 90 do diretor, e recebeu duas indicações ao Oscar 2000, em Melhor Ator e Atriz Coadjuvante. Sabe, já que entramos no assunto, convenhamos: a Academia deve ser doida. Woody Allen recebeu mais indicações em Roteiro do que qualquer outra pessoa na história do prêmio, e isso conta desde os filmes mais conceituados dele, como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Manhattan, até os menos famosos, como Simplesmente Alice, Maridos e Esposas e Poderosa Afrodite. Agora, quando vem um filme bom, e que merecia ser indicado, os caras tem a pachorra de deixar o trabalho fora da lista. E não que eu esteja dizendo que os filmes indicados não mereciam estar lá. Dá até inveja do Woody ser esse roteirista potente que parece não errar nunca a mão. Mas Poucas e Boas, embora não seja o melhor filme dele, é uma peça notável e que merecia mais consideração. 

Poucas e Boas é sobre Emmet Ray, um suposto gênio do violão que teria sido uma das maiores figuras do jazz e o possível melhor violinista de todos os tempos apenas perdendo, nas palavras dele, para "um certo cigano da França". Não sei se é spoiler o que estou a comentar, mas de qualquer maneira se você não viu o filme vá ver e depois passe aqui para se informar: Emmet Ray não existiu, foi uma invenção da mente do Woody (ou não). Há controvérsias, já que no próprio filme ele é desenhado como um artista vagabundo que só teve fama em pequenos bares e casas noturnas em Nova Jérsei, e que não foi reconhecido ou aplaudido à altura. De qualquer maneira, a história é bacana e o desenvolvimento do filme é show. A história sendo ou não verdade, vale ressaltar que há múltiplas interpretações para essa história.

Emmet Ray é pintado como um homem egoísta, engolido pela sua própria ambição e talento, que rejeitava a todos ao seu redor, se embebedava e, após longas noitadas, acordava em outros estados (tem uma cena em que ele está em Chicago, se eu não me engano, e acorda na Pensilvânia); era arrogante, egocêntrico, trabalhava como cafetão nas horas vagas (a cena inicial mostra ele discutindo com uma prostituta sobre a morte de um dos clientes durante o ato sexual, por conta de um ataque cardíaco) e que sempre fazia o máximo para alcançar o tão almejado sucesso não importando a quem ele fosse machucar. Apesar do dinheiro, ele nunca foi além dos clubes noturnos quanto à expansão da sua arte.

Ray manteve um relacionamento por um longo tempo com uma jovem muda e deficiente mental/psicológica, Hattie (interpretada belamente por Samantha Morton, na performance de sua carreira), típica jovem garota comilona dos filmes do Woody. Emmet, em prol do seu lado artístico, se privava do amor, temendo que qualquer relação amorosa poderia destruir sua carreira e consequentemente o poder da sua arte. 

Embora na época tenha sido aclamado como comédia, Poucas e Boas termina como um drama, algo que está até mesmo concentrado na própria premissa deste, que é a de retratar a vida de um artista e o árduo caminho que ele tem de encarar, bem como seus demônios e suas vaidades, para trilhar a fama e o reconhecimento. Se Emmet existiu, fica uma ironia bem atribulada: um artista de peso, um possível ícone do jazz, que perdeu tudo, a sua arte, sua fama, seu amor e sua própria existência pelas vaidades e pela irresponsabilidade, em não saber lidar com o seu talento e com a pose de artista. Foi tão insucessível no seu sonho que acabou como estrela de um filme dado como pseudo-biográfico. Ou não, é lógico. Que mistério gostoso esse. 

Levemente baseado em A Estrada da Vida, de Fellini, Poucas e Boas conta com um elenco primoroso e esforçado. Sean Penn não mediu esforços para encarnar o fictício (ou não) Emmet Ray, tendo tido por um bom tempo aulas de violão para poder realizar no filme aquelas sequências deslumbrantes que lembram da trilha sonora de Vicky Cristina Barcelona, visto primeiro. A performance de Sean é uma pérola, um dos itens mais valiosos deste filme e da que tornam de Poucas e Boas um trabalho singular na filmografia do Woody. 

O diretor capricha, mais uma vez, num retrato bonito e divertido dos anos do jazz e da boêmia, tudo dedicado à grande paixão do cineasta fora o cinema, que é o jazz. Tiros na Broadway também se equilibrava no empenho técnico por trás de um retrato absurdamente bom de uma época legendária, mesmo que esteja distante de ser um filme sobre jazz. Poucas e Boas marca a parceria de Woody que durou três anos com o diretor de fotografia chinês Zhao Fei, que viria a trabalhar nos seguintes Trapaceiros e O Escorpião de Jade, consecutivamente. Poucas e Boas é o melhor falando de fotografia.

E, vejam só, que coisa interessante: o Woody Allen, que já demonstrou preferência em trabalhar com diretores de fotografia estrangeiros, só trabalhou, ao longo de toda a sua carreira cinematográfica, com apenas 5 diretores de fotografia americanos em 10 filmes (Gordon Willis, Lester Shorr, Harris Savides, Andrew M. Costikyan e David M. Walsh). O resto é tudo forasteiro. Já que tocamos no assunto fotografia, o lendário italiano Vittorio Storaro (o mesmo cara de Apocalypse Now, O Último Imperador, Último Tango em Paris, Reds, O Conformista e Dick Tracy) é o diretor de fotografia do próximo filme dele, ainda intitulado (numa entrevista, o cineasta revelou estar em dúvida entre Poets of New York e Rain in the City). 

Poucas e Boas seduz o espectador, um misto intenso de música, romance e filme de época. Sean e Samantha, inesquecíveis. Woody fabrica um longa memorável e elegante, cheio de momentos brilhantes. Também merecem menção Uma Thurman (linda, como de costume), Anthony LaPaglia e o cineasta John Waters, num papel pequeno, e Gretchen Mol. Woody Allen, apesar de não atuar, aparece comentando em rápidos depoimentos ocasionais sobre o músico. Poucas e Boas (esse título nacional é tão charmoso!) marca a primeira parceria de Woody com a produtora Sony Pictures Classics. O cineasta só viria a trabalhar novamente com a empresa dez anos depois, em Tudo Pode Dar Certo. Desde então, os últimos seis filmes dele também foram assinados pela produtora.

Poucas e Boas (Sweet and Lowdown)
dir. Woody Allen - 

Nenhum comentário:

Postar um comentário