quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Crítica: "IN THE LOOP" (2009) - ★★★★


Taí um grandioso exemplo de sátira política, que soma toques exagerados de humor negro, a competência de um elenco e o controle de um gênio absolutamente imprescindível, Armando Iannucci. Inspirado no seriado britânico The Thick of It, In the Loop, estreia cinematográfica de Armando, típica comédia sorriso-canto-de-boca, não vai provocar altas gargalhadas nem nada do estilo, apesar da acirrada verborragia que acaba, por vezes, penetrando no imaginário cômico do público, mas capricha num humor de qualidade raramente visto, ainda mais num filme que dribla política e um gênero tão complicado de se trabalhar. O filme não passa de takes locados em gabinetes, prefeituras, departamentos, aeroportos, comitês, focados num inusitado personagem, o ministro Simon Foster, enquanto tenta amenizar os efeitos de um catastrófico, acidental e polêmico depoimento que gera consequências inimagináveis.

Na Inglaterra, Foster enfurece Malcolm Tucker, o diretor de comunicações do primeiro-ministro, seu colega sarcástico e boca-suja que parece não suportar o trabalho de tanto reclamar e maldizer os tropeços da trupe dele. O novato Toby Wright passa a acompanhar Simon em suas viagens, frequentes, e reuniões, e especificamente vivenciar a tensão de trabalhar ao seu lado. Nesse depoimento "fatal", Foster citou uma "imprevisível guerra", algo que alerta os E.U.A. de um possível conflito e gera o maior tabu.

Em outro ponto, Simon volta a citar tal guerra usando um confuso exemplo de um avião, um congestionamento, e uma montanha, o que novamente é motivo de falatório. Entre comitês que não resultam em nada e furos confidenciais, a trama explosiva de In the Loop ganhou minha aprovação, até porque fica bem ridículo exigir de um filme sem ao menos ter o visto e receber como resposta uma revanche bem justa à essa expectativa com diálogos inteligentes e passagens divertidíssimas, e ainda não gostar do filme. Certamente, In the Loop fez por merecer. 

A comédia desmascara de vez a política e a despe numa vertiginosa jornada adentro seus personagens eufóricos e suas manias de autoridade impulsivas, o que é extremamente delicioso. Enfim, é Armando Iannucci. Tudo lembra mesmo um pouco de Veep, ainda mais o núcleo americano, que ainda tem a Anna Chlumsky roubando a cena. O Zach Woods, do The Office, também deixa In the Loop com um arzinho meio pseudo-documentário, embora não seja (oficialmente). O uso de contextos simbólicos e piadas infladas fortificam o senso hilário de toda a história, estrategicamente falando.

Afinal, como eu mesmo vivo proclamando, política posa de séria, mas no fim é um monte de nada. No fim, só nos resta rir das situações constrangedoras que essa área vitimiza. E quem é melhor do que Armando Iannucci para fabricar comédias tão boas como essa? Tão sarcásticas e malévolas, mas no fundo humanas, que tentam racionalizar a esperança e o comportamento humano dentro de um setor que porta um caráter tão nervoso, rígido por natureza, mas que na verdade não passa de uma enorme brincadeira. Política é isso, minha gente. A intenção não é entendê-la, mas sim desfrutar da confusão que ela é. In the Loop, por essas e outras mais razões, é uma obra sinceramente engraçadíssima e versátil, e com certeza merece ser vista, ainda mais em virtude da situação atual da política brasileira.

In the Loop
(título não-oficial no Brasil: Conversa Truncada)
dir. Armando Iannucci - 

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. Nossa, assisti ao filme ontem; não tinha sequer ouvido falar... Grata surpresa!
    Dinâmica vertiginosa, humor inteligente e elenco adequadissimo! Mostra a banalidade com que grandes questões são tratadas por todos os governos. Recomendo fortemente (disponível na Netflix)!
    Aliás, gostei e concordo com sua crítica, Lucas Augusto. Equilibrada!

    ResponderExcluir
  3. Nossa, assisti ao filme ontem; não tinha sequer ouvido falar... Grata surpresa!
    Dinâmica vertiginosa, humor inteligente e elenco adequadissimo! Mostra a banalidade com que grandes questões são tratadas por todos os governos. Recomendo fortemente (disponível na Netflix)!
    Aliás, gostei e concordo com sua crítica, Lucas Augusto. Equilibrada!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Foi lá que eu vi também. Um filme sensacional. E obrigado pelos elogios, César! :D

      Excluir