sábado, 13 de junho de 2015

Crítica: "SAMBA" (2014) - ★★★★



O talentoso francês Omar Sy, que em 2011 interpretou Driss no grande sucesso Intocáveis, dirigido por Eric Toledano e Olivier Nakache, retorna a fazer uma atuação incrivelmente maravilhosa nessa comédia dramática excelente, que marca mais uma parceria entre a dupla cineasta e este talento virtuoso. Samba é uma obra deliciosa. Simplesmente deliciosa em todos os imagináveis ângulos. 

Consigo traz a história desoladora e marcante de um imigrante ilegal senegalês chamado Samba Cissé que realiza pequenas tarefas quando surge a oportunidade. Vivendo com o tio Lamouna, que possui visto, Samba acaba sendo preso devido a um imprevisto em função de sua legalidade como imigrante no país, o que faz com que ele vá parar diante de Alice, uma agente do governo depressiva que trabalha numa ONG. Alice simpatiza com Samba e quer que ele consiga seu visto, apesar dos inúmeros conflitos que acabam por transtornar a jornada de ambos. Após sair da prisão, eles iniciam um relacionamento amigável, marcado por situações de risco e muitas emboscadas.

A imigração é um assunto que vem ultimamente sendo primorosamente retratado no cinema. Dheepan, dirigido por Jacques Audiard, que venceu a Palma de Ouro em Cannes esse ano, retrata o mesmo tema de Samba: a imigração. Não sei ainda Dheepan, mas Samba realiza um feito extraordinário e sucessivamente bem-realizado sobre o tema, equilibradamente. Meio drama, meio comédia, não demora muito para que Samba inicie a despertar no espectador as emoções mais afloradas em virtude de sua intensa trama. 

É um filme que choca, provoca. Mais do que uma simples comédia, ou um profundo drama... é um retrato, absurdamente real da vida de não só Samba, mas de um gigante grupo de pessoas que atravessa exatamente a mesma situação que ele. Um bom exemplo é um colega próximo de Samba, um argelino que usa uma identidade falsa, Wilson, para trabalho, e com essa identidade a nacionalidade de brasileiro, que o força a se comportar como um e até mesmo falar como um. 

Apesar da seriedade do retrato, Toledano e Nakache esculpem na tela algo bem mais otimista do que a própria realidade em si, algo que pode deixar o espectador em certos momentos chateado. Mas Samba, confesso, em certos momentos me lembra intensamente de Ferrugem e Osso, também de Audiard. O filme não retrata a imigração, nem nada do que se possa igualar a Samba, mas eu senti, brevemente, uma conexão entre eles. Talvez tenha sido algo emotivo. Samba, sobretudo mostrando a relação amorosa de Alice e Samba, me lembra fielmente de Apenas uma Vez, do fabuloso romance não-assumido do músico e da florista. 

Samba, no fundo, soa bem mais como comédia do que drama, pensando bem. A tragédia é presente, só que ainda sim permanece no fundo, esteticamente constante mas encoberta pelo humor da situação e do jeito como a história transparece. Não acredito que Samba seja um filme superficial por conta disso. Muito pelo contrário. O filme é nesse ponto genial, justo por saber equilibrar de maneira tão excêntrica e cordialmente inteligente a comédia, o drama e o romance presentes dentro da história de Samba.

Não acho a história superficial, só que com certeza ela poderia ter ido bem além de onde ela terminou. Digo, a história poderia ter cavado mais fundo. Arriscar mais possibilidades, ou atenuar o conflito, sinceramente seria bem preciso. Não acuso o filme de superficialidade, mas que era possível ter ido além, era. Omar Sy, que estava brilhante ao lado de François Cluzet na infalível tragicomédia Intocáveis, o maior filme dirigido até o momento por Olivier e Eric, aqui faz um personagem, talvez, mais sério do que o realizado no longa que o deu um César em 2012. Bem que ele poderia receber outro esse ano por sua interpretação como Samba, que, acredito ser tão boa quanto a que ele deu anteriormente em Intocáveis.

A bela Charlotte Gainsbourg é uma atípica surpresa deste longa. Até que seu melancólico papel carrega consigo pontos engraçadíssimos ao longo de tanta confusão e tensão que tanto embalam e sacodem o percurso da história. Inevitável dizer que a francesa está incrível como Alice (merece atenção especial no final meticulosamente enigmático e divertidamente irônico). Protetora e maior "fã" do imigrante Samba, ela demonstra caridade, paixão e admiração por ele, a quase todo momento do filme desde o início, protagonizando ao lado dele cenas intensas e bem confortáveis. 

Um milagre Samba ter chegado aqui no Brasil. Há pouco tempo, nem havia previsão de estreia. O longa atualmente está sendo exibido no conceituado Festival Varilux de Cinema Francês, do qual tive a grande chance de participar neste ano. A estreia nacional do filme pela Califórnia Filmes está datada para o dia 9 de julho. Ver Samba não teve preço. Aliás, teve sim. É um filme que totalmente faz jus ao preço do ingresso, que, por essa sessão, merecidamente deveria valer bem mais. Samba é um filme por demais precioso. Recheado com uma agradável humanidade, além de cenas espirituosas e dramáticas, Samba é um longa naturalmente primoroso, tanto por seu dedicado elenco, tanto pela forte história, quanto por sua qualidade inestimável.

Samba
dir. Eric Toledano & Olivier Nakache - 

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