sábado, 13 de abril de 2019

A TURBA (1928)


Uma dessas pérolas únicas do cinema mudo, "A Turba" exala simplicidade e, porque não, inocência, com a mesma energia que celebra um e outro, nessa sensível ode ao homem comum americano, equilibrando tristeza e alegria com os dramas da história de um amor, casamento, família, trabalho e as atribulações da vida de gente comum, como eu e você.

O que mais comove aqui é a forma como o filme (e essa é uma herança do cinema daquela época) se sente, e se torna completo com a sua própria sutileza, com leveza e charme (aquela cena da primeira noite juntos no trem consegue ser expressiva com tão pouco, e com tamanha honestidade, que é impossível não ficar comovido com a timidez, o humor dela).

Mais bonito é observar as tensões que vão surgindo e como elas são delineadas, de maneira que sempre tenha um equilíbrio muito evidente entre drama e romance. As performances são essenciais pra reforçar essa simplicidade, a ideia de que o filme é construído em cima da beleza do ordinário, o particular que vem do geral.

É interessante que essa seja uma essência muito própria do cinema mudo, de encontrar valor cinematográfico em gestos puros, em premissas bem inocentes, mas que são felizes nesse formato, sem precisar de reforços para deixar seu recado (e que, de certa forma, é uma das maiores influências deixadas por esse cinema, que não se perdeu com o tempo).

É um filme feliz pela sua natureza, contente em filmar seus personagens e as situações aparentemente banais em que se envolvem, mas o jeito como ele se desenlaça, e extrai dessa banalidade beleza, afirmação e encantamento, é comovente demais pra passar em branco. "A Turba" me surpreendeu. É delicado ao retratar dor e amor, sempre falando sobre o que une todos nós, como retirar alguém aleatório de uma multidão e fazer uma história com que possamos nos identificar, plena e humana.

A Turba
The Crowd
dir. King Vidor
★★★★★

WON'T YOU BE MY NEIGHBOR? (2018)


Um belíssimo documentário, necessário pra gente lembrar que amor, bondade e generosidade fazem toda a diferença num mundo cheio de doenças. Inspirador também, porque faz comentário social/político ao mesmo tempo em que enaltece valores humanos e tão profundos, e que precisam sempre ser relembrados: o afeto que pode salvar uma pessoa, respeito, tolerância, a essência inerente do carinho, compreensão, igualdade, e, é claro, aceitarmos e amarmos uns aos outros como somos, e nos cuidarmos, nos protegermos em todos os momentos. 

Gosto das cenas em que o Fred está interagindo com as crianças, uma das coisas que mais me tocou foi perceber que crescer também é carregar dentro de si a infância, a beleza de ser e permanecer uma criança. E que o amor existe de todas as formas, e que ser amado é também um ato de humanidade. Talvez isso seja pessoal demais, eu só espero que as pessoas não fiquem cegas à relevância desse filme, saber que tem pessoas no mundo que ainda se importam com a gentileza é no mínimo gratificante. Uma lição de empatia, de positividade. Fiquei arrepiado com aquela sequência dos entrevistados pensando nas pessoas especiais em suas vidas.

Won't You Be My Neighbor?
dir. Morgan Neville
★★★★★

segunda-feira, 8 de abril de 2019

VICE (2018)


O menos querido dos indicados a Melhor Filme no Oscar desse ano, Vice é a (super) pretensiosa cinebio sobre o ex-vice-presidente dos EUA Dick Cheney (Christian Bale, em performance de caracterização deveras impressionante), que ocupou o cargo por oito anos durante a gestão de George W. Bush (Sam Rockwell, que foi indicado como ator coad. por este papel). O filme é dirigido por Adam McKay, que traz novamente os cortes rápidos e a edição fragmentada presentes no seu trabalho anterior, o frenético A Grande Aposta, usando sátira política repleta de exageros e inconsistências para costurar seu estranho retrato da política norte-americana. O resultado é decepcionante. Não há o tom político que tanto se almeja, as intenções nunca ficam claras, as críticas são lançadas mas o filme sempre encontra um jeito de recuar delas, focando no humor da situação e na caricatura dos personagens, sem nunca acertar o ponto, sem ter uma direção. Na falta de profundidade, Vice pretende a inovação (com uma boa dose de brincadeiras) sem nunca dar passos largos. Apela para reafirmações de seu projeto de humor e, grotescamente, é o mesmo humor que sabota qualquer proposta ou intenção louvável, qualquer chance de ser relevante. Curioso que um filme tão perdido assim tenha conseguido um número tão grande de indicações em diversos prêmios influentes. O elenco até encontra um equilíbrio, mas não consegue jogar a patifaria pra debaixo do tapete. Esses americanos precisam parar de querer ser engraçadinhos falando de política porque não tá funcionando muito. 

Vice
dir. Adam McKay
★★

domingo, 31 de março de 2019

Homenagem a Agnès Varda


Uma das perdas mais tristes. Agnès Varda nos deixou essa semana aos 90 anos. Ela foi uma das cineastas mais importantes não apenas da França, sua terra natal, mas do mundo. Foi a mãe da Nouvelle Vague, companheira de Jacques Demy (mestre do musical), rodou diversos filmes em mais de 50 anos de carreira, entre ficção, documentários e curtas, ganhou um Oscar recentemente e continuou produzindo filmes até esse ano (seu novo documentário está para sair). Em suas obras sempre manteve o amor pela vida, pela expressão, pelo cinema. Vai deixar saudade. Felizmente será lembrada, celebrada através do que deixou: grandes filmes, histórias, registros, poesia em forma de cinema. Em celebração do seu legado, aqui está minha lista das obras indispensáveis da carreira dela, lembrando que eu também tenho algumas anotadas e que devo ver em breve. Neste sábado, vi dois curtas e o belo Muros e Murmúrios. Muito grato pelo que Varda fez pelo cinema.

Adieu, Agnès. Merci pour tout. Vá em paz. Te amo. 

em ordem alfabética

Cléo das 5 às 7 
Os Catadores e Eu
Documenteur
Muros e Murmúrios
La Pointe-Courte
As Praias de Agnès
Os Renegados
Visages, Villages

na minha lista

As Cento e Uma Noites
As Criaturas
Daguerreótipos
As Duas Faces da Felicidade
Kung Fu Master
Lions Love (inédito)
Longe do Vietnã
Nausicaa (inédito)
Uma Canta, a Outra Não
Varda by Agnès (seu último documentário)

os curtas

Tio Yanco
L'Opera Mouffe
Panteras Negras
Resposta das Mulheres
Saudações aos Cubanos

domingo, 17 de março de 2019

Lumière de Ouro 2018 — Melhores do Ano


Aqui está o meu "Oscar pessoal" em sua quinta edição, com os meus votos para os melhores do ano no cinema em todos os aspectos. Decidi listar ambos os indicados e os vencedores no mesmo post. Aqui estão eles:

Regras de elegibilidade: filmes lançados comercialmente ou streaming durante o ano de 2018.
Mudanças: categorias de direção e elenco passam a ter um indicado a mais (sendo assim, seis indicados) e a categoria de melhor filme passa a ter 10 indicados. A categoria com mais indicados é melhor cena, com 12 selecionados.


FILME

Me Chame pelo seu Nome
Deixe a Luz do Sol Entrar
O Dia Depois
Feliz como Lázaro
Infiltrado na Klan
Mudbound
Ponto Cego
Projeto Flórida 
Roma
Trama Fantasma

DIREÇÃO

Alfonso Cuarón, Roma
Alice Rohrwacher, Feliz como Lázaro
Claire Denis, Deixe a Luz do Sol Entrar
Luca Guadagnino, Me Chame pelo seu Nome
Paul Thomas Anderson, Trama Fantasma
Spike Lee, Infiltrado na Klan

ATOR

Adriano Tardiolo, Feliz como Lázaro
Bradley Cooper, Nasce uma Estrela
Daniel Day-Lewis, Trama Fantasma
Daveed Diggs, Ponto Cego
Timothée Chalamet, Me Chame pelo seu Nome
Tracy Letts, Os Amantes

ATRIZ

Charlize Theron, Tully
Karine Teles, Benzinho
Juliette Binoche, Deixe a Luz do Sol Entrar
Saoirse Ronan, Lady Bird
Vicky Krieps, Trama Fantasma
Viola Davis, As Viúvas

ATOR COADJUVANTE

Rafael Casal, Ponto Cego
Jesse Plemons, A Noite do Jogo
Jonah Hill, A Pé Ele Não Vai Longe
Laurence Fishburne, A Melhor Escolha
Michael Shannon, A Forma da Água
Willem Dafoe, Projeto Flórida

ATRIZ COADJUVANTE

Alba Rohrwacher, Feliz como Lázaro
Carey Mulligan, Mudbound
Laurie Metcalf, Lady Bird
Leslie Manville, Trama Fantasma
Rachel McAdams, Desobediência
Millicent Simmonds, Sem Fôlego

CENA

A festa/revelação e beijo — Trama Fantasma
Mãe e filha no carro — Lady Bird
Sinal vermelho — Ponto Cego
Encontro no hospital — Três Anúncios para um Crime
Sequência final — A Forma da Água
O nascimento de uma nação — Infiltrado na Klan
A praia — Roma
A primeira noite — Me Chame pelo seu Nome
At Last — Deixe a Luz do Sol Entrar
Juntas na sinagoga — Desobediência
Lázaro reencontra a irmã — Feliz como Lázaro
O regresso do filho — Mudbound
Dança ao pôr-do-sol — Em Chamas

ELENCO

Feliz como Lázaro
Infiltrado na Klan
Lady Bird
Mudbound
Trama Fantasma
Três Anúncios para um Crime

ROTEIRO ORIGINAL

A Câmera de Claire, Hong Sang-Soo
O Dia Depois, Hong Sang-Soo
Lady Bird, Greta Gerwig
Ponto Cego, Daveed Diggs & Rafael Casal
Trama Fantasma, Paul Thomas Anderson

ROTEIRO ADAPTADO

Me Chame pelo seu Nome, James Ivory
Desobediência, Sebastián Lelio e Rebecca Lenkiewicz
Infiltrado na Klan, Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott e Spike Lee
Mudbound, Dee Rees e Virgil Williams
Pantera Negra, Ryan Coogler e Joe Robert Cole

TRILHA

Lady Bird — Jon Brion
A Forma da Água — Alexandre Desplat
Infiltrado na Klan — Terrence Blanchard
Sem Fôlego — Carter Burwell
Trama Fantasma — Jonny Greenwood

CANÇÃO
(EMPATE)

"Mighty River" — Mudbound
"Mystery of Love" — Me Chame Pelo Seu Nome
"I'll Never Love Again" — Nasce uma Estrela
"Shallow" — Nasce uma Estrela
"Visions of Gideon" — Me Chame Pelo Seu Nome

ANIMAÇÃO

Ilha dos Cachorros (Wes Anderson)
Neste Canto do Mundo (Sunao Katabuchi)
Paddington 2 (Paul King)
Viva: A Vida é uma Festa (Lee Unkrich)

DOCUMENTÁRIO

Dawson City: Frozen Time (Bill Morrison)
O Outro Lado do Vento (Orson Welles)
O Processo (Maria Augusta Ramos)
Visages Villages (Agnès Varda & JR)
Whitney (Kevin Macdonald)

FOTOGRAFIA
(EMPATE)


Trama Fantasma
Me Chame Pelo Seu Nome
Sem Fôlego
Deixe a Luz do Sol Entrar
Nasce uma Estrela

MONTAGEM

Em Chamas
Infiltrado na Klan
Roma
O Passageiro
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

DIREÇÃO DE ARTE

Trama Fantasma
The Post
A Forma da Água
Sem Fôlego
Roma

FIGURINO

Pantera Negra
A Forma da Água
Trama Fantasma
Roma
Sem Fôlego

SOM

Pantera Negra
O Primeiro Homem
Nasce uma Estrela
Roma
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

EFEITOS VISUAIS

Pantera Negra
O Primeiro Homem
A Forma da Água
Ilha dos Cachorros
Paddington 2

MAQUIAGEM

A Forma da Água
O Destino de uma Nação
Pantera Negra
A Morte de Stalin
Sem Fôlego

DIRETOR ESTREANTE

Aneesh Chaganty — Buscando
Bradley Cooper — Nasce uma Estrela
Carlos López-Estrada — Ponto Cego
John Krasinski — Um Lugar Silencioso
Xavier Legrand — Custódia

TOTAL DE PRÊMIOS:

6 — Trama Fantasma
3 — Infiltrado na Klan
2 — Mudbound, Nasce uma EstrelaPonto Cego
1 — A Forma da Água, Sem Fôlego, Pantera Negra, Lady Bird, Projeto Flórida, Visages VillagesDeixe a Luz do Sol Entrar, Ilha dos Cachorros

terça-feira, 5 de março de 2019

OSCAR 2020: APOSTAS ANTECIPADAS


FILME

The Irishman
Little Women
It's a Beautiful Day in the Neighborhood
Once Upon a Time in Hollywood
Ad Astra
Us
Toy Story 4
The Report
Star Wars: Episode IX
The Woman in the Window


possíveis

Lion King
Harriet
The Laundromat
The Last Thing He Wanted
Where'd You Go, Bernadette?
The Last Black Man in San Francisco
The Goldfinch
Dumbo
1917
Rocketman
High Life
Gemini Man
Clemency
The Souvenir
Midsommar
Dolor y Gloria
Yesterday
Ford v. Ferrari

DIREÇÃO

Martin Scorsese, The Irishman
Greta Gerwig, Little Women
Marielle Heller, It's a Beautiful Day in the Neighborhood
Jordan Peele, Us
James Gray, Ad Astra


possíveis:

Steven Soderbergh, The Laundromat
Quentin Tarantino, Once Upon a Time in Hollywood
Joe Wright, The Woman in the Window
Scott Z. Burns, The Report
Dee Rees, The Last Thing He Wanted

ATOR

Tom Hanks, It's a Beautiful Day in the Neighborhood
Adam Driver, The Report
Robert De Niro, The Irishman
Leonardo DiCaprio, Once Upon a Time in Hollywood
Taron Egerton, Rocketman

possíveis

Gary Oldman, The Laundromat
Christian Bale, Ford v. Ferrari
Ansel Elgort, The Goldfinch
Joaquin Phoenix, Joker
Brad Pitt, Ad Astra

ATRIZ

Cynthia Erivo, Harriet
Saoirse Ronan, Little Women
Amy Adams, The Woman in the Window
Cate Blanchett, Where'd You Go, Bernadette?
Natalie Portman, Lucy in the Sky

possíveis

Julianne Moore, Gloria Bell
Lupita Nyong'o, Us
Jessica Chastain, Seducing Ingrid Bergman
Anne Hathaway, The Last Thing He Wanted
Emma Thompson, Late Night

ATOR COADJUVANTE

Al Pacino, The Irishman
Joe Pesci, The Irishman
Timothée Chalamet, Little Women
Jon Hamm, The Report
Gary Oldman, The Woman in the Window

possíveis

Bob Odenkirk, Little Women
Willem Dafoe, The Last Thing He Wanted
Brad Pitt, Once Upon a Time in Hollywood
Matthew Rhys, It's a Beautiful Day in the Neighborhood
Tommy Lee Jones, Ad Astra

ATRIZ COADJUVANTE

Annette Bening, The Report
Meryl Streep, Little Women (ou The Laundromat)
Margot Robbie, Once Upon a Time in Hollywood
Julianne Moore, The Woman in the Window
Ruth Negga, Ad Astra

possíveis

Charlize Theron, Fair and Balanced
Rosie Perez, The Last Thing He Wanted
Nicole Kidman, The Goldfinch
Anna Paquin, The Irishman
Bryce Dallas Howard, Rocketman


Apostas iniciais para a corrida do ano que vem. Devemos ver na corrida os novos filmes de Scorsese, Tarantino, Soderbergh, Wright, Mendes (já veteranos no Oscar), Peele, Gerwig, Heller, Rees (que estiveram em corridas recentes) e quem sabe James Gray e Tim Burton, dois cineastas subestimados nos prêmios, que tem seus filmes novos programados para estrear em 2019. Vamos ver quais desses filmes continuarão prediletos ao Oscar daqui a um tempo.

Apostas dos anos anteriores:

Oscar 2016
Oscar 2017
Oscar 2019

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

A FAVORITA (2018)


O nome do grego Yorgos Lanthimos ascendeu quando seu filme Dente Canino fez um sucesso em Cannes (ganhou o prêmio Um Certo Olhar) e depois figurou entre os cinco finalistas a Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2011. Dono de um cinema bem particular, ganhou mais destaque com o recente O Lagosta (seu primeiro filme falado em inglês) e agora com o seu mais elogiado trabalho, A Favorita, drama épico centrado na relação de amor, discórdia, inimizade e loucura, repleta de intrigas, entre a rainha Anne da Inglaterra (Olivia Colman) e as mulheres mais próximas a ela: a duquesa de Marlborough (Rachel Weisz) e uma empregada recém-chegada ao palácio e prima desta última, Abigail (Emma Stone).

Os filmes de Yorgos transitam pelo que há de bizarro na nossa condição, explorando com sarcasmo e deboche (às vezes em quantidades exacerbadas) o horror e o humor que surgem das situações humanas. A ironia, ácida ou desmedida, vem para reforçar os sentimentos de chacota e desprezo que o cineasta evoca com personagens excêntricos que inspiram desde antipatia até vulgaridade. A Favorita segue esse padrão de deturpar personagens tão detestáveis do mundinho de Lanthimos, mas o resultado é surpreendentemente bom quando vemos que o estilo dele, quase misantrópico, casa perfeitamente com o subgênero dos filmes épicos de reis e rainhas, proporcionando um frescor que há tempos não víamos nesse tipo de história.

O equilíbrio é fundamental, o cuidado pela forma é tamanho que torna esse o mais bem realizado filme do grego (figurinos, fotografia e cenários impecáveis), e o trio de performances incrivelmente poderosas de Olivia Colman (agora vencedora de um Oscar, sendo ela a melhor daqui do elenco, com uma atuação arriscada e muito bem arquitetada, cheia de momentos tensos), Rachel Weisz e Emma Stone (igualmente admiráveis), com suas personagens enlouquecidas, esdrúxulas, às vezes irritantes, deslocadas, mas que parecem conter mais humanidade do que Yorgos permitiria a seus personagens, dão ao filme o seu aval de importância e maestria, que, alados ao autorismo de Lanthimos, fazem dele um trabalho tão incomum quanto original.

Insano, divertido e pra lá de esquisito, como todo filme de Yorgos, A Favorita pode não ser sua obra-prima, mas é certamente seu trabalho mais bem-feito. Furiosamente sarcástico e sem limites, traz um olhar drástico e rude sobre as mordomias, peripécias, segredos e podres da realeza, com a devida parcela de esquisitices e vilezas que um olhar afiado exige, sem nunca sair da pose, com seus planos muito rígidos, quase coreografados de tão simétricos, e precisamente vertiginosos, para nos sentirmos na pele daquelas mulheres tão perturbadas. E muitas cenas ficam grudadas no nosso pensamento.

A Favorita
The Favourite
dir. Yorgos Lanthimos
★★★★