quarta-feira, 22 de julho de 2020

THE NIGHT OF (2016)


Catártico. The Night Of vai fundo ao examinar a injustiça e as barreiras racistas na América. Doloroso ao constatar liberdade, respeito e dignidade esmagados, e o sonho americano despedaçado em virtude da intolerância. A série me deixou nocauteado, como se cada episódio fosse um soco, despertando e depois sacudindo, para essa realidade brutal do sistema judicial, refletindo nele as feridas, heranças da segregação e o ódio presentes em uma sociedade impregnada de xenofobia e, tristemente, impunidade. Cada episódio dessa minissérie forte, intrigante e de um elenco em estado de primor, vem munido de potência, tensão e uma porrada de sentimentos, que vão da indignação, acompanhada de raiva, à ternura, acompanhada de um pouco de alívio, já que mesmo com toda a situação chegando ao limite (e todos os problemas), os personagens, como o advogado "porta de cadeia", a família, acabam agindo pra trazer esperança dentro daquela tempestade. A minissérie, brutal, dilacerante, dá um pouco de espaço pra gente respirar com esses personagens. 

terça-feira, 30 de junho de 2020

Revisão do 1º Semestre

Uncut Gems first look review – An uncut masterpiece from the Safdie bros

Um balanço dos lançamentos conferidos nessa primeira metade de 2020. Não estranhem a lista estar tão misturada, pois o critério agora é: filmes lançados em qualquer plataforma + os inéditos, de 2018 pra cá. A lista deve engrossar, porque ainda tem coisa pra conferir. Os títulos em negrito compõem os 5 melhores da lista. O 1º lugar de um ranking ficaria com Joias Brutas.

Em ordem alfabética

1917 (Sam Mendes)
Adoráveis Mulheres (Greta Gerwig)
Asako I & II (Ryusuke Hamaguchi)
Cadê Você, Bernadette? (Richard Linklater)
O Caso Richard Jewell (Clint Eastwood)
A Despedida (Lulu Wang)
Ford vs. Ferrari (James Mangold)
O Homem Invisível (Leigh Whannell)
Honeyland (Ljubomir Stefanov & Tamara Kotevska)
Joias Brutas (Irmãos Safdie)
Um Lindo Dia na Vizinhança (Marielle Heller)
Peterloo (Mike Leigh)
O Preço da Verdade (Todd Haynes)
Roubaix, Une Lumière (Arnaud Desplechin)
System Crasher (Nora Fingscheidt)
A Vida Invisível (Karim Ainouz)

Os melhores no geral

E esses são os destaques, grandes ou ótimos filmes, não apenas lançamentos, que foram vistos nesse período, em ordem de preferência. Deixei de fora apenas as estreias que eu incluí no top 30 de 2019 que eu vi em janeiro, quando eu não tinha fechado a lista ainda. 

A Última Noite (Spike Lee) - Segredos do Poder (Mike Nichols) - Narradores de Javé (Eliane Caffé)
Samson and Delilah (Warwick Thornton) - Entre Facas e Segredos (Rian Johnson)

e uma série: Família Soprano (S1)

quinta-feira, 25 de junho de 2020

SAMSON AND DELILAH (2009)

Samson & Delilah (Australia 2009) | The Global Film Book Blog

Me lembrou do recente LEAVE NO TRACE, especialmente na dura transição de um ato pro outro, quando os personagens saem de sua rotina numa cidade isolada e se veem jogados no mundo, sem rumo. A mudança no clima do filme é óbvia, mas tem bem mais por trás desse lado aparente. Quando os personagens são jogados de uma realidade pra outra, seus laços permanecem intocados. A falta de diálogos (o casal principal não troca uma palavra) curiosamente reforça ainda mais toda a conexão entre eles, na mesma medida que aquela situação de abandono (e a dificuldade de se afirmar no mundo e de ter o seu espaço nele) põe essa conexão à prova. O resultado é tanto encantador e doce quanto amargo e brutal. O filme opera nesses dois climas, filtrando como eles perseveram (ou não) diante das dificuldades. Com  um elenco fenomenal, SAMSON AND DELILAH (2009, dir. Warwick Thornton) é uma pérola escondida do cinema australiano, um retrato particular da vida dos nativos, lidando com a marginalidade, a exploração, a violência e a negação da sociedade, mas sem nunca desviar seu olhar de empatia, especialmente no campo sentimental, mesmo ao mostrar o quanto a vida e a sociedade são duros com eles.  

domingo, 21 de junho de 2020

FAMÍLIA SOPRANO (Primeira Temporada)

The Sopranos' 20th Anniversary: Here's Your Complete Guide to Rewatching It  - The New York Times

A terapia da máfia

À medida que Tony Soprano lida com as responsabilidades da vida em família, a série emplaca uma tensão que ameaça explodir de instantes em instantes. O chefão da máfia resolve desabafar com uma psiquiatra, e as consequências não caberiam nesse texto. Família Soprano navega numa tensão sempre dilacerante, dos choques entre os personagens, uma família instalada no meio do crime, e todas as suas conexões complicadas. O formato aparentemente fácil do universo gângster se aprofunda nas camadas árduas das relações familiares e humanas em conflito. Os episódios não giram em círculos, ao contrário, cada espaço da trama passa pela análise, cada personagem está exposto. Com um roteiro dos mais bem resolvidos, Família Soprano tem muitos acertos, blindados por um elenco mais que inspirado (sem exceções, o ponto alto da série são as atuações). A série não deixa que a violência sozinha a conduza e dite seu clímax. É nas cenas no consultório, nas conversas em família, ou nos momentos em que os personagens são despidos (emocionalmente) e colocados à prova, que a série concentra sua força. Entraria fácil num top 10 da televisão americana. 

domingo, 7 de junho de 2020

ADORÁVEIS MULHERES (2019)

Confira o primeiro trailer de “Little Women”, novo filme de Greta ...

Greta olha pra trás, na Guerra Civil Americana, pra lidar com as questões que a era #MeToo levantou, e as fragilidades sociais da época de Alcott, convergindo em preocupações atuais. A seriedade divide lugar com o entretenimento, e o elenco, em estado de graça, se doa pros personagens do romance. Enquanto os homens saem pra ir à guerra, as mulheres permanecem em casa, as filhas se descobrem e a mãe toma conta como pode. Greta tentou traduzir "Mulherzinhas" e saiu do outro lado com frescor e propriedade, intercalando dois momentos diferentes, como um balé cinematográfico, e tentando resgatar o que cada personagem experienciou naquele tempo. Uma sequência deliciosa pro LADY BIRD, e que deixa a gente com um gostinho muito parecido, no sentido de como o filme retrata e a gente absorve, esse inspirado ADORÁVEIS MULHERES. Greta é uma grande diretora sim. O jeito que ela navega pela história, com esse olhar honesto, é mais que especial. ADORÁVEIS MULHERES tem um bocado de sequências deliciosas, as atuações divertidas, mas também sinceras (Saoirse tá perfeita), equilibra leveza com o drama, consciente de onde quer chegar. Assim como o LADY BIRD, se concentra no amadurecimento feminino, também com sua percepção sobre a chegada do amor, mais incerto, mais confuso, porém também mais intenso e, de alguma forma, libertador (os conflitos da Jo, de não querer estar presa às convenções, mas sentindo um grande desejo de se apaixonar, permanecem contemporâneos). E eu gosto bastante desse núcleo sentimental do filme. 

Adoráveis Mulheres (Little Women, dir. Greta Gerwig, E.U.A.)

quarta-feira, 13 de maio de 2020

PETERLOO (2018)

Peterloo - Filme 2018 - AdoroCinema

PETERLOO é muito bem-feito: fiel aos fatos, um pouco didático (principalmente nos diálogos), mas sobretudo dilacerante, que parece ter sido feito com a revolta e a fúria no sangue (assim como foi na História). É pra não esquecer do derramamento de sangue brutal como resposta à indignação popular pelas explorações e injustiças sociais da época (leis abusivas e um governo cada vez mais opressor na Inglaterra industrial). Chega a ser doloroso na sua explosão de revolta, estremecedor, mas também consciente (historicamente) com muitos momentos bem construídos (inclusive a sequência do massacre). E é também o filme de época mais bem dirigido do Mike Leigh em anos. Curioso como foi tão pouco falado, com essa qualidade toda, e sendo um filme que mostra um ponto de vista da classe trabalhadora, e toca na ferida do governo opressor. PETERLOO é um excelente filme de História, e de grande importância política.

Peterloo (dir. Mike Leigh, Reino Unido)

terça-feira, 7 de abril de 2020

O CASO RICHARD JEWELL (2019)

Richard Jewell' Review: The Wrong Man - The New York Times

A vida de um americano comum revirada de cabeça para baixo depois que ele ganha status de herói ao evitar uma tragédia durante as Olimpíadas de Atlanta em 96, mas se torna suspeito de ter ele próprio causado o atentado. A "midialização" do homem comum é uma faca de dois gumes: o eleva ao heroísmo, mas puxa-se o tapete e sua vida se torna um caos graças a cobertura da imprensa e a fama que ele ganhou. O personagem se pergunta se ele vai ter sua vida de volta.

RICHARD JEWELL medita sobre como um herói se torna vilão com uma facilidade e rapidez imensas. A inversão de papéis parece dizer muito sobre não apenas o espetáculo da mídia, mas também a própria América. É interessante ver como filme coloca o personagem dentro da tempestade e a maneira quase silenciosa como ele é defendido. Precisamos entender como o personagem é encurralado, e para isso há o tempo certo de exercitar essa defesa. Por isso que é um dos filmes mais plurais de Clint. Aliás: performances ótimas e honestas, em especial a de Paul Hauser.

O Caso Richard Jewell (Richard Jewell, dir. Clint Eastwood, E.U.A.)