segunda-feira, 24 de junho de 2019

DEMOCRACIA EM VERTIGEM (2019)


Democracia em Vertigem é um comentário preciso e relevante sobre o que a democracia brasileira tem sofrido nos últimos anos (e, de um modo geral, como o passado ditatorial e histórico do país sombreia seus caminhos políticos turvos), provocando uma reflexão sobre esse estado político e nos levando a analisar o seu impacto tão denso na vida dos brasileiros. Passa pela eleição histórica de Lula à Presidência em 2002, a primeira vez que o PT chega ao poder, com promessas de inclusão social e atenção às minorias, e oito anos depois a de sua sucessora, Dilma, primeira mulher a ocupar o cargo (no passado, militante presa e torturada durante a Ditadura). Quase que tragicamente, o documentário atravessa a derrocada que tentam impor a essas duas figuras neste que é um momento tão frágil dentro do cenário político do Brasil: o controverso e ainda recente golpe de Dilma em 2016 e a prisão de Lula em 2018. E, consequentemente, a chegada da direita ao poder (indiretamente) com o governo desastroso de Temer, vice de Dilma, que tornou-se impopular com sua dose de reformas ineficazes e descontrole sobre a crise que atingiu o país, e a eleição de um deputado de extrema-direita, Bolsonaro, o atual presidente do país, com um governo em sua grande maioria composto por militares (sendo ele próprio um capitão reformado do Exército), trazendo consigo uma aura extremamente conservadora, reforçando o clima de retrocesso já agravado pelo seu antecessor, e marcado por uma série de controvérsias e medidas polêmicas nos cinco primeiros meses de governo. 

Apesar de não se estender ao começo desse governo em que estamos, até por ser um capítulo mais recente da nossa história, o documentário de Petra dá conta dos principais acontecimentos dentro dessa década em relação à crise política no Brasil, enfocando na quantidade massiva de manifestações populares, na insatisfação, nos capítulos mais marcantes, na transição dos governos do PT para a retomada do poder pela direita e, mais uma vez, assim como o recente O Processo, reconstruindo o Impeachment de Dilma Rousseff, expurgando toda a fraude por trás do golpe e acenando para seus perpetuadores, Cunha, Temer e Aécio, lembrando que esse talvez seja o momento mais emblemático dessa crise política.

Mixando elementos pessoais ao documentário, com uma narração em off que comenta e dá cores ao que é exposto no filme, Costa também reconstrói a redemocratização, momento em que o país finalmente ia pra frente, após 20 anos mergulhado numa ditadura infame, e inclusive reconta, através das experiências dos pais (presos durante o regime) o que se seguiu após o golpe de 64, um atentado à democracia mascarado de resposta à ameaça comunista. Não muito diferente do que o país assistiria em 2016: uma presidente eleita retirada do poder em favor do ideal de "retomada" do país. 

Talvez o único ponto fraco do documentário seja passear pelos conflitos políticos do país sem realmente colocar o povo à frente do retrato. Costa valoriza muito mais um retrato íntimo e o conecta aos acontecimentos políticos do pais, mas quando a câmera está no povo, é para evidenciar a dualidade, as divergências de opinião que causaram uma perceptível polarização na sociedade brasileira, mas sem dar uma dimensão maior ao que todo esse caos político impactou na vida do brasileiro.

O olhar de Petra sobre esse momento que ficará marcado na história, em que a democracia do Brasil é tentada a todo instante por seu governo, que é vitrine de escândalos de corrupção, disputas pelo poder, mentiras e conspirações, também exibe a dor e o desgosto do povo brasileiro, com uma pluralidade que nos faz enxergar tanto quem apoia ou discorda, mas com um olhar próprio sobre as injustiças cometidas contra a gente do país. O horror do que a política brasileira se transformou, e do que fizeram com as promessas de transformação social e de igualdade, também é um alerta, um chamado. O povo brasileiro é um pária nesse cenário atual, como se as escolhas independessem dele, milhões de votos são jogados fora para "salvar a democracia", intrigas do poder que se desenrolam às escuras, nas sombras. E, como se já não bastasse, a Justiça entra no jogo. E ela joga muito sujo.

O registro de Costa sobre a política brasileira desperta diversos sentimentos, mas dois em especial ficam marcados com a gente nesse momento tão emblemático do nosso país: a indignação e o lamento. Ver as direções que seu governo tem tomado é lamentável.

Forte candidato a um dos melhores (e mais necessários) filmes nacionais do ano.

Democracia em Vertigem
dir. Petra Costa
★★★★

quarta-feira, 29 de maio de 2019

ACONTECEU EM WOODSTOCK (2009)


A celebração da liberdade é o motor principal de Aconteceu em Woodstock, o filme mais subestimado da carreira de Ang Lee. Já tendo ganhado o Oscar por Brokeback Mountain, 2 Leão de Ouro em Veneza, e com filmes como O Tigre e o Dragão e Razão e Sensibilidade no currículo, o cineasta taiwanês apostou nos bastidores dos bastidores do famoso Festival de Woodstock, lá em 1969, para a trama do seu sexto longa-metragem ambientado nos E.U.A. E, para isso, além da reunião de um elenco primoroso, o diretor usufruiu de leveza e espiritualidade admiráveis para costurar um retrato timidamente primoroso, e repleto de sutilezas, mas potente, de um dos momentos mais importantes do século 20, incorporando seus personagens ao espírito "paz-e-amor" de Woodstock da maneira mais bonita e plausível possível, como uma homenagem simples mas cheia de coração ao significado desse evento para a cultura americana.

Um jovem homem retorna da cidade para passar um tempo no motel dos pais, em Bethel, no interior do estado de NY, nas montanhas Catskills. É dele a ideia de trazer um festival que não conseguiu ser organizado para a cidadezinha. Ele consegue trazer um dos organizadores do evento, e é então que o festival de música e artes consegue ser realizado, o lendário Festival de Woodstock.

Engana-se quem pensa que Aconteceu em Woodstock é repleto de conflitos ou reviravoltas, e nem precisa disso pra funcionar do jeito que funciona belamente. Ang Lee faz questão de deixar as coisas fluírem com leveza, destacando seus personagens e o clima do evento que o filme sedia. O resultado é uma arquitetação de cenas que maravilham sem precisar de muito, fruindo uma naturalidade que casa perfeitamente com o seu tamanho. O elenco parece entender todas as propostas, com esforços que parecem tão naturais quanto a trama do filme em si.

A intenção é registrar um momento de confraternização e celebração de valores como a paz, liberdade e amor em tempos turbulentos de guerra do Vietnã e um cenário de alienação política. Mas Lee faz isso com tanta sutileza, e de maneira tão rica, que é impossível não ficar deslumbrado com a atenção que o filme dá ao clima e aos sentimentos do momento, criando um monumento de compaixão, simpatia, beleza e emoção. Aconteceu em Woodstock comemora a paz com um retrato sentimental de uma época e suas marcas, deixando-se levar pela graça que os seus personagens em conjunto evocam. Se destacam Imelda Staunton, Liev Schreiber, Demetri Martin, Henry Goodman e Jonathan Groff, mas o elenco em si está gigante, excelente. Aconteceu em Woodstock é uma pérola sublime escondida na filmografia de um grande cineasta.

Aconteceu em Woodstock
Taking Woodstock
dir. Ang Lee
★★★

terça-feira, 28 de maio de 2019

LUNCHBOX (2013)


Uma das coisas que eu mais gosto em relação aos filmes é a capacidade que eles tem de nos conectar, de expor as ligações que as pessoas compartilham entre elas, e de evidenciá-las na linguagem cinematográfica, sem depender exatamente de traduções ou explicações para deixar claras suas intenções. O cinema me fascina pela universalidade, pelas nuances da arte e da maneira como ela modela e aprimora os sentimentos que são impressos na tela. E, é claro, releva seu lado mais humano, seu poder incrível de expressão e identificação. 

Diretamente da Índia, vem um filme belíssimo sobre a inesperada relação entre uma mulher que descobre que, incidentalmente, o almoço que ela prepara para seu marido todos os dias (e que é transportado através de um infalível sistema de entregas de "lunchbox") está indo parar no endereço errado, nas mãos de um homem viúvo prestes a se aposentar da empresa onde trabalha. O homem fica deliciado com a comida que a mulher o prepara. Ao saberem desse engano, eles dois passam a trocar mensagens, e criam um vínculo muito forte: uma paixão. A mulher está frustrada no casamento, com um marido que não tem tempo pra ela, enquanto o homem encontra na relação com aquela mulher uma chance de se reencontrar e de amar de novo. Os dois tornam-se confidentes e se aproximam sem nem sequer terem se conhecido pessoalmente.

O resultado é de um frescor maravilhoso. Lunchbox abraça um sentimentalismo quieto, sem perder seu ritmo ao entrar num terreno mais dramático. Pelo contrário, isso ajuda ainda mais a criar uma história de amor belíssima em que acompanhamos deliciados a entrega de cartas e a intimidade que cresce bem na nossa frente, e que nos leva a torcer pela felicidade daquele casal tão singelo. Este filme romântico se equilibra entre as doçuras do amor e a observação da rotina daqueles dois personagens, às vezes carregadas de sentimentos de frustração e insatisfação. Em nenhum momento deixa de ser um retrato gracioso, cheio de pontos altos, e que conquista pela honestidade com que acompanha a curiosa relação entre seus protagonistas, sendo fiel aos seus sentimentos e às emoções que permeiam um romance tão majestoso, que mesmo tratando de pessoas comuns consegue ser extremamente particular nos gestos.

Lunchbox lida com a busca de seus personagens, com suas vidas simples, mas é no romantismo que a simplicidade se transforma radicalmente em algo maior. O amor surge das coisas pequenas, e é justamente nos momentos mais sutis e despretensiosos que ele parece ganhar força descomunal, de uma beleza admirável. Vai tocar o coração de quem já se apaixonou e teve que passar por todos os sentimentos que isso é capaz de fazer emergir, desde a tranquilidade de saber que se ama alguém, até a tensão de estar distante e não saber o que irá acontecer. Lunchbox compreende o amor porque compreende suas alegrias e dores. Seus personagens completam-se, mas também sofrem. O amor é um acontecimento precioso, e aqui ele é captado com a ternura e sutileza necessárias para fazer jus à sua incontível riqueza. Irffan Khan e Nimrat Kaur estão majestosos. Gostei demais desse filme. Muito bonito mesmo.

Lunchbox
Dabba
dir. Ritesh Batra
★★★★

sábado, 25 de maio de 2019

Palmarès 2019


PALMA DE OURO
Parasite (Bong Joon-Ho, Coreia do Sul)

GRANDE PRÊMIO DO JÚRI
Atlantique (Mati Diop, Senegal)

PRÊMIO DO JÚRI (empate)
Bacurau (Kleber Mendonça Filho & Juliano Dornelles, Brasil)
Les Misérables (Ladj Ly, França)

PRÊMIO DA MISE-EN-SCÈNE
Irmãos Dardenne — Le Jeune Ahmed (Bélgica)

MELHOR ATOR
Antonio Banderas — Dolor y Gloria (Espanha)

MELHOR ATRIZ
Emily Beecham — Little Joe (Reino Unido/Áustria)

PRÊMIO DE ROTEIRO
Portrait de la jeune fille en feu — Céline Sciamma (França)

MENÇÃO HONROSA DO JÚRI
It Must Be Heaven — Elia Suleiman (Palestina)

O Festival de Cannes 2019 se encerra com uma entrega de prêmios das mais justas dos últimos anos, longe da bagunça que algumas edições recentes fizeram ao ter que escolher os premiados, injustiçando candidatos potentes. Iñárritu e seu júri fizeram escolhas coerentes, dividiram os prêmios entre cineastas menos aclamados (Mendonça Filho, Bong Joon-Ho, Elia Suleiman) e inclusive alguns iniciantes na competição (Mati Diop, Celine Sciamma, Ladj Ly). O calibre da competição desse ano trouxe uma valorização bastante especial do cinema mundial. É o que se indica no reconhecimento de produções oriundas da Coreia do Sul, Brasil, Palestina, Espanha e Senegal. Se alguém estava pensando que o cinema americano seria o queridinho, agora foi a vez de outros cinemas falarem mais alto na vitrine mais importante do cinema de autor e, de certa forma, do cinema mundial também. 


Se o grande favorito da vez, Dolor y Gloria, não bateu a unanimidade prenunciada de Parasite, pelo menos legou a Antonio Banderas um bem-vindo reconhecimento pela sua performance no que talvez seja o mais autobiográfico dos filmes de Almodóvar. Como brasileiro, é impossível não ficar deliciado com a vitória maravilhosa de Bacurau (prêmio do júri), um dia após o filme de Karim Aïnouz chegar ao prêmio principal da mostra Um Certo Olhar (a mais importante do festival depois da competição da Palma). Ou seja, temos dois filhos do Brasil (e de cineastas nordestinos) entre os vencedores dos prêmios mais relevantes do Festival de Cannes. Isso é gigante. E nos dias de hoje, no Brasil de hoje, vocês sabem que a importância é triplamente maior. Viva o cinema nacional!!! 


E se é um dia histórico para o cinema sul-coreano que teve sua primeira Palma hoje, é também histórico para Mati Diop, que tornou-se a primeira africana a ter seu filme na competição de Cannes, e saiu com o 2º prêmio mais importante da noite. Rotineiramente premiados, os Irmãos Dardenne, apesar da recepção morna que tiveram no festival, saíram vitoriosos. E Celine Sciamma, que era cotadíssima à Palma, foi lembrada pelo melhor roteiro. Suleiman, cineasta palestino que retornou à competição após um hiato de uma década, foi a menção honrosa da seleção. Enfim, estão aí alguns dos filmes que foram celebrados nessa edição do festival, e que merecem nossa atenção. Feliz pelo cinema brasileiro, que foi enaltecido tão merecidamente. E que isso sirva de inspiração para a nossa cultura e arte nacional seguir resistindo em tempos turvos. O cinema é uma arma muito poderosa, lembrem-se disso. 

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Apostas, Alguns Prêmios e Mais Filmes em Cannes


Festival de Cannes está se encerrando, e nestes últimos dias mais alguns filmes pintaram na seleção, e hoje foram revelados os vencedores da mostra Um Certo Olhar, com uma grande e bela surpresa para nós brasileiros: nosso representante nacional A Vida Invisível de Eurídice Gusmão conquistou o prêmio principal da mostra, que só perde na importância para a competição da Palma de Ouro. Aliás, é o 1º filme brasileiro a conquistar essa honra. O filme é dirigido por Karim Aïnouz, de O Céu de Suely e Praia do Futuro. É motivo de comemoração, ainda mais em tempos como esse, em que a cultura é posta à prova pelos atuais governantes que ameaçam oprimi-la, e nosso cinema passa por uma fase em que é preciso, mais do que nunca, reafirmar a sua importância: e que bela maneira de fazê-lo! Que isso sirva de resistência, para mostrar a força do cinema nacional lá fora, quando tentam diminuir sua importância aqui dentro. 

Prêmio UM CERTO OLHAR: A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (Karim Aïnouz)
Prêmio do Júri: Fire Will Come (Oliver Laxe)
Prêmio de Direção: Kantemir Balagov (Beanpole)
Prêmio de Atuação: Chiara Mastroianni (On a Magical Night)
Prêmio Especial do Júri:
Albert Serra, Liberté
Bruno Dumont, Joan of Arc

Entre os últimos filmes exibidos na seleção principal, foram poucos os destaques. Muito se criticou a qualidade das produções e até tivemos uma bomba que foi chamada por muitos como sendo o pior filme já exibido no festival em anos. 


O mais elogiado (e um considerável finalista pra Palma) veio nessa sexta: It Must Be Heaven, do cineasta palestino Elia Suleiman, que há 10 anos não dirigia, e trouxe um filme pungente com teor sociopolítico sobre a identidade palestina e o cinema em si. 

De cineastas aclamados, sobraram as críticas desapontadas para os novos filmes de Bellocchio (com Il Traditore, recebido com frieza), Desplechin (seu thriller Roubaix, une lumière foi chamado de entediante) e, o filme mais aloprado de Cannes 2019, o novo de Kechiche (vencedor da Palma em 2013), Mektoub, My Love: Intermezzo, sequência de outro trabalho do cineasta de 2017, ultrapassou a impopularidade de desastres recentes como The Sea of Trees ou The Last Face, que foram detestados pela crítica. Esse aqui foi comparado a um filme pornô e teve uma das aprovações mais baixas (sem falar no pessoal saindo da sala aos montes durante a projeção). É esperar pra ver se é isso mesmo, mas a garantia é que não é agora que veremos Kechiche recuperar a Palma que ele teve que vender pra conseguir financiar o projeto. E, fechando a competição, o francês Sibyl, que até foi elogiado, principalmente pelo elenco. O filme é de Justine Triet, também na competição pela primeira vez.


E, agora, minhas apostas para OS PRÊMIOS que serão entregues amanhã. Será que veremos Almodóvar levar sua merecida Palma pra casa, sendo ele o grande favorito? Ou o júri vai preferir algum outro dos veteranos que disputam por mais uma pra coleção? Ou algum nome novo na lista, que chegou quebrando tudo? Veremos:

1ª opção (mais óbvia)

Palma de Ouro: Dolor y Glória
Grande Prêmio do Júri: A Hidden Life
Prêmio do Júri: Portrait de la jeune fille en feu
Prêmio da Mise-en-Scène: Quentin Tarantino
Melhor Atriz: Valerie Pachner, A Hidden Life
Melhor Ator: Kris Hitchen, Sorry We Missed You
Melhor Roteiro: Bacurau

2ª opção (meus chutes)

Palma de Ouro: A Hidden Life
Grande Prêmio do Júri: Parasite ou It Must Be Heaven
Prêmio do Júri: Atlantics
Prêmio da Mise-en-Scène: Céline Sciamma ou Mendonça & Dornelles
Melhor Atriz: Isabelle Huppert, Frankie
Melhor Ator: August Diehl, A Hidden Life
Melhor Roteiro: Matthias & Maxime ou Once Upon a Time in Hollywood

Os dez favoritos para a PALMA

1. Dolor y Gloria
2. A Hidden Life
3. It Must Be Heaven
4. Portrait de la jeune fille en feu 
5. Parasite
6. Bacurau
7. Atlantique
8. Once Upon a Time in... Hollywood
9. Sorry We Missed You
10. Matthias & Maxime

Era Uma Vez em Cannes

Parasite, de Bong Joon-Ho, é forte concorrente à Palma de Ouro, que será entregue neste sábado.

Perto de fechar o festival de 2019, e praticamente às vésperas da entrega dos prêmios, figuram alguns favoritos que podem cair nas graças do júri, e para completar a lista que já está cheia, temos um exemplar lá da Coreia do Sul: Parasite, de Bong Joon-Ho, é um dos únicos a duelar com o ainda grande favorito Dolor y Gloria na disputa dos prêmios. Bong é diretor de O Hospedeiro e Expresso do Amanhã. Competiu pela Palma pela primeira vez em 2017, com Okja.

Pitt, DiCaprio, Tarantino e Robbie em conferência

Em uma semana badalada, o festival presenteou o público e a crítica com alguns dos trabalhos mais esperadas da seleção deste ano. Talvez falando do filme mais esperado, falamos de Once Upon a Time in... Hollywood, de Tarantino, que ganhou os holofotes essa semana (em seu tapete vermelho desfilaram Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Margot Robbie) e a atenção da crítica em geral. Tarantino, que há duas décadas levava a Palma de Ouro pra casa por Pulp Fiction, há 10 anos não exibia um filme lá (desde Bastardos Inglórios), motivo que tornou o retorno ainda mais aguardado. Elogiado, mas também detratado (principalmente pela crítica estrangeira), o filme esteve envolvido em polêmicas (Tarantino foi grosso com os repórteres durante a conferência após ser criticado) mas também teve uma sessão lotada e com direito a uma ovação demorada.

Xavier Dolan retorna a Cannes com filme prestigiado após fracassos recentes

Retornos promissores, mas com recepções mornas, Matthias & Maxime, de Dolan, e Jeune Ahmed, dos Irmãos Dardenne, conseguiram chamar atenção. Dolan, com seu oitavo longa como diretor, foi elogiado por ter voltado ao terreno familiar, no Canadá, visto que seus dois últimos filmes, feitos no exterior, foram extremamente mal-recebidos, inclusive seu mais recente projeto hollywoodiano, com um elenco estelar, passou em branco e nem chegou a ser lançado direito nos cinemas. Mas parece que agora, em casa, o diretor conseguiu voltar à forma com uma comédia romântica menos ambiciosa. Enquanto isso, os irmãos belgas, que na edição de 2016, assim como Dolan, também tinham sido recebidos a pontapés pelos críticos, voltaram com um trabalho mais desafiador, mais elogiado que o anterior, porém aquém de outros grandes filmes da dupla dessa década, como O Garoto da Bicicleta ou Dois Dias, Uma Noite.

Isabelle Huppert, uma das musas do festival, está em Frankie, de Ira Sachs

Frankie, ainda que recebido com certo entusiasmo, é um concorrente fraco à Palma. É a primeira vez que Ira Sachs concorre, e traz Isabelle Huppert, presença mais que especial no festival, numa atuação celebrada (talvez o júri dê o prêmio pra ela?). Gomera, do romeno Corneliu Porumboiu, um thriller aplaudido que, se não está tão concorrido para a Palma, está saindo com elogios do festival. The Wild Goose Lake recebeu comparações a Hitchcock, mas também ficou desvalorizado numa competição curiosamente acirrada e com promessas acima da média.

resumo de 20 a 22 de maio. 

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Promessas da Croisette

Almodóvar (finalmente) favorito à Palma de Ouro
Bacurau, único brasileiro na competição, chama a atenção dos críticos

Festival de Cannes chegando na sua metade com uma porção de filmes promissores despontando na sua seleção recheada de coisa boa, e dificultando saber quem é que está mais perto da Palma de Ouro. Acompanhar o festival de longe, a posteriori, dificulta ainda mais, porém é bom ficarmos informados sobre quais são os filmes que estão aprovados e os filmes que receberam críticas mais duras. Entre os favoritos aos prêmios (que serão entregues no sábado) destacam-se Dolor y Gloria, de Almodóvar (tentando a Palma de Ouro pela 6ª vez, parece ser o grande favorito ao prêmio com esse novo projeto bastante pessoal), Portrait de la jeune fille en feu, de Sciamma (concorrendo pela primeira vez), A Hidden Life, de Malick (voltando a Cannes oito anos depois de A Árvore da Vida, que o garantiu a Palma, e com um filme que segundo alguns é bem mais convencional e seguro do que seus últimos filmes de ficção tidos como medianos), Atlantique, de Diop (ela é a primeira mulher africana a concorrer à Palma de Ouro na história do festival, e o filme foi recebido com chuvas de elogios) e, nosso representante nacional, Bacurau, de Mendonça Filho & Dornelles, que teve uma recepção bastante calorosa na semana passada, e já garantiu boatos de que poderia estar no radar dos prêmios. Les Miserábles, do estreante Ladj Ly, e Sorry We Missed You, o filme mais elogiado do veterano Ken Loach em muito tempo, também surgem entre os grandes preferidos de Cannes 2019. Enquanto isso, da competição, títulos que não agradaram muito a crítica, como The Dead Don't Die e Little Joe, foram rebaixados. 

Júri da competição

resumo da primeira metade (14 a 20/05) do Festival de Cannes