domingo, 22 de setembro de 2019

Aniversário do Blog e Minha Lista Pessoal


O blog está completando hoje cinco anos. Desde então, mudei meu jeito de ver os filmes, de escrever sobre eles, de colocar em palavras minhas experiências, meus contatos com as produções, e as várias paixões que o cinema fez florescer, sendo o cinema ele próprio um grande amor. Neste cinco anos, desde que comecei a comentar sobre esses filmes, amadureci em muita coisa, no estilo de escrever, na maneira de comentar e de observar esses trabalhos, mas sempre encantado pelo cinema. Posso dizer que 2014 foi o ano que vim a me tornar oficialmente um cinéfilo, no momento em que esse blog estava em gestação, muito embora em 2013 eu já estivesse engatinhando nisso, conhecendo filmes e cineastas, acompanhando prêmios, me tornando um amante do cinema. E foi extraordinário, a cinefilia me transformou e acompanhou, também, muitos momentos da minha própria transformação pessoal, de me tornar quem sou. E é por isso que tenho o cinema sempre perto de mim, como um porto seguro.

Em comemoração aos cinco anos que eu estou escrevendo sobre cinema nesse blog, compartilhando minhas experiências e a minha paixão pela arte, publico minha lista dos filmes que eu considero os melhores. Publicarei mais listas daqui em diante, porque essa é uma das coisas que eu mais gosto de fazer, e que a tarefa de comentar nesse blog tornou uma rotina, mas essa lista em especial, a dos filmes do coração, vem para celebrar o cinema, meu contato com ele e os filmes que, de alguma forma, me mudaram. 


01. Cidade dos Sonhos (David Lynch, 2001, E.U.A.)


02. Aurora (F.W. Murnau, 1927, E.U.A.)


03. Antes do Pôr-do-Sol (Richard Linklater, 2004, E.U.A.)


04. O Portal do Paraíso (Michael Cimino, 1980, E.U.A.)


05. Um Corpo que Cai (Alfred Hitchcock, 1958, E.U.A.)


06. Gosto de Cereja (Abbas Kiarostami, 1997, Irã)


07. Carol (Todd Haynes, 2015, E.U.A.)


08. 35 Doses de Rum (Claire Denis, 2008, França)


09. Faça a Coisa Certa (Spike Lee, 1989, E.U.A.)



10. Amor à Flor da Pele (Wong Kar-Wai, 2000, China/Hong Kong)


11. Toni Erdmann (Maren Ade, 2016, Alemanha)


12. Edward Mãos de Tesoura (Tim Burton, 1991, E.U.A.)


13. A Dama na Água (M. Night Shyamalan, 2006, E.U.A.)


14. Magnólia (Paul Thomas Anderson, 1999, E.U.A.)


15. O Poderoso Chefão (Francis Ford Coppola, 1972, E.U.A.)


16. A Rosa Púrpura do Cairo (Woody Allen, 1985, E.U.A.)


17. Uma Mulher Sob Influência (John Cassavetes, 1974, E.U.A.)


18. O Caçador de Dotes (Elaine May, 1971, E.U.A.)


19. Menina de Ouro (Clint Eastwood, 2004, E.U.A.)


20. Pai e Filha (Yasujiro Ozu, 1949, Japão)

domingo, 15 de setembro de 2019

O VIRGEM DE 40 ANOS (2005)


Provavelmente o melhor filme do Apatow, em que ele explora o universo cômico da masculinidade, a imaturidade, as obsessões masculinas, os preconceitos e a iminência sexual do homem hétero, que coloca o sexo no centro de todas as suas fixações, e ao mesmo tempo aborda-se isso com um personagem que parece estar desintegrado das "obrigações" da masculinidade, já que ele nunca fez, e seus amigos tomam como missão fazê-lo perder a virgindade para que ele se torne um "homem de verdade".

Apatow traz um olhar escrachado, cômico, e surpreendentemente não exagerado de como a vida adulta e a sexualidade coexistem e, de certa forma, como o comportamento obsessivo do homem cria uma certa convenção em torno da masculinidade, de como ela é medida, do que a torna válida, de como ela se torna quase obrigatória, da infantilidade que surge nesse comportamento. O filme mostra, mas não quer encaixar o personagem nessa condição, justamente rindo de como as convenções masculinas, tão presentes, tornam-se infantis, risíveis, chulas. O personagem do Carell se apaixona por uma mulher na tentativa de simplesmente perder a virgindade com quem quer que seja, na visão dos seus colegas. A escolha do filme é celebrar o sentimento, o encontro desse homem não apenas com a sexualidade, mas também a conexão romântica, sem intoxicar algo que é tão pessoal e íntimo para duas pessoas com as convenções, os preconceitos de como um homem deve se portar em relação à sua vida sexual, ao amor romântico e à sua própria masculinidade. E eu acho que esse filme é meio genial fazendo isso.

Gosto de todo o elenco (atuação incrível do Carell), e de como o filme usa a comédia para explorar assuntos que, com o humor, ficam até mais leves de se falar, mais fáceis de virar motivo de risada, mesmo que ainda existam coisas que não estejam certas, mas é besteirol americano, a gente até já espera que alguns comportamentos politicamente incorretos estejam escancarados. O que surpreende é que as ideias estão muito bem conciliadas.

O Virgem de 40 Anos
The 40 Year Old Virgin
dir. Judd Apatow
★★★★

JOHN WICK 3 — PARABELLUM (2019)


As cenas são extremamente bem coreografadas, eu fiquei deslumbrado em muitas (ou praticamente todas as) sequências de luta, JOHN WICK 3 veio pra mostrar pra gente que ele se esforçou ao máximo para ser uma sequência digna ao excelente segundo filme da saga. E ele é sim, em boa parte do tempo, uma sequência muito digna. Keanu está impagável, como sempre, e a construção das cenas é tão bem arquitetada quanto o esperado, há um trabalho de coreografia impressionante, não tem como reclamar. Só acho que, pra grandeza das sequências deslumbrantes que estão aqui, o desfecho não me envolveu mais do que as cenas que o antecederam. Apesar das falhas, se comparado ao restante do filme e ao JOHN WICK 2, que tinha uma execução primorosa, esse aqui vai ser lembrado mais pelas suas cenas impecáveis, pela fotografia que consegue dar conta perfeitamente dessas cenas, da direção de Stahelski, enfim, da ação que não desaponta em nenhum momento. E das participações de atores em ótima forma: Fishburne, Halle Berry e, é lógico, Keanu Reeves, tornando seu John Wick um personagem icônico, inesquecível: lendário.

John Wick 3 — Parabellum
dir. Chad Stahelski
★★½

sábado, 7 de setembro de 2019

ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD (2019)


A sessão do novo filme do Tarantino é uma das mais especiais em um bom tempo. Provavelmente a melhor sessão que eu tive a chance de ir nesse ano, até agora. Assistir ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD é alucinante. É um daqueles filmes que, quando visto numa sala de cinema, assim que a gente sai fica num estado de torpor, meio intoxicado, querendo guardar aquela sessão numa caixinha. Por isso o que eu vou escrever está mais relacionado em registrar isso do que qualquer outra coisa.

Retornando a Los Angeles em 1969, o diretor pega carona na rotina de alguns personagens que transitam pela cidade que respira cinema, personagens fictícios ou também pessoas reais, sem mostrar exatamente grandes acontecimentos até que as vidas desses personagens se entralaçam. Uma jovem atriz em ascenção, um ator de televisão temendo a decadência e seu dublê/valet, hippies que fazem parte de uma sinistra gangue que mora numa cidade cinematográfica abandonada... a surpresa é justamente a escolha de Tarantino em contornar o dia-a-dia de cada um desses personagens, para construir sua viagem a 1969, uma viagem que só o cinema poderia proporcionar tão latente e desnorteante assim.

Me peguei pensando em outros filmes desse homem e no prazer que esses filmes me proporcionaram, pensando em revê-los. O revisionismo, uma marca registrada do cinema tarantinesco, encontra-se forte, e novamente traz consigo todos aqueles sentimentos, não apenas em canções, imagens, caracterizações, mas também com a intenção de canalizar o cinema para resgatar o passado, e todas as suas particularidades. Isso não é novidade quando o assunto é Tarantino, mas a reinvenção, com nuances que até sinalizam certa maturidade, está na forma, que é explorada com muita paixão e proximidade, e o tratamento com os personagens desse mundo.

As obsessões de Tarantino estão de volta, só que agora num filme que direciona todas elas para registrar, também, o amor pelo cinema. E o fascínio pelo gesto de revisitar. É irmão de BASTARDOS INGLÓRIOS porque enxerga nos filmes, também, o poder de reconstrução. E porque é tão incrível quanto ele, e outros também, À PROVA DE MORTE, JACKIE BROWN, os dois KILL BILL. Amei ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD porque me fez sentir que é cinema de verdade a sessão todinha, coisa que não me acontecia numa sala de cinema há um bom tempo. Me vez viajar pra 69, encantado com um regresso totalmente feito da relação entre cinema e memória. Os atores estão excelentes, não digo apenas o estelar trio principal, mas também todos os outros destaques que deixam o filme ainda mais inesquecível e especial.

Tenso, surpreendente e deslumbrante... é mais uma carta de amor saudosista de Tarantino ao cinema, desta vez um pouco mais sentimental, mas na dose certa. Filme feito para celebrar a tradição, e todos os sentimentos que podem caber dentro de uma sala de cinema. Já quero rever.

Era Uma Vez Em... Hollywood 
Once Upon a Time in... Hollywood
dir. Quentin Tarantino
★★★

sábado, 31 de agosto de 2019

O QUE RESTA DO TEMPO (2009)


O palestino Elia Suleiman só dirigiu quatro filmes até hoje, e em todos eles o pano de fundo é o mesmo: a conturbada relação entre palestinos e israelenses, e a afronta territorial que ilustra os conflitos entre eles. Intervenção Divina discute o tema com mais flexibilidade, através de um olhar discreto e cenas bastante inventivas. O filme seguinte, O Que Resta do Tempo, é um exercício de cinema que explora o conflito atravessando as barreiras do tempo e suas marcas na vida do diretor (que no filme também é o personagem principal). 

Recontando em fragmentos momentos tensos do país enquanto, paralelamente, projeta memórias de sua vida, da infância, da adolescência até a vida adulta, Suleiman alicia seu habitual senso de humor exótico ao retrato sociopolítico da Palestina que testemunha violentos conflitos em razão do domínio territorial, disputado por palestinos e israelenses, e que data desde os tempos bíblicos, enquanto traz para dentro da equação uma visão pessoal sobre sua vida e as lembranças, dimensionando os tempos em que elas estão inseridas. 

Elia Suleiman revisita suas memórias e também o passado de sua nação com uma genialidade e acidez política que coloca este filme num patamar onde poucos chegaram, com uma intimidade travestida de crítica com comédia, repleta de nuances acertadas e que traz para os nossos dias uma perspectiva limpa e consistente, historicamente. A inventividade cinematográfica aparece em muitas decisões do diretor, inclusive na narrativa, onde o filme parece respirar mais durante seus três atos, até por ser um filme simples no seu formato. 

Fiquei deliciado de assistir um filme que trata a história com um olhar que passeia por muitos sentimentos, seja no humor ou na dor, e que constrói um retrato próprio, com todas as suas idiossincrasias, repleto de delicadeza, nostalgia e personalidade. Pelo menos no cinema recente O Que Resta do Tempo é uma obra-prima sui generis, para ser vista e revista, vinda de um cineasta que sabe fazer filmes com uma precisão afiada e humor irreverente.

O Que Resta do Tempo
The Time That Remains
dir. Elia Suleiman
★★★

QUANDO CHEGA A ESCURIDÃO (1987)


Eu ainda tenho que conhecer mais filmes da filmografia pré-THE HURT LOCKER de Kathryn Bigelow, e esse aqui, pelo que eu via, era um dos que a galera mais gostava e recomendava. Foi uma ótima escolha pra adentrar o começo da carreira de uma grande cineasta que já nos primeiros filmes dava passos gigantes. Mistura de western, CREPÚSCULO e filme de terror, este NEAR DARK foi me ganhando aos poucos. O filme chega na metade e dali pra frente eu já não tinha mais dúvidas do filmaço que era.

Tem umas cenas muito bem costuradas e, no geral, sabe muito bem como se manter no mesmo clima durante a sessão toda, como se fosse proposital mergulhar o filme numa atmosfera meio indefinível, atípica, mas que acaba dando muito gosto de acompanhar quando exercita a tensão. O resultado é um filme fascinante. Automaticamente uma espécie de clássico escondido dentro da carreira de uma diretora que ainda pode nos dar muitas obras, sendo essa aqui uma das mais desnorteantes delas. O trabalho de som também está incrível, especialmente durante os tiroteios.

As sequências mais escatológicas acabam surpreendendo bastante também até por serem muito bem arquitetadas, assim como o lado mais romântico do filme acaba ganhando uma luz especial em certos momentos (e os dois atores principais, Pasdar e Wright, estão ótimos). É interessante que NEAR DARK consiga transitar por diferentes gêneros dentro de um só formato, sem se alienar ou precisar passar por vários tons para chegar em um resultado que se estende pelo filme todo, com um clima sombrio e ao mesmo tempo convidativo e meio aconchegante. Confesso que só comecei a me empolgar lá no meio, quando as coisas começam a esquentar mais.

E eu não sabia de nada sobre a história antes de começar a assistir, o que deixou as coisas até mais apimentadas. E quando a gente acha que histórias de vampiros já estão saturadas há muito tempo, vem um filme que olha com curiosidade para os "assuntos de família" e os empecilhos do romance dos jovens protagonistas, sobre as diferenças de seus mundos colidindo no meio de tanta violência, e então se entrega um desfecho temperado das cenas explosivas que vem antes. Pra concluir, a mise-en-scène está em ótima forma em todos os níveis, o que é ainda mais satisfatório, lembrando que temos uma diretora como Bigelow, que sabe filmar ação (tiroteiros, combates e explosões) como ninguém. Acho que podemos concordar que nisso ela é uma baita cineasta.

Quando Chega a Escuridão
Near Dark
dir. Kathryn Bigelow
★★★½

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

ZAMA (2017)


Depois de ter legado ao cinema argentino os excelentes O Pântano, A Menina Santa e A Mulher Sem Cabeça, Martel esperou e, após um hiato de quase uma década, regressou com Zama, seu amargo retrato do pesadelo colonial na América do Sul, recriando personagens enclausurados pelo ambiente escurecido pela colonização, nos seus limites. Através do personagem-título, Diego de Zama, uma das mais prolíficas cineastas do nosso continente investiga a tensão febril do colonialismo e tece um registro selvagem das rupturas da civilização como quem pinta um quadro com exata compreensão do que está retratando, de todos os detalhes e de todos os sentimentos que eles estão representando. 

Nesse intervalo entre um filme e outro, observamos as diferenças que culminaram neste novo trabalho e o que permanece no estilo da diretora. Zama se distancia um pouco do terreno dos outros três filmes anteriores, mas acentua o olhar que a Martel tem para desconstruir a história da forma mais dilacerante. Tenso, estranho e selvagem, Zama é preenchido pelas cenas mais inesperadas, talvez até para um filme histórico, e como resultado temos um filme que não pretende ser decifrado, mas que carrega dentro de si um peso histórico enorme, e a Martel, na sua primeira levada épica, soube costurar com precisão cada parte desse filme quase assombroso pelo seu rigor. Cria uma atmosfera de não-pertencimento que é por si só estremecedora, e que afeta todos os personagens. 

Zama é um marco na carreira de uma grande cineasta como Martel, e um exercício épico dos mais vertiginosos e cativantes no cinema recente. É um retorno mais que bem-vindo de uma diretora que sempre mostou muita maturidade e firmeza em fazer cinema, e aqui não foi diferente nesse quesito. Ela dá passos mais largos em direção a um cinema inesperado, inventivo, único. 

Zama
dir. Lucrecia Martel
★★★